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Braga, sexta-feira

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Um português que nunca esqueceu a sua terra

Como vai ser a proteção do consumidor europeu nos próximos anos

Ideias

2016-03-27 às 06h00

Joaquim da Silva Gomes Joaquim da Silva Gomes

A segunda metade do século XIX e primeira década do século XX ficaram marcadas por uma forte emigração de portugueses para o Brasil.
Muitos saíram da sua terra natal e conseguiram, fruto da sua dedicação e do seu trabalho árduo, adquirir uma riqueza que aplicaram na ajuda aos seus concidadãos, uma vez que, em Portugal, eram muitos os que se mantinham em níveis extremos de pobreza.

Um desses exemplos foi Francisco Lopes Ferraz, natural de S. Maria (Prado), onde nasceu a 24 de fevereiro de 1834. Aproveitando a presença de familiares já instalados no Brasil (uma presença iniciada em 1725 por Manuel Lopes Ferraz) para aí se deslocou no ano seguinte à célebre revolta da “Maria da Fonte”, que ocorreu em 1846. Tinha apenas 13 anos. Com a ajuda do seu irmão António, que aí se encontrava já estabelecido, Francisco encontrou trabalho no Rio de Janeiro (em Pavuna), onde permaneceu mais de sessenta anos.

Quando dois grandes Estados do Brasil (Ceará e Rio Grande do Norte) não exploravam de forma eficaz um dos seus recursos, o sal, Francisco Lopes Ferraz impulsionou de tal forma esta exploração, que muitos o colocaram na galeria das grandes individualidades da época.
Preocupado com os mais desfavorecidos, cedo contribuiu com a ajuda aos que mais necessitavam. No Brasil, foi secretário e sócio da ‘Benemérita Sociedade Caixa de Socorros D. Pedro V’ e ainda membro da ‘Diretoria da Sociedade Portuguesa de Beneficência do Rio de Janeiro’.

Em 1895 acabou por receber a Cruz Humanitária, conferida pela Sociedade Portuguesa de Beneficência.
No seu país, desenvolveu ações de solidariedade e de colaboração com instituições sociais, que se dividiram entre Prado e Braga. Foi Mesário e Benfeitor do Bom Jesus do Monte e vice-presidente da Confraria entre 1906-1908, encontrando-se o seu retrato a óleo na sacristia do Santuário.
Foi ainda sócio fundador do Theatro Circo de Braga.

Em Prado, desenvolveu algumas obras de grande importância e utilidade para as pessoas, como é mencionado no jornal “A Palavra”, de 26 de fevereiro de 1907, onde se refere que “…o sr. Francisco Lopes Ferraz, acaba de fazer mais uma benemerência ao seu querido Prado. Vendo que no logar se luctava com falta de água por não haver fonte pública, comprou uma nascente, à distância de uns quatrocentos metros, canalizou-a, mandou fazer um fontenário e ofereceu a água ao logar …”.

No ano seguinte, ainda em Prado, contribuiu para o restauro da igreja matriz, dotando-a de dois riquíssimos andores do Senhor dos Passos e de Nossa Senhora.
Numa altura em que os Governos da Primeira República se preocupavam com a instrução dos portugueses, Francisco Lopes Ferraz apoiou a escola primária de Prado, que passou a ter mais higiene, conforto e bem-estar, dotando-a ainda de aquecimento. Foram melhoramentos muito apreciados pela população da época.

Quando faleceu em Braga, em janeiro de 1921, deixou entre outros, os seguintes legados: Junta da Freguesia de Prado 10.000$00, sendo quarenta por cento do rendimento para os pobres no Natal de cada ano, quarenta por cento para as duas escolas oficiais para livros e vestuário aos alunos pobres e vinte por cento para melhoramentos de embelezamento e de interesse público na freguesia; Hospital de S. Marcos e Colégio da Regeneração 3.000$00 a cada; Asilo de Mendicidade Conde de Agrolongo 25 ações do Banco do Minho e 2.000$00; Bom Jesus do Monte, Asilo de S. José, Creche da Associação Católica, Assistência aos Tuberculosos e Oficina de S. José 1.000$00 a cada; Asilo de D. Pedro V, Bombeiros Voluntários, Associação dos Jornalistas e Homens de Letras 500$00 a cada; Conferência de S. Vicente de Paulo (homens) idem (senhoras), Seminário de Santo António e S. Luís Gonzaga 400$00 a cada, Irmandades e Confrarias de Santa Maria de Prado 200$00 a cada uma. Para sufragar a alma do saudoso extinto, os seus sobrinhos mandaram distribuir 3.650$00 por instituições de caridade e associações de classe.

No seu testamento para o Brasil, onde passou mais de sessenta anos da sua vida, ficou explícito que deixava quinze “apólices Gerais Uniformizadas da Dívida Pública do Brazil de valor nominal de um conto de reis cada uma, à Real e Benemérita Sociedade Portuguesa de Beneficência do Rio de Janeiro e egual quantia das mesmas Apólices à Caixa de Socorros D. Pedro V da mesma cidade e vinte das mesmas Apólices para serem distribuídas pelas Casas de Caridade mais necessitadas…” do Rio de Janeiro.

Braga prestou homenagem a este cidadão, para muitos “extraordinário”, atribuindo o seu nome a uma rua. É a “Rua de Ferraz”, que se situa entre o Mercado Municipal e os Bombeiros Sapadores de Braga.
No dia em que se assinala a Páscoa, nada melhor do que recordar um benemérito a quem a nossa região e também o Brasil, muito devem.

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