Correio do Minho

Braga, terça-feira

Uma década para (continuar a destruir) Portugal

Universos convergentes

Ideias Políticas

2015-04-28 às 06h00

Carlos Almeida

Habituados que estávamos à sonolência da sua actual liderança, eis que, no seguimento da apresentação do pomposo relatório com as propostas macroeconómicas, a imprensa nos faz crer que afinal o Partido Socialista ainda mexe.

O documento, intitulado “Uma década para Portugal”, é obra de um conjunto de “académicos reconhecidos” e propõe-se apontar uma política alternativa à do actual governo. Louve-se o esforço, mas fiquemos por aqui. Quase não seria preciso ler o documento para se saber ao que vem o PS e o que pretende com esta iniciativa. Ainda assim, vale a pena perder um pouco de tempo para ler com atenção o que propõe agora o Partido Socialista, quanto mais não seja para se confirmar que de alternativo o documento nada tem.

Reconheça-se, no entanto, a eficácia da jogada. Num momento em que a política está descredibilizada, vinga a notícia de que um partido tem propostas, mais ainda quando resultam de um trabalho em equipa elaborado por “conceituados economistas”. Centra-se assim o debate não nas questões fraturantes, mas no jogo de palavras e números entre o PS e os partidos do governo. Sobre o tratado orçamental? Tudo na mesma.

Os “socialistas” mantêm-se comprometidos, de alma e coração, com um documento altamente penalizador para o país. Sobre a renegociação da dívida? Tudo na mesma. Os “socialistas” continuam escondidos na falsa ideia de que é preciso continuar o debate, procurando fugir a uma posição clara e inequívoca.

De resto, lamentavelmente, o que fica claro é que o PS propõe a continuidade da actual política. Embora com um ritmo diferente, aquilo que sugere é a manutenção dos cortes, o emagrecimento da administração pública, o aumento da idade de reforma, o prosseguimento das privatizações e a redução dos custos do trabalho.

Se dúvidas restam, veja-se então o que andou o Partido Socialista a fazer pelo governo. Entre 2005 e 2011, nos governos de José Sócrates em que António Costa também esteve intimamente envolvido, o PS foi o principal responsável pelas mais penosas medidas que afectaram o povo português. Cortes nos salários e nas pensões, agravamento de impostos, destruição de serviços públicos, privatizações, decadência do sector produtivo, aumento da precariedade e do número de desempregados. Uma política que o actual governo de coligação PSD/CDS prosseguiu exemplarmente e que teve, aliás, a mão amiga do PS em muitas situações.

É a mesma política, no entanto, que hoje, na oposição, o PS diz querer combater. Depois de meses a fio na penumbra, António Costa parece querer agora afirmar-se como o líder que vai devolver ao PS os êxitos de outros tempos já na próxima batalha eleitoral, esquecendo, porventura, as responsabilidades que ele próprio, mas acima de tudo o seu partido, têm pela situação calamitosa a que o país chegou.

Felizmente, são cada vez mais os portugueses que já não se deixam levar na falsa ideia de que a alternância é a garantia de estabilidade do país.
Felizmente, são cada vez mais os portugueses que, antes de tomarem as suas decisões, puxam o filme atrás e revêem os protagonistas da desgraça.
Hoje, torna-se óbvio que não há solução para o país que passe pela continuidade da coligação PSD/CDS no governo, mas também se assume como fundamental garantir que para o seu lugar não vai quem propõe o que o Partido Socialista nos apresenta.

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