Correio do Minho

Braga, segunda-feira

Uma crónica que recusa falar sobre o Sócrates

Sinais de pontuação

Ideias

2014-12-08 às 06h00

Carlos Pires

Chegámos a Dezembro. A quadra natalícia aproxima-se. O orçamento dos portugueses para o Natal não é de todo avantajado, o que não trava o imperativo das compras da época, sobretudo quando é patente uma subida de confiança na recuperação económica. Consequentemente, assiste-se a uma crescente afluência aos estabelecimentos comerciais - todos já só pensam nas compras, muitas delas compras “de obrigação”. É obrigatório não falhar: as crianças querem o mais recente “tablet” ou consola, os adultos não perdoam um presente qualquer. A publicidade e o marketing proporcionam esse estado (de ansiedade) (e de pressão).
Somos mais vazios hoje e, por isso, compramos mais. Compramos mais e, por isso, somos mais vazios. Uma dialética que abarca estes dois sentidos. Eis o Natal contemporâneo. Um Natal que revela falta de tempo para a família e para as pessoas, porque se trata do Natal em que o tempo é reservado para o consumo frenético. Em suma, perdeu-se o verdadeiro espírito natalício: estar disponível para o outro.
Esta quadra, mágica e especial, deveria ser uma altura para nos lembrarmos de que há muitas pessoas sem o calor de uma casa, sem família, que vivem com dificuldades, na doença, ou mesmo na solidão. Há órfãos e há idosos abandonados. Renunciar ao consumo para ganhar tempo para quem precisa é um projeto para ousados, que deveríamos abraçar. Fica pois este desafio lançado.


Tugce Albayrak está a fazer a Alemanha parar para pensar nos valores da cidadania, do altruísmo e da coragem. A 15 de novembro, a jovem, estudante e filha de pais turcos, foi a única pessoa a intervir para ajudar duas mulheres que estavam a ser assediadas por três homens. Mais tarde, foi brutal e cobardemente agredida por um dos homens, e deixada em estado crítico, com ferimentos graves. Acabou por morrer, há uma semana atrás, no exato dia em que fazia 23 anos de idade.
O nome de Tugce Albayrak tem já um lugar nesse lote de pessoas que inspiram a lutar por um mundo melhor. Achei importante homenageá-la, nesta singela forma, dedicando-lhe este espaço de opinião, uma vez que, naquele dia e momento, onde outras pessoas “olharam para o lado”, Tugce mostrou uma coragem e dever cívico exemplares. A sua moral e sentido de solidariedade impediram-na de cair na cobardia, tendo decidido intervir em defesa das mulheres que estavam em perigo. E isso, eu acho absolutamente extraordinário. Quantos (falo por mim!), em situações mais ou menos idênticas àquelas que Tugce presenciou, não optariam por “enterrar a cabeça na areia”, deixando no fundo de cumprir uma regra de convivência social básica: a de ajudar o próximo?
A sociedade em que vivo já me habituou a que, infelizmente, o normal é assistirmos a comportamentos individualistas e egoístas, muitos deles de cariz criminoso. E não se trata apenas de atos de violência física. Incluo também os atos que prejudicam toda a coletividade, como sejam aqueles que materializam a corrupção, o abuso e o tráfico de influências. Vejam-se os constantes escândalos que envolvem poderosos, desde políticos a banqueiros, e que diariamente constituem os escaparates dos jornais e a abertura dos noticiários. A exceção está pois em atos heroicos e de ajuda solidária com quem sofre ou com quem está em apuros.
Devido a Tugce, na Alemanha, mas também em muitos outros países, volta-se a discutir a necessidade de uma maior coragem cívica: o dever de intervir perante casos de violência e de abuso. O dever de reagir a quaisquer comportamentos criminosos, acrescento eu.
Se vês algo, faz algo!
Espero que a bravura de Tugce, e que malogradamente lhe custou a vida, não tenha sido em vão e que sirva para que as sociedades construam diálogos sobre o assunto e lutem (sempre!) pelo respeito, pela igualdade e pelo bem comum.
E porque este é o meu último espaço de opinião, este ano, despeço-me de todos vós com votos de um Santo Natal e de um Bom Ano Novo.

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