Correio do Minho

Braga, quarta-feira

Uma carta dirigida a ti, infância

Saúde escolar: parceiro imprescindível das escolas de hoje

Conta o Leitor

2014-07-14 às 06h00

Escritor

Teresa Braga


Nas noites mais invernosas do meu, mais ou menos, atribulado Viver lembro-me de ti, infância. Por onde andarás? Que vicissitudes da vida te fizeram fugir: escorrer por entre os meus dedos qual ínfimas gotas de um qualquer orvalho pré- primaveril? Infância, para onde fugiste? Tenho saudades tuas!

Tantas e tantas coisas boas vivi contigo…. : a emoção diária dos preparativos para a escolinha e as preocupações com meus coleguinhas, se gostavam de mim…..e o que poderia fazer se tal não fosse assim; a alegria de, com o meu pai ir, ao fins de semana, para as praias da “linha”; as longas e aventurosas viagens de férias - em que percorria Portugal quase de lés a lés! E tu sempre comigo! Sim, tu infância: quero aproveitar o aqui e agora e dizer-te que tenho muitas saudades tuas e das pessoas que contigo conheci e comigo perduraram: e me acompanharam: e me fizeram, enfim, crescer!

Engraçado que agora que escrevo estas sentidas palavras, um nome me salta já à memória, infância: o da senhora dona Marcelina Costeira Bernardes!

Ai a D. Marcelina Costeira Bernardes! Quantas saudades eu tenho dela, infância! Tantas, tantas …
A D. Marcelina Costeira Bernardes, “tia mamã” para os mais novos - e aqui mais novos eram todos os aldeãos com menos de 40 anos- e cozinheira de profissão, era, por si só, uma personagem! Senhora de uma ética impressionante, inabalável, fresca e revigorante e com uma figura física, que sempre eu achei, aconchegante (fruto, com toda a certeza, do enorme pelo amor, desvelo e carinho que sempre lhe tive), sempre impusera o maior respeito em toda a aldeia e, mesmo até, nas vizinhanças!

Aos vinte e cinco anos, segundo me contaram (pois não o cheguei a conhecer), viera casar com o Marcolino Bernardes - iam os longínquos anos cinquenta, o das ameaças de Guerra no Ultramar e da fuga dos “jovens e moços” para melhor vida- que era agricultor de profissão; um senhor dos seus dois metros de altura e com uma bigodaça digna dos melhores artistas da área (se para tal houvesse uma arte)!

Conheci a tia mamã quando tinha cinco anos e fui pela primeira vez “à terra”; era usual, naquele tempo, se comentar: “vou à terra de férias ver os meus” quando a jeito de férias, no mês quente de Agosto, se fugia do calor abrasador da capital e se subia às terras majestosas do Minho.
Infância, lembro-me de tudo! Era um final de tarde infernal… Oito horas dentro de um Fiat 127: passáramos ribeiros luminescentes - qual fresca e perfeita a sua água me parecera do meu lugar apertadinho no banco de trás- e montanhas luminosas - ao longo daquela estrada interminável; qual auto-estradas qual quê, nada disso havia naqueles últimos anos de 70’! E, mesmo assim, era fenomenal!

“ E mostra lá o que trazes aí!”- parece que estou a ouvir as palavras dirigidas ao meu pai! Olhei para aquele rosto tisnado pelo sol, de idade indeterminada, que me fitava e a medo disse:” Sou a Teresinha, a sua sobrinha neta, tia Marcelina!”. De imediato, ar sério, ripostou-me: “ Nada de Marcelina que já nem me lembro de quem essa é, rapariga! Para todos os pivetes- os miúdos e graúdos- sou a mamã; De todos eles sem excepção! Por isso, para ti vai ser tia mamã e chega!”.

E, sabes, Infância, foi assim tão simples: com um olhar e um raspanete o meu coração foi conquistado para sempre! Ainda me lembro daquele bife com batatas fritas e ovo estrelado! Nunca tinha comido, na minha curta vida, algo tão perfeito!

E nos anos seguintes voltei sempre….. Cresci a saber que Agosto queria dizer sempre tia mamã e festa e alegria! Corria livre por aqueles campos fora e jogava á bola com os rapazes por entre balizas perfeitas, precisas e improvisadas do resto de ramos velhos de arvores caídas que os empregados da minha tia, “convenientemente”, se esqueciam de limpar!

Mais tarde, nos anos da adolescência, já “grandinha” e quando o emprego do meu pai no banco não permitia férias em Agosto, lá ia eu sozinha, à aventura, de comboio por “aí acima”. E a magia continuava lá!

Depois veio a Universidade e os primeiros amores. E agora que já era adulta e tinha liberdade, “Agosto era quando eu quisesse”: e eu continuei a ir! E o bife com batatas fritas e ovo estrelado sempre prontos, à minha espera; e os mimos para me curar: da depressão pelos amores ansiados e, às vezes, perdidos e do cansaço da época de exames.

Olha, Infância, a tia mamã morreu como sempre viveu: A cozinhar para os seus pivetes- pequenos e graúdos! Um dia, no meio, duma enorme panela de “feijoada á transmontana”, corria o mês, excepcionalmente frio, de Abril tinha decidido fazer um mimo a todas as suas crianças. Dizem que, de repente, pousou a faca e a cebola queixando-se que a dita a estava a deixar agoniada, e, num repente, caiu mas não mais levantar.

Eu estava de lua-de-mel no Brasil! Até hoje me culpo - porque isto da culpa é uma coisa estupida, irracional- de não estar cá, mais perto dela! Sempre fiquei com a sensação que, no fim, ela não sabia que eu a amava: que ela foi verdadeiramente tia e avó e mãe: ela foi tudo!
O casamento não durou….E, também, nunca mais, um bife com batatas fritas me encheu o coração!

São memórias destas que me fazem sentir tantas saudades tuas, infância! De um tempo em que tudo era mimo e amor e a minha maior preocupação era se naquele Agosto eu iria ter o meu bife com batatas, lá, -naquele paraíso á face da terra- à minha espera!
Com muito amor e carinho e saudade......
Teresa (a Teresinha, lembras-te?) “

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