Correio do Minho

Braga, sábado

Uma campanha miserável

Investir em obrigações: o que devo saber?

Ideias

2011-01-10 às 06h00

Artur Coimbra

1 - Estamos a escassas duas semanas da realização das eleições nas quais os portugueses vão escolher o mais alto Magistrado da Nação para os próximos cinco anos e o que se verifica, ouvindo a rádio, vendo a televisão ou lendo os jornais, é que apenas há um tema em debate neste país: o BPN. Cavaco Silva terá sido altamente beneficiado e ganhou bom dinheiro, ao comprar e ao vender milhares de acções, em razão da sua relação de proximidade com o vígaro maior do banco, Oliveira e Costa. Hoje, contra ele os outros candidatos arremessam venenosos “dardos” eleitorais, procurando capitalizar os silêncios cúmplices, a arrogância desmedida e a impaciência do ainda e provável próximo inquilino de Belém. Não há dia que passe sem que o “caso BPN” teime em manter-se borbulhantemente na ribalta do debate político.
O que se deveria estar a debater, por esta altura, entre os candidatos, era saber se o primeiro mandato de Cavaco Silva foi ou não consistente; se foi positivo ou negativo, em termos globais; em que medida os vetos legislativos, sobretudo em questões fracturantes, se justificaram ou não; que programa, enfim, tem o candidato para o próximo mandato e, designadamente, qual vai ser a sua atitude perante o mais que provável “aquecimento” do ambiente político e do recrudescimento da contestação social nos primeiros me-ses deste ano: vai demitir José Sócrates, ou deixá-lo queimar em lume brando?!.. Estes são alguns dos tópicos que deveriam estar a preencher a campanha, a escassos dias do acto eleitoral. Também de Manuel Alegre se esperaria uma campanha mais serena, mais proactiva, acutilante, mais razoável (até para não se enredar também no seu BPP), mais de apresentar propostas concretas e cenários credíveis, como o da eventual queda do governo nos próximos meses. Na eventualidade de ser eleito, ninguém sabe o que vai fazer, com que linhas se vai coser a sua acção política, qual vai ser o seu relacionamento com José Sócrates, que o suporta apenas, por motivos tácticos, e que não se tem empenhado minimamente (tal como o Partido Socialista) na campanha a favor do candidato que apadrinhou a contragosto. Dos outros candidatos não rezará a história, por muito respeito que mereçam aos eleitores…
Uma campanha que roça a vulgaridade, que se entretém nos ataques pessoais, que não parece mobilizar quem quer que seja, preparando terreno para uma das maiores abstenções dos últimos anos.
É por estas e por outras que a política e os políticos estão no grau zero da credibilidade, no zénite do descrédito.

2 - Sócrates afirmou, na sexta-feira, na Assembleia da República, que quer responsabilizar todas as pessoas que tiveram algum benefício da gestão danosa do BPN. Os portugueses que vão ter de pagar aqueles crimes com língua de palmo, sem terem qualquer culpa no cartório, também gostariam de ver no banco dos réus quem tomou as medidas politicas que se revelaram desastrosas para o erário público, ao nacionalizarem “lixo tóxico”, que ninguém quer comprar. Algum dia as responsabilidades dos políticos terão de deixar de estar cobertas pela “legitimação política” dos eleitores. E sabe-se quantos eleitores votam em Portugal!…

3 - Não morro de amores pelo professor Cavaco Silva e não votarei nele para presidente da República, apesar de considerar o seu mandato globalmente inócuo, como são todos os mandatos de todos os presidentes que não decidem aumentos dos preços dos bens essenciais, nem os cortes nos ordenados ou o congelamento das magras reformas.
Todavia, não posso deixar de aplaudir algumas ideias da sua mensagem de ano novo, há poucos dias. Apesar de demasiado óbvias, e até consensuais, impõem-se como realidades que não são cumpridas pelos titulares do Terreiro do Paço.
Desde logo, quando Cavaco defende que “é sobretudo nos tempos mais adversos que os sacrifícios têm de ser repartidos de uma forma justa por todos, sem excepções ou privilégios”. E o que temos visto por aí, nos últimos tempos, têm sido exactamente “excepções” e “privilégios”, quando nos vendem a ideia de que os sacrifícios estão a ser repartidos por todos os portugueses. Claramente, não estão. Antes estivessem…
Outra ideia é a de que a luta para que os portugueses atingidos pela pobreza não sejam abandonados, “não é monopólio de ninguém, pois constitui responsabilidade de todos”. Elementar, para qualquer Watson…
Outra: “não iludir a realidade é um sinal positivo e uma atitude responsável, pois representa o primeiro passo para mudar de rumo e corrigir a trajectória”. É uma justa “estocada política” dirigida a José Sócrates, que andou meses demasiados a embustear os portugueses com a pro- messa de que a crise estava em vias de emigrar, ou que os PEC iniciais chegavam e sobravam para atacar o défice. Viu-se que não chegaram e, idos os anéis, já quase não sobram dedos para pagar o “buraco” que o BPN abriu nas finanças nacionais, por via de uma nacionalização estúpida e intempestiva, que beneficiou os infractores e enterrou politicamente quem a promoveu. Os estilhaços desta lixeira política ainda vão demorar a passar, para mal de todos nós…
Finalmente, uma última ideia, consensual na sociedade portuguesa e que se aplaude: “é imprescindível que estejamos unidos para enfrentar as dificuldades que atravessamos e que não irão desaparecer em 2011”. Nem mais!

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