Correio do Minho

Braga, quarta-feira

Um povo pelo mundo em pedaços repartido

Cancro do Pulmão – de que morrem os portugueses

Ideias

2018-03-25 às 06h00

Artur Coimbra

1. Por estes dias, a selecção portuguesa de futebol está na Suíça a efectuar dois jogos de preparação visando a participação no campeonato do Mundo que se realiza a meio do ano na Rússia.
Muito para lá dos resultados destes desafios a feijões e mesmo não gostando ninguém de perder nem aos ditos cujos (para já, os nossos seleccionados triunfaram tangencial e dificilmente ante o Egipto, na noite de sexta-feira), importa evidenciar e aplaudir o fantástico entusiasmo dos portugueses em torno dos símbolos que representam a pátria, neste caso, concretizados nos jogadores lusos e nas camisolas que galhardamente envergam.
Homens, mulheres e crianças, portugueses pelo mundo, ditos emigrantes, com as suas bandeiras de Portugal, as suas camisolas e os seus cachecóis da selecção, almejam um abraço, um beijo, um autógrafo, uma fotografia, uma selfie, com os jogadores que, no momento, são o elo de ligação simbólica ao seu torrão nativo, o seu país personificado por quem o eleva e distingue, neste caso no plano desportivo, mas podia ser noutros.
Os portugueses que aqui permaneceram e nunca tiveram a coragem e a audácia para atravessarem as fronteiras, hoje bem mais imperceptíveis do que há décadas, rumo ao desconhecido, ao risco e à aventura, não se apercebem muitas vezes da grandeza desta gente que leva Portugal no coração e nele permanece enquanto está longe, a tentar mudar a vida, a ganhar raízes para um futuro melhor.
Os mais destemidos e ousados são os que partem; os mais acomodados ficam-se pela sua segura zona de conforto, à espera de resolver aqui o que em outros locais se atinge melhor e mais rapidamente.
Por isso, é que tantos milhares de jovens (e menos jovens) se espalham cada vez mais por tudo quanto é planeta, um universo de fronteiras cada vez mais fluidas e irreais, numa altura em que o cosmopolitismo é regra e a globalização impera. Os transportes aéreos de baixo custo transformam cada vez mais o longe em perto. As comunicações e as redes sociais aproximam as distâncias e abafam as solidões.
Os portugueses estão pelo mundo repartidos e hoje serão cerca de 5 milhões de nacionais e luso-descendentes que tingem as cores da portugalidade por esses continentes além. Como bem refere o Presidente da República, onde houver um português, seja lá onde for, aí estará Portugal!
É comovedor, na verdade, verificar a paixão que a maioria destes portugueses espalhados pelo mundo nutre pelo seu país, pela sua pátria, pelo seu povo. No fundo, pela sua identidade.
Podem, muitas vezes, barafustar contra os políticos ou criticar os sistemas de saúde ou de segurança social. Contudo, são pormenores. Porque o amor pelo seu país sobreleva tudo e a saudade (essa noção bem portuguesa) se revela avassaladora e asfixiante. A saudade da família, da terra, dos amigos, da gastronomia, do sol, da alegria, da tranquilidade.
Somos um pequeno país, sem dúvida, mas com um povo extraordinariamente grande. E grandioso. Que deu novos mundos ao mundo, na sua alma gigante.


2. Um povo assim, assente num pequeno país, não cabe no seu território nem no seu passado e lança-se claramente para o presente e o futuro.
Um exíguo país, nem sempre com a auto-estima levantada ao nível merecido, tem dado ao mundo homens e mulheres de imenso olhar, de talentoso valor e de incrível capacidade de criar, lutar, investigar, dar-se aos outros, às artes, às ciências, ao desporto, à política, orgulhando quem aqui permanece, sem coragem para assumir a aventura e partir para o desconhecido.
E nem falo dos imorredouros descobridores que a história universal legou, mas de portugueses que mais recentemente se foram impondo em diferentes universos.
Um pequeno país que deu e continua a dar políticos de relevância europeia e mundial, apesar de nem sempre consensuais no seu próprio reino.
Por exemplo, António Guterres que, depois de ter exercido o cargo de Alto-comissário das Nações Unidas para os Refugiados (2005-2015), foi eleito Secretário-Geral das Nações Unidas, desde 1 de Janeiro de 2017.
Ou Durão Barroso, que foi presidente da Comissão Europeia (2004-2014).
Ou Vítor Constâncio, vice-presidente do Banco Central Europeu em fim de comissão (2010-2018).
No campo desportivo, por exemplo, Portugal sagrou-se campeão da Europa de futebol em 2016 e de futsal já este ano. Feitos inéditos no seu historial, autêntica epopeia colectiva de um povo em transe.
E tem o melhor jogador do mundo em cada uma dessas modalidades (os mágicos Ronaldo e Ricardinho).
Pelo meio, em 2017, venceu pela primeira vez o Festival da Eurovisão com uma canção bem improvável interpretada pelo Salvador Sobral. Fantástico!
Portugal dá cartas no automobilismo, nas motos, no ciclismo, no atletismo e em tantas outras modalidades.
Voltando à música, depois de Amália, o mundo rende-se a Mariza, autêntica embaixatriz da alma lusíada nos palcos das grandes cidades europeias e transatlânticas.
Na literatura tem um Prémio Nobel, José Saramago.
Portugal tem ainda uma plêiade de fabulosos investigadores, académicos e cientistas, um pouco por todo o mundo, que enriquecem a ciência e a medicina com o seu trabalho e as suas fantásticas descobertas. É seu paradigma o professor António Damásio, que trabalha nos Estados Unidos.
É claro que internamente, temos gente da melhor em tantos sectores de actividade, que nos orgulham e tornam mais ricos e felizes.
Não fora a escassa auto-estima que temos (certamente vinda do fado e da saudade), poderíamos afirmar convictamente que somos os melhores dos melhores do mundo.
Mas é que somos mesmo, caia o Carmo ou a Trindade! Por isso, é que os nossos concidadãos espalhados pelo mundo, os ditos emigrantes, independentemente das razões que os levaram a abandonar o seu rincão natal, não deixam de ser portugueses de primeira e amar a sua pátria, que é também a sua mátria. Matriz, lugar de origem, de alma e de coração. Onde se nasce e onde se termina o ciclo vital! Berço e cemitério de todo um povo, individual e colectivamente considerado.

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