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Um visto “Dourado” para África

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Ideias

2014-02-17 às 06h00

Joaquim da Silva Gomes Joaquim da Silva Gomes

Há pouco mais de uma semana realizou-se o funeral de um jovem da nossa região, depois do seu corpo ter estado mais de dez dias à espera de ser trasladado para Portugal, deixando a família num clima de ansiedade e desespero.
O Pedro era casado e tinha filhos mas, à semelhança de muitos outros portugueses, resolveu abandonar o país em finais de Janeiro deste ano e dirigir-se para outro, situado no extremo sul do continente africano.

Depois de ter visto fechadas todas as possibilidades de trabalho em Portugal; depois de ter visto fechadas praticamente todas as possibilidades de trabalho na Europa, o Pedro decidiu tentar a sua sorte nesse país africano, onde a alimentação, a língua, a cor da pele, a religião, os costumes, as tradições, a saúde e o ensino são totalmente diferentes dos nossos.
Depois de muitas horas de voo, chegou ao seu local de destino cansado, triste e com alguns problemas de saúde, provocados pelo desgaste da viagem, pela débil alimentação e pela ausência, nesse país, de cuidados de saúde básicos. Ao segundo dia de estadia nesse país, o Pedro sentiu-se mal e acabou por falecer!

Sem o consulado de Portugal nesse país, foi um martírio trazer o corpo para cá, tendo este sido sepultado mais de dez dias depois de ter falecido!
Este jovem, que viveu a sua infância e juventude em Portugal, que casou e teve filhos no nosso país, de que gostava e entusiasmava-se com tudo o que dizia respeito à nossa pátria, ficou desamparado e não conseguiu ajuda no momento da sua vida em que mais necessitava dela. Foi procurar melhor sorte noutro destino, mas isso acabou por lhe ser fatal. Morreu só, quase abandonado!

Quando temos conhecimento de casos destes, verídicos, que atingem pessoas que conhecemos, percebemos o quanto é difícil suportar as adjectivações de agentes políticos a auto vangloriarem-se e a elogiarem-se pela descida constante da taxa de desemprego em Portugal.
Em todos os aspectos da vida devemos seguir a vertente da clareza e da honestidade. Saíram de Portugal, em apenas dois anos (2012 e 2013) cerca de 250 mil pessoas.

Estas eram, na sua generalidade, pessoas com qualificações, à procura de emprego noutros países. Eram pessoas que, estando inscritas nos Centros de Emprego em Portugal, acabaram, através da sua saída, por reduzir de forma acentuada a taxa de desemprego no nosso país. Será difícil entender isto?

Por outro lado, a população portuguesa diminuiu nos últimos três anos, consequência evidente da redução do número de nascimentos e da emigração. Mas estes dados pouco parecem importar para os nossos agentes políticos, porque a obsessão é o sector financeiro, exclusivamente.
Nos últimos anos o nosso país vendeu algumas das suas empresas públicas emblemáticas: a EDP passou para as mãos dos chineses; os CTT deixaram de ser empresa pública; os chineses, depois de comprarem há um mês a área dos seguros da Caixa Geral de Depósitos, referiram que Portugal 'é um mercado altamente atractivo'. Alguém duvida? Mas não para os portugueses.

Um país que já se livrou de uma empresa emblemática a nível de construção naval, como o eram os Estaleiros de Viana do Castelo, e mantém uma atitude de leviandade e de indiferença a esta situação, esses responsáveis não merecem consideração!

Algumas das nossas melhores construções e edifícios, a troco de programas, como a denominada 'Autorização de Residência para Actividade de Investimento', estão aos poucos a passar para as mãos de estrangeiros. Até edifícios centenários, situados em centros históricos das grandes cidades, estão a ser adquiridos por esses estrangeiros, maioritariamente chineses. Um dos objectivos destes vistos dourados era a criação de emprego no nosso país. No entanto, no primeiro ano de funcionamento deste programa, apenas um dos 251 empresários conseguiu criar postos de trabalho em Portugal. São estas as consequências dos vistos dourados concedidos aos estrangeiros!

Um país que quer vender a sua melhor empresa na área dos transportes, a TAP, e que quer vender uma das mais emblemáticas empresas de comunicação social da europa, a RTP, apenas com a finalidade de angariar dinheiro, não respeita o passado, não entende o presente e ignora o futuro.

O ministro irlandês das Finanças, numa entrevista recente à CNN, esclareceu que não vendia as empresas públicas da Irlanda por qualquer preço, ao contrário do que Portugal está a fazer. Mas essas são visões diferentes, e talvez sejam eles os que estão errados e nós não!
Até bens culturais, como os 85 quadros de Joan Miró, querem expelir rapidamente do país, a troco de mais uns euros.

O país não é o mesmo desde há três anos para cá: encolheu, empobreceu, assustou-se, vendeu-se, fugiu, está escondido, revoltado e, aparentemente, anestesiado.
Ao contrário de alguns estrangeiros que entram em Portugal com “vistos dourados”, muitos portugueses encontram no estrangeiro vistos de pesadelo e de tortura, que os levam à morte. Foi o que aconteceu com o Pedro!

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