Correio do Minho

Braga, terça-feira

Uma morte que tem que mudar tudo

Prémio Nobel da Medicina

Ideias

2017-04-24 às 06h00

Carlos Pires

Morreu uma adolescente, de 17 anos de idade, porque teve o infortúnio de ter estado no sítio errado e à hora errada, foi infectada com o vírus do sarampo e não estava vacinada. O enorme respeito que merece a dor que aqueles pais devem estar a sentir neste momento impede-nos de tecer mais considerações sobre esse específico caso. Contudo, não podemos ser alheios ao facto de haver um surto de sarampo em Portugal. Sim, há mais casos participados da infecção nos primeiros meses deste ano do que aqueles reportados nos últimos 10 anos, todos juntos. Algo que se está a passar um pouco por toda a Europa, com a Roménia a liderar o ranking dos países mais afetados, com mais de 4.000 casos. 

O sarampo é das doenças mais contagiosas: as partículas do vírus, expelidas pela tosse e pelo espirro, permanecem no ar durante horas e podem contagiar quem está até quatro metros de distância do infectado. Posto isto, e sem prejuízo da urgência e importância em rapidamente se controlar a propagação do vírus, urge colocar a questão: o que fazer para no futuro evitar que novos surtos (ou até epidemias) possam surgir?

A comunidade médico-científica tem que dar uma ajuda, uma vez que dependemos dos seus pareceres, apoiados em séria investigação, para que possamos adotar medidas preventivas eficazes. E temos que acreditar que esses pareceres são amplamente escrutinados e avaliados, tudo de forma a que sejam isentos, isto é, desprovidos de quaisquer outras razões (financeiras ou outras) que não sejam o exclusivo interesse e a saúde públicas.

No que ao sarampo diz respeito, parece não haver dúvidas de que a vacinação é absolutamente indispensável. Não é que a pessoa vacinada fique totalmente imune ao vírus, mas, no caso de  ser infectada, o risco de complicações é claramente minorado. Tanto basta para que os pais - uma vez que a vacina é ministrada atualmente a crianças de tenra idade, em duas doses: uma aos 12 meses e uma outra aos 5 anos de idade - não deixem de cumprir a obrigação de velarem pela saúde e segurança dos seus filhos, sendo que o único comportamento responsável e de cidadania exigível é efetivamente promoverem a vacinação daqueles. Haverá sempre acesso a textos, em revistas e (abundantemente) na internet, a desmotivarem-nos para tal tarefa. Isto porque estamos numa era em que 'pós verdade' e 'factos alternativos' são uma constante. Mas não deverão vacilar. Os exemplos de quem recusou vacinar os filhos, sem aconselhamento médico específico, estão aí e não deverão ser seguidos. 

E o Estado? O que deverá promover o Estado para acautelar riscos de contágio coletivo, muitas vezes devido ao comportamento dos incautos? Parece-me que, no caso do sarampo e de outras eventuais doenças altamente contagiosas, urge tornar a respectiva vacinação obrigatória (a par do tétano e da difteria). Afinal, é o interesse coletivo que está em causa, não se reconduzindo a questão a um mero exercício de direitos, liberdades e garantias associados à paternalidade. Deverá haver ainda meios efetivos de controlo, nomeadamente aquele que incumbe às escolas, obrigadas que estão a participar às autoridades os casos de incumprimento. Sim, porque essa obrigação já existe, mas na prática não funciona.

Não percebo a oposição daqueles que postulam o dever de não-ingerência da sociedade, do Estado relativamente a este tema. Se hoje é pacífico e todos acatam as normas que obrigam a conduzir um motociclo com capacete ou um veículo automóvel com uso do cinto de segurança, até porque todos nós percebemos que essa obrigação protege o respectivo condutor, e por isso não é contestada, qual a razão de tanta resistência a algo que não só protege o próprio, como ainda protege toda a coletividade? Essa razão tem um nome: soberba ignorante, que por isso não deve prevalecer. Para bem de todos.

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