Correio do Minho

Braga, quarta-feira

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“Uma abelha na chuva”...

A Europa e o futuro

“Uma abelha na chuva”...

Ideias

2019-11-04 às 06h00

Isabel Estrada Carvalhais Isabel Estrada Carvalhais

Escolho o título da obra de Carlos de Oliveira, um dos nomes grandes (demasiado esquecido, a meu ver) do neorrealismo português, para abertura desta crónica, por aí encontrar a ligação com o que pretendo escrever. Muitos certamente já se deram conta de que na semana passada, em Estrasburgo, o Parlamento Europeu chumbou por dois votos aquela que seria uma importante resolução que visava melhorar as operações de salvamento no mar mediterrâneo, mar que engole cada vez mais corpos e a quem já tantos chamaram de cemitério de água. Ora, não pretendo fazer desta crónica mais um manifesto de indignação (não que eu não tenha, mais do que o direito, o dever de sentir e expressar indignação perante aquilo a que que assisti no plenário!). Já muito se está a escrever sobre o assunto, por vezes até com excessos de linguagem que, embora compreendendo, me parecem desnecessários. Mais necessário, urgente mesmo, seria passar dessa indignação epidérmica, para uma reflexão profunda, que tivesse à cabeça a pergunta: que Europa é esta, em que coabitam visões tão antagónicas sobre o valor da Vida Humana?

Contudo, para eu falar do tema desta crónica, não poderia contornar este assunto. Isto porque, também na semana passada, o Parlamento Europeu aprovou uma resolução muito importante relativa à proteção das abelhas e outros polinizadores. A resolução aprovada, contou com uma esmagadora maioria de 533 votos, entre eles o meu, 67 votos contra e 100 abstenções (sendo que cerca de 50 deputados não terão estado em plenário). Ora, dito assim, qualquer um de nós, cidadãos, sentir-se-á tentado a dizer ‘parece que valem mais os insetos do que as pessoas!’, ‘são mais solidários para defender abelhas, do que crianças que se afogam no mar’. Compreendo a mágoa na simplicidade deste raciocínio. E por antever a facilidade com que alguém poderá dizer algo semelhante, é que achei por bem fazer esta contextualização.

Na verdade, o facto de uma decisão ter sido, em minha opinião, francamente má e egoísta - dêem-se lá as voltas que se quiser dar em torno de explicações técnicas e legalistas - não significa que esta outra decisão, sobre as abelhas, não tenha sido uma boa decisão. E porque é ela assim tão importante? Vamos por partes. Em primeiro lugar, convém recordar que os insetos polinizadores são absolutamente vitais para a nossa própria sobrevivência. De acordo com a FAO, das cerca de 100 espécies de colheitas (frutos, cereais...) responsáveis por 90% da alimentação mundial, 71 são espécies que dependem da polinização pelas abelhas. Paralelamente, e segundo uma das entidades científicas de topo nestas questões, a EFSA (Autoridade Europeia de Segurança Alimentar), nos últimos 10 a 15 anos têm-se registado na Europa declínios consideráveis nas comunidades polinizadoras, particularmente em países como Itália, Espanha, França, Alemanha, entre outros. As causas para o declínio são várias, entre elas o ataque por parte de espécies invasoras como a vespa asiática. Contudo, as principais causas estarão sobretudo nos efeitos cumulativos do uso de pesticidas na agricultura (e outras atividades), aliadas a má nutrição das abelhas (pensemos nas zonas florestais destruídas por incêndios) que as torna muito mais vulneráveis seja a vírus, seja a espécies invasoras. Raciocínio simples: sem abelhas não há polinização; sem polinização há uma ameaça séria à alimentação mundial. Para termos uma ideia de como a polinização é importante, a UE estima que cerca de 15 mil milhões de euros anuais da agricultura europeia sejam diretamente atribuíveis à ação polinizadora de insetos.

Embora reconhecendo que na Europa existe um declínio dramático na diversidade de todos os tipos de insetos polinizadores, e que “numerosos polinizadores estão extintos ou ameaçados de extinção), a Comissão Europeia ainda assim optou por apresentar ao Parlamento Europeu uma proposta de regulação dos pesticidas bastante menos ambiciosa do que aquela que seria expectável. Para tal não terá sido alheia a pressão de 16 estados membros que insistem em discordar da EFSA no que respeita ao que devem ser os critérios de avaliação e admissão de pesticidas. Contudo, na minha modesta opinião, ou respeitamos a Ciência, ou não vale a pena andar a fazer de conta que a respeitamos só quando nos dá jeito. Ora, a EFSA, enquanto organismo científico mundialmente reconhecido, é muito clara nas suas orientações de 2013 relativas ao uso de pesticidas de forma a proteger as abelhas de envenenamento agudo imediato e crónico. Logo, o que seria razoável, seria que a Comissão, ao apresentar a sua proposta sobre o modo como pretende incorporar no Direito Europeu os critérios da EFSA, o fizesse por respeito à Ciência, à Natureza, e aos Cidadãos, e não cedendo a pressões destes ou daqueles estados.

Como não foi o que aconteceu, o Parlamento Europeu decidiu e bem, que a Comissão deverá apresentar nova proposta que demonstre o quão sério é o seu compromisso com o Pacto Verde, com a sustentabilidade ambiental, com a proteção dos insetos, com a promoção da saúde pública, e com a própria valorização da agricultura ambientalmente responsável. Importa, por fim, salientar, que nada disto é contrário à proteção dos interesses dos agricultores, pois se há homens e mulheres dependentes da Natureza, são eles. E sabem melhor do que ninguém que ameaçar os equilíbrios da Natureza é em última instancia ameaçar o seu sustento e o seu modo de vida. Uma abelha é um ser indefeso, dependente da racionalidade das nossas decisões e ações e que sem nada lhe pedirmos, cumpre uma função essencial à nossa própria sobrevivência. Decidimos bem, pois, quando decidimos pela sua proteção.
Mas, e a abelha na chuva? Essa permanece lá, prisioneira da sua trágica metáfora, a simbolizar as vidas no limbo, as vidas perdidas, extintas pela toxicidade da nossa arrogância, dos nossos cálculos, da nossa pequenez.

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