Correio do Minho

Braga, segunda-feira

Uma história de amor

A pretexto de coisa alguma

Conta o Leitor

2012-09-01 às 06h00

Escritor

Hercus Santos

Foi numa noite, quando nada tinha para fazer, que o João foi ver o e-mail. Ele viu que havia uma mensagem de uma das responsáveis da Bolsa de Estudo em Portugal. Pois o João está cá estudar por causa de uma bolsa do Governo timorense, para depois voltar e dar a sua contribuição para com o desenvolvimento do nosso país.

O João estava sempre atento ao e-mail, porque de vez em quando a responsável da Bolsa, que era uma senhora simpática, rigorosa e de bom coração, escrevia para dar alguma informação importante sobre determinado assunto. Desta vez a mensagem era sobre os novos alunos que iam chegar na próxima semana e que iam ser distribuídos por todo o território de Portugal continental.

A mensagem dirigida ao João pedia-lhe para ir a Lisboa receber algumas alunas timorenses que vinham estudar na mesma Universidade que o João estava a frequentar. Cabia portanto ao João receber as suas futuras colegas.

Como é um dever moral acolher bem os conterrâneos que acabaram de chegar a uma terra tão distante da nossa, fossem quem fossem, o João foi então recebê-las, porque sabia bem que aquelas novas meninas precisavam muito do apoio e da sua companhia para se sentirem bem acolhidas e integradas. E porque, quando o João chegou a Portugal pela primeira vez, ele percebeu que tudo era novo e encontrou muitas coisas que ele nunca tinha utilizado na sua vida.
Havia outras que ele também nunca tinha visto antes. Por isso, para o João, quase tudo foi novo para ele quando chegou a Portugal e talvez as suas colegas viessem a sentir o mesmo agora.

Logo de manhazinha o João já estava acordado. Ele acordou muito cedo e preparou tudo para ir apanhar o comboio Alfa com destino a Santa Apolónia. Depois de quatro horas de viagem chegou finalmente a Lisboa. Viajou depois para o Oriente para aí apanhar o autocarro para a Portela, onde se encontra o aeroporto de Lisboa. Quando chegou ao aeroporto viu que havia também portugueses chegados de Timor e que eram na maioria antigos professores desses novos bolseiros.

Quando eles apareceram na porta de saída, os olhos do João ficaram fixados numa das meninas. Era algo que ele não podia dominar. Aconteceu automaticamente. Os olhos bem fixados e o coração começou a tremer e a bater fora do normal. Sentiu uma sensação agradável, como se ele tivesse encontrado uma parte dele que estava perdida há muito tempo. Como se fosse uma sede do coração que encontrou a água do amor. Ou como se fosse um puzzle que encontra uma palavra certa que cabe bem no vazio do seu coração. Sentiu-se logo apaixonado por ela. Era um amor à primeira vista, como dizem as pessoas.

Ela era morena da mesma cor do João, tinha um ar afável e era simpática. Quando ela sorriu a alma do João tremia. Era uma rapariga muito bonita, linda, que o João não se cansava de admirar e quando a via sentia uma alegria contagiante.

Guardou estes sentimentos. Ele não queria revelar a ninguém. Mas depois sentiu que havia algo um pouco estranho com o seu nome. Concretamente o apelido dela. O apelido dela era bem que o João sabia. Mas era-lhe muito familiar. No entanto o João não queria pensar nisso agora. Fosse quem fosse, o João já estava apaixonado e ele acreditava no poder do amor verdadeiro.

Com o passar do tempo o amor do João tornou-se cada vez maior. Ele tinha a certeza que ela era o seu amor. Agora dependia apenas dela. O João estava a aguardar para ganhar tempo e perceber como ela poderia reagir ao conhecer os seus sentimentos. Por outro lado, ele queria perceber se ela tinha também os mesmos sentimentos que o João. Caso isso não acontecesse cada um teria de seguir o seu caminho, o seu destino. Porque o João acreditava que tudo na vida já era determinado.

Contudo se o coração deles batia ao ritmo do mesmo amor, então tudo se resolveria. O João acreditava que o verdadeiro amor dava para vencer tudo. Mas o João bem sabia que isso também não era fácil, tal como na vida, o tudo não era fácil. Para tudo era preciso lutar, era preciso fazer sacrifícios e era preciso conquistar. Para além disso, o tempo desempenhava também um papel importante, porque o tempo era o melhor caminho para compreender melhor as ideias e para distinguir o que é verdade do que é falso.

O tempo também era uma medida que permitia avaliar a veracidade e a validade dos sentimentos, incluindo o amor. O amor verdadeiro nasce para ficar na eternidade. Por isso o João queria conquistar este amor, o amor que o João acabara de encontrar. Porque este amor nasce e já não morre mais.

O tempo passou e tudo passou, excepto o sentimento do João. O amor do João ainda permaneceu. Ele ainda estava a aguardar no seu coração para ser correspondido. Dizem que o verdadeiro amor é paciente, humilde, tudo suporta, tudo vence e perdura no tempo. O problema é que aquela menina morena e fofa não sabia que o João estava completamente apaixonado por ela. Quando ela e o João se encontraram, ela abraçou o João e ele, que estava apaixonado por ela, retribuiu esse abraço com todo o seu amor e carinho.

O João a chamou-a de sua “irmã” mais querida. Ela também fazia igual e chamava ao João o seu “irmão” mais querido. A diferença estava na atribuição do sentido da palavra querida e querido. Para o João a palavra querida tinha o mesmo sentido de amor e ele repetia-a com uma pronúncia muito bem acentuada, como para mostrar que a palavra querida escondia o seu verdadeiro sentimento. Enquanto ela não. Era muito ao contrário.

Ela chamou o João querido simplesmente por chamar. Não tinha nenhum sentido. Não tinha nenhuma intenção. Era uma palavra sem valor. Era mesmo só uma palavra e mais nada. Mas ela não tinha nenhuma culpa. O problema é que o amor era uma coisa que tinha a ver com os sentimentos. Sentir ou não sentir. Eis a questão. O João percebeu muito bem isso. Às vezes na vida gostamos daqueles que não nos gostam da mesma maneira. Outras vezes não gostamos daqueles que nos gostaram. Era um pouco complicado.

Relacionar os sentimentos não era fácil. Era algo que deveria acontecer naturalmente. Não podia ser algo forjado. Seria bom que os dois estivessem apaixonados, ou, pelo menos, que ela permitisse que o amor do João entrasse no seu coração para experimentar e testar se esse amor era verdadeiro, ou não. Tratava-se de perceber se esse amor era algo que ela procurava, ou não. Mas mais importante do que isso era saber que o amor não era e nunca podia ser manipulado. Nem podia ser influenciado por ninguém.

Com o decorrer do tempo, o João ainda continuava à espera do melhor momento: o momento certo para revelar o seu amor pela sua princesa do coração. Ele sabia e tinha consciência do risco. O seu amor podia não ser correspondido. Mas na vida era assim, ele precisava de arriscar. Havia, no entanto, duas razões para o João não ter ainda revelado o seu amor. A primeira era que ele queria que a menina morena e fofinha se concentrasse no seu estudo. A segunda era que ele queria dar tempo para que a menina morena e fofinha crescesse e ganhasse um pouco mais de maturidade.

O João acreditava que o verdadeiro amor exigia a paciência para ajudar a melhorar a pessoa amada, sobretudo porque o João acreditava que a menina morena e fofinha era uma boa mulher. Uma mulher de valor e mérito. Por enquanto o João ainda esperava o desenrolar da sua história de amor. O que ele decidiu fazer agora foi entregar a sua história de amor nas mãos do destino, o destino do amor.

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