Correio do Minho

Braga, quarta-feira

Um Portugal pior deixado pela Troika!

Diplomas em tempo de 130.º aniversário

Ideias

2014-05-19 às 06h00

Artur Coimbra

Portugal terminou este sábado, 17 de Maio, oficialmente, o resgate financeiro, sem programa cautelar, o que deu origem a um foguetório verbal dos partidos da direita que ninguém de bom senso consegue entender. Até o Presidente da República, lá longe, de Macau, considerou “marcante” o dia da “libertação”…

Até porque, por um lado, o FMI e a Comissão Europeia vão manter missões regulares ao país, duas vezes por ano, controlando as contas e o orçamento, pelo menos até à década de 40, como fizeram questão de deixar bem claro.
Por outro lado, Bruxelas ameaça o país com novo resgate se o défice resvalar, o que até nem está muito fora de hipótese.
Estamos, assim, num terreno de mera propaganda eleitoral por parte do governo, sem bases sólidas e sustentadas.

Quanto à alegada “saída limpa”, remeto os leitores para o esclarecedor artigo do professor António Ferraz publicado neste jornal em 10 de Maio, em que demonstra claramente que o programa de ajustamento financeiro “teve muito menos de reformas estruturais e de crescimento económico e muito mais de ressarcimento de credores externos, implicando com isso elevados custos económicos e sociais aos portugueses”.

O discurso triunfalista vigente por estes dias é apenas ridículo. Porque nada vai mudar, nas próximas décadas, na vida dos portugueses, dos trabalhadores e dos reformados, porque os cortes vão continuar, o empobrecimento está instituído, a fiscalização dos credores não nos deixará respirar. Aliás, o governo, este sábado, reafirmou que “vai manter as reformas apesar da saída da troika”. Os capatazes da troika continuam cá!...

Importa, antes, fazer um breve balanço do que foi a presença da troika em Portugal, na sequência da ânsia da direita querer chegar ao poder a todo o transe, em 2011, chumbando o PEC 4 e fazendo disparar os juros dos empréstimos para níveis incomportáveis.
Não podemos esquecer que foi Sócrates quem pediu o resgate, mas quem o obrigou a fazê-lo foram todos os outros partidos parlamentares.

E o balanço só pode ser o mais miserável possível, apesar dos governantes por estes dias sustentarem que “o país está melhor, as pessoas é que estão pior”, como se estas coisas fossem dissociáveis.

O programa de assistência arrasou o país, deliberadamente, ideologicamente, com consequências incalculáveis para o futuro. Com toda a soma de sofrimento, sacrifícios, falências empresariais e pessoais, incumprimentos, suicídios. Sacrifícios perfeitamente em vão, apenas para encher os bolsos dos credores, os especuladores financeiros.

O que mais indigna, nesta questão, é falar-se de “ajuda financeira” a Portugal, e a outros países, quando acaba por se saber, por um ex-conselheiro de Durão Barroso, Philippe Legrain, que “as ajudas a Portugal e à Grécia foram resgates aos bancos alemães”. Os governos, em face da crise, trataram de capitalizar o sistema bancário, deixando cair empresas e, no fundo, a economia produtiva.

Vai mais longe este ex-conselheiro, criticando as instituições europeias e a troika por se transformarem em instrumentos para os credores imporem a sua vontade aos devedores, de uma forma quase colonial, sem qualquer controlo democrático.
Legrain adverte ainda que a troika impôs a Portugal políticas erradas, “porque em vez de enfrentar os problemas do sector bancário, a Europa entrou numa corrida à austeridade colectiva que provocou recessões desnecessariamente longas e tão severas que agravaram a situação das finanças públicas. Foi claramente o que aconteceu em Portugal”.

E aponta o dedo, certeiramente: “As pessoas elogiam muito o sucesso do programa português, mas basta olhar para as previsões iniciais para a dívida pública e para situação actual para se perceber que não é de modo algum um programa bem-sucedido. Portugal está bem pior do que antes do programa, e a dívida privada não caiu” (Público, 11 de Maio).

Nem mais: a dívida pública era há três anos de 93,3% do PIB; hoje é de 130% do PIB. Uma catástrofe.
A taxa de crescimento em 2010 era de 1,4% do PIB; em 2013, era de -1,4%.
Nos últimos três anos a economia portuguesa registou uma queda acumulada de 5%. O consumo privado diminuiu 7,1%.

Neste período foram destruídos 340 mil empregos, a taxa de desemprego era de 10,8% em 2010 e hoje é de 16,3%, números nunca vistos e que são amortecidos em grande medida pela emigração de 300 mil portugueses, número trágico que não acontecia desde há 50 anos, quando milhares de portugueses fugiam à miséria e à guerra colonial!...
2,5 milhões de portugueses estão no limiar da pobreza.

A despesa do Estado baixou 8 mil milhões de euros. Quer dizer, pior saúde, pior educação, pior serviço aos portugueses!... Fecharam 9 mil restaurantes.
Temos a carga fiscal mais elevada de que há registo: aumentou de 31,6% para 34,9 % do PIB. Até que nem está mal para quem ganhou eleições com base na mentira de que não ia aumentar impostos!...

Todos nos recordamos dos sucessivos falhanços previsionais da troika e do mais incompetente ministro das Finanças que já tivemos, de seu nome Vítor Gaspar, de péssima memória!...
Também não esquecemos que Passos Coelho adoptou o memorando da troika como programa de governo e fez gala em garantir “ir sempre além da troika”, destruindo ainda mais a economia e os portugueses, muitas vezes ao arrepio da própria Constituição que se comprometeu defender.

O balanço de três anos de troika só pode ser absolutamente negativo: estamos bem mais pobres e desesperançados; com menos serviços de apoio em saúde, educação, justiça; com menos freguesias; com menos gente no país; com menor natalidade; com menos direitos laborais, maior precariedade e insegurança no trabalho. Um Portugal menor em praticamente todos os indicadores!

Por isso, não se percebe o triunfalismo da direita, apesar da melhoria das contas públicas, à custa da devastação do país e do povo.
É claro que, além dos especuladores internacionais que nos emprestaram dinheiro a juros mercenários, sempre houve alguém que lucrou: as grandes fortunas deste país cresceram no mesmo período mais de mil milhões de euros. Ou seja, as empresas de Américo Amorim (+ 4%), Alexandre Soares dos Santos (+21,5%) e de Belmiro de Azevedo (+ 67%), passaram, em conjunto, de 6,47 para 7,7 mil milhões de euros!
Bendita troika, sempre dirão!...

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