Correio do Minho

Braga,

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Um tempo novo

Mentira social e a mitomania

Ideias

2013-06-27 às 06h00

Isabel Estrada Carvalhais Isabel Estrada Carvalhais

Ainda não partiu mas já todos o choram. A nação sul-africana já sente a orfandade. Será difícil viver sem madiba. Mas madiba é um ser humano e merece que o deixem partir em paz. Depois de tudo o que deu de si, retê-lo aqui é cruel, não é prova de amor. Prova de amor não é prolongar artificialmente a sua vida a ver se consegue chegar ao seu aniversário a 18 de Julho, dia instituído em 2010 pelas Nações Unidas como Dia Internacional de Nelson Mandela. Prova de amor e de respeito maior, é aceitar o seu direito a um descanso definitivo, sem histeria nem choro, mas em profundo agradecimento pela sua herança. Uma herança de luta pela dignidade do Homem e de Mandela é e será símbolo de um ciclo de grandes líderes que representaram grandes causas da Humanidade e que muito provavelmente se encerrará com a partida, um dia, do Dalai Lama.

Sempre e naturalmente controverso, Mandela ficará no Panteão dos grandes que conquistaram a imortalidade quando apenas o que desejavam era a conquista do seu Tempo em prole dos oprimidos, dos humilhados, dos injustiçados.

Foi um tempo benévolo, não obstante, para com os governantes que tinham então a vantagem de saber quem eram os líderes das causas, fosse para os perseguir (como ao Dalai Lama), encarcerar (como a Mandela), ou aniquilar (como a Luther King).

Olhando hoje para os protestos no Brasil ou na Turquia, torna-se evidente que o tempo dos grandes líderes tal como os conhecíamos, chegou ao fim.
Este é um tempo novo em que do pouco se faz e quer dizer muito; em que o pretexto de uma praça pública ou de uma tarifa de transportes é apenas a gota de água que convoca à rua o que há muito já é sentido e conversado no silêncio das redes sociais.

Há muito que os meus amigos turcos já vinham expressando na internet a sua revolta contra a degradação da herança laica do estado turco e contra uma islamização cada vez mais mal disfarçada da sua sociedade, na medida em que Erdogan estava e está convicto de que basta o relativo sucesso económico do país e da sua política externa nos últimos anos para calar a população.

Há muito também que os meus amigos brasileiros vinham comentando, ora o mau funcionamento dos hospitais públicos (só compensado pontualmente pela simpatia e eficiência dos seus profissionais); ora a falta de opções e até de qualidade do pré-escolar público, em face do privado a preços muito elevados mesmo para quem se considera de classe média; ora contra uma classe de políticos “fajutos”, corruptos e incompetentes. Tudo gotas de água…

Mas quando os protestos estalaram na Praça Taksim, ou nas ruas de São Paulo, surpreenderam na verdade só quem andava desatento. Como sempre, entre os mais desatentos estavam os próprios governantes, mais uma vez confirmando a histórica alienação das elites em relação ao mundo real dos cidadãos.

Embora não seja comparável a reacção absurda do governo de Erdogan com o de Dilma Rousseff, há pontos que se tocam. Assim, numa primeira abordagem, ambos os governos procuraram identificar quem liderava os protestos e, como é habitual, vozes em seu redor apressaram-se a tentar minar a credibilidade dos protestos atribuindo-os à iniciativa de partidos políticos, de centrais sindicais, e de grupos que conspiram na sombra contra a ordem e o progresso! Relembro a este propósito a leitura de Erdogan sobre os protestos na Turquia e no Brasil como sendo em ambos os casos fruto de forças ocultas que visam impedir o crescimento destes países. Nada mais errado.

Os protestos de rua são de todos, para todos e sobre tudo, mesmo quando tal natureza os torna contraditórios nas suas reivindicações. Assim é o cidadão do século XXI, complexo, híbrido, obrigado a ter muito mais atenção se não quiser ser absorvido pelas próprias mensagens que procura contestar. No aparente caos fácil em que se move, o grau de dificuldade que o exercício da sua cidadania lhe exige é na verdade elevadíssimo, pois este é o cidadão sem madiba, que tem de ser líder de si mesmo, que tem de saber o que o move, porque o move, o que quer e porque o quer, e persistir em seguida na sua defesa.

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