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Conta o Leitor

2021-07-18 às 06h00

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(Sofia Galeão Figueiras)

Ao longo da minha vida, só duas pessoas justificaram despertadores frequentemente programados para determinadas horas da madrugada: Marcelo Rebelo de Sousa e Rui Lobão Afonso. Se Marcelo o motivou há cerca de uma década, em virtude de uma série de entrevistas ao ainda comentador e professor universitário a propósito de temas da actualidade, o segundo – a quem, daqui em diante, tratarei por Ruca – fazia-o por um conjunto de razões que tinham tanto de sério como de divertido.
Pelas 6 horas da manhã, semana sim, semana sim, o meu telemóvel recebia uma mensagem de aviso. Levantava-me a resmungar, pegava no gravador que ele me tinha emprestado para uma entrevista que me tinha mandado fazer e ia entregar-lhe à porta do prédio, onde me esperava com ar bem-disposto. Demorava-me sempre numa conversa matutina sobre o Mundo, a Academia ou apenas qualquer assunto nosso. É certo que, depois disso, me arranjava a correr e seguia para as aulas.
O Ruca não vivia perto da minha casa, mas criava aquela rotina da entrega e recolha de material jornalístico para motivar compromisso, para vincar responsabilidade e para alimentar uma certa relação de respeito, que ficou desde a praxe, mas que significava muito mais do que uma hierarquia: era uma partilha de projecto comum. Com aquele hábito, criou-se a dinâmica de trabalho e, mais do que tudo, cimentou-se uma amizade que dura até hoje.
Dizia-me, muitas vezes, que se sacrificava a ficar acordado até àquela hora para ter a certeza de que eu me levantava a horas para ir às aulas. Seria um grande gesto, não fosse a verdade aquela ser a altura em que regressava do BA, depois de longas horas em que se distinguia por “juntar as partes” em tertúlias sobre tudo e sobre nada. Era um verdadeiro mestre da conversa. Sem horas, sem agenda, sem preconceitos.
Assumindo a função de editor no jornal onde me tinha integrado enquanto aluna de Comunicação Social, o Ruca exigia na mesma medida em que nos dava. Éramos alunos sem experiência e não sabíamos bem como é que tudo funcionava. Achávamos muitas coisas mas sabíamos pouco. E o Ruca, nas suas reuniões de planeamento, dava-nos uma espécie de aula informal sobre as regras, o código deontológico, os contactos necessários, os prazos, as prioridades. E dava-nos as ferramentas a vários níveis: um gravador emprestado, pilhas novas se necessário, algumas ideias de contexto e muito apoio em todas as dúvidas. Para além de tudo isso, a conversa enriquecedora sobre tantos temas que desconhecíamos. E o privilégio de nos editar os textos com mestria, vocabulário rico e perspectiva.
O Ruca dava a volta ao Mundo com as palavras. Tinha já lido imensos livros, estudado diversas culturas, pesquisado temas e aprofundado teorias que adorava partilhar em tertúlias informais com os mais variados interlocutores, a qualquer hora do dia ou da noite. Na verdade, até uma situação de emergência médica podia motivar profundas conversas entre ele e os médicos, os enfermeiros, os maqueiros ou a senhora velhinha que aguardava na sala de espera. Sabia falar com qualquer pessoa porque gostava de falar com todos. E todos gostavam de falar com ele.
Senhor de uma educação refinada e de uma cultura invejável, era um dos alunos mais antigos do curso quando cheguei à Universidade do Minho e assim continuou a ser quando terminei, cinco anos depois. E dessa forma se manteve, por muitos e bons anos, reforçando o seu papel de Cardeal na Academia mas, acima de tudo, vincando um lugar distinto como homem de conhecimentos vastos.
“E perguntais Vós, Senhoras e Senhores, por que ficou aquele aluno tantos anos na Academia?” Porque quis. Porque se alimentava de ideias diferentes das suas, porque se interessava em conhecer e entender todos os que iam cruzando o seu caminho, porque tinha uma sede de partilha, de convívio, de pessoas. O Ruca vivia de forma independente, à sua medida, brincando com os dias da forma mais séria que lhe apeteceu: tornando-se uma referência.
Não foi compreendido por todos, mas foi adorado por muitos. Era genial, inteligente, provocador. Com um sentido de humor invejável, um humanismo exemplar, um altruísmo genuíno. Ao longo dos anos manteve o vício de me enviar mensagens de madrugada, talvez a hora em que sempre o achei mais livre.
Era único e deixou-nos prematuramente. Mas não o esqueceremos. Nunca.

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