Correio do Minho

Braga, quinta-feira

Um pirata é um criminoso. Ponto.

Mar revolto

Ideias

2019-03-24 às 06h00

Artur Coimbra

1. É curiosa a forma como alguns sectores de opinião vêm branqueando uma situação criminosa que envolve um jovem português de nome Rui Pinto e cuja actividade claramente delituosa tem vindo a lume nas últimas semanas na comunicação social portuguesa. E que acabou justamente em prisão preventiva decretada na sexta-feira.
Há quem lhe chame “hacker”; há quem o apelide, em português mais adequado, de “pirata informático”. De todo o modo, estamos em presença de um criminoso. Ponto.
Nunca associamos a designação “pirata” a algo de positivo, ou de aplaudível, como é óbvio. A denominação associa o indivíduo, historicamente, a um marginal que, de forma autónoma ou organizado em grupos, cruzava os mares com o objectivo de promover saques e pilhagens a navios e a cidades para obter riquezas e poder.
Nos nossos dias, os piratas actuam através de meios informáticos, roubando informações a que não devem ter legitimamente acesso. São autênticos ladrões de correspondência alheia, invadindo a privacidade de mensagens entre emissores e receptores a que são alheios.
A violação de correspondência sempre foi um acto desprezível e socialmente condenável. Durante o Estado Novo, a correspondência de muitos portugueses era violada, por motivos políticos ou outros e a consciência geral reprovava obviamente tão asquerosa conduta do sistema político que não deixou saudades.
A mesmíssima atitude é tomada por quem, através de um computador, no silêncio cobarde de uma localização não identificada, a maioria das vezes, acede a páginas de instituições, de clubes ou de pessoas e arromba a sua correspondência, acendendo a mensagens e informações que não lhes dizem respeito, nem a ele são dirigidas.
É o que sucede com o tal Rui Pinto, que esteve preso na Hungria, por crimes de acesso ilegal a informações que lhes não dizem respeito e que acabou esta semana extraditado para o seu país de origem.
É suspeito de crimes cometidos contra algumas instituições desportivas, como o Sporting, o Benfica ou a Doyen, e até Cristiano Ronaldo, e foi detido, por “tentativa de extorsão, acesso ilegítimo a dados de algumas instituições, inclusive do próprio Estado”, entre outros, segundo há tempos divulgou a Polícia Judiciária.
É claro que não espanta que o suspeito reclame inocência. Nunca se viu nenhum criminoso assumir o mais hediondo dos crimes, seja ele qual for. Tem sempre a sua escapatória ou a homilia da inocência para apresentar à opinião pública ou aos tribunais.
O que dá vontade de rir não é a defesa de Rui Pinto, um rapaz, pelos vistos, pobre, que ninguém sabe do que vive mas que já tentou extorquir milhões, e defendido por advogados de luxo, não se sabe bem por quê e quem lhes paga, quando declarou há dias que está a “providenciar serviços de interesse público” e que “os seus interesses devem ser protegidos”. Também ninguém emite uma gargalhada quando o seu advogado William Bourdon alardeia que ele é um rapaz esperto, se calhar até demais. Que é “muito humanista e simples”. Que é um apoiante do F. C. Porto, no que está no seu pleníssimo direito, dizemos nós, até porque já se percebeu onde o rapaz quer chegar...
E que “ficou enojado e revoltado com o que foi descobrindo”, não se sabe bem o quê, até porque diz que não é o autor da violação dos emails do Benfica. Portanto, se não é boi é vaca e vamos ver do que é que o “Justiceiro” de Vila Nova de Gaia estará a falar!!!
O que dá vontade de cascalhar é que haja gente que parece pensar, como o caso da eurodeputada Ana Gomes, quando refere que “não aceito que taxem o rapaz de criminoso sem que a justiça faça o seu trabalho” e que o “Rui Pinto pode ter feito um tremendo serviço à comunidade”.
Pois bem, um criminoso declarado, é alçado a herói, quando entrega correspondência violada a determinados porta-vozes de clubes, para fazerem guerra clubística do mais baixo nível, como se viu nos últimos anos, quando, se as suas intenções fossem mesmo as de colaborar com a Justiça, deveria ter encaminhado o seu ímpeto alegadamente “Justiceiro” para o Ministério Público ou para os tribunais. O quer não fez, obviamente, porque o que ele queria era extorquir dinheiro pelas informações privilegiadas, como deve ter conseguido.
O que tem vindo a ser feito nos últimos tempos, por políticos, comentadores e outros interessados, é a apologia do cibercrime, sinalizando para o mundo que o crime compensa. Estamos perante um “benemérito” que descobre e publica os “podres” de clubes e instituições e que por isso merece a protecção das polícias e até uma condecoração, quem sabe, do Presidente Marcelo. É o que parece ser dito por aí, em surdina ou explicitamente, o que não tem o mínimo cabimento.
Um cidadão que acede ilicitamente a correspondência que não lhe é dirigida, que a abre, a lê, a entrega a quem bem entende, para tentar obter dividendos, e não à Justiça, como seria de esperar e exigir, se o seu propósito fosse mesmo o de “moralizar” a alegada “podridão” do futebol e de outras instâncias, e que não se nega, obviamente, só tem um nome: criminoso. Ponto.



2. Um país que não cuida da sua História, muito provavelmente, não terá grande futuro, alguém escreveu, a propósito da recente notícia de que as escolas portuguesas do ensino básico e secundário, no âmbito da autonomia que lhes foi concedida na gestão do curriculum dos seus alunos, estão a reduzir as aulas de História e Geografia, por troca com aulas de uma nova disciplina chamada “Cidadania”.
Podiam ter cortado a matemática, a biologia, a educação física, ou o português. Ou qualquer outra. Ao decidirem pela História e Geografia, as escolas deram claramente os sinais da relevância que dão àquelas matérias. Que consideram menores, o que obviamente se lamenta Em nome do presente e em nome da História!

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