Correio do Minho

Braga, quinta-feira

Um passo para o desastre

As Bibliotecas e as Escolas

Ideias

2015-12-13 às 06h00

José Manuel Cruz

O título desta crónica podemos pedi-lo de empréstimo ao Professor Centeno, actual Ministro das Finanças. Mais coisa, menos coisa, assim reagiu à musculada intervenção de Miguel Morgado, deputado das oposições. Também o incentivou à honestidade intelectual, é certo, lembrando-lhe que não deixasse de ler parágrafos para atrás e parágrafos à frente, que só assim se entenderiam cabalmente as suas conclusões.
De livrinho na mão, Mário Morgado atirara-se ao Ministro com elegância taurina, cravando-lhe generoso par de bandarilhas. No tal livrinho, Mário Centeno diria umas coisas desafogadas de Economista, sobre o Salário Mínimo e sobre a Contratação Colectiva. Nós sabemos que nada custa a um Economista falar dessas tretas - por si, nunca contará Economista somíticas cinco centenas de euros de tinhoso vencimento; por si, nunca assentará ele nádegas em cadeirinha a que aceda por espúria contrataçãozinha colectiva. São outros requintes!
Nada nos custa aceitar, em contrapartida, que o tal Morgado pudesse ter sido mauzinho, torcendo fora do contexto as palavrinhas do agora Senhor Ministro, pois é sabido que, em caindo a gente em curas a bicarbonato de sódio, se picam os humores, e só nos apetece espingardar a torto e a direito. O pior é quando diz, o agora Senhor Ministro, que estaremos “a um passo do desastre” logo que caiamos na infeliz ideia de “transpor conclusões de artigos científicos para a legislação nacional”.
Concedamos: não se passa do Papel para a Vida assim por dá cá aquela palha, por decalque, que não há de um Professor - Ministro dar-se a fúteis joguinhos de stencil. Enfim, talvez quando tivesse sido criança, ou ainda hoje, mas em casa, com filhitos caídos na lavagem do cesto, ou com netito mais precoce. Porém, com o ouvido manhoso que pouco sossego me dá, a mim pareceu-me que o Senhor Ministro falaria um pouco de outra coisa, ou seja, que a Vida é de tal complexidade que não cabe nuns rascunhos apressados para uma conferência, para um penoso relatório trimestral, para um ensaio de encher carreira; que a Vida está bem para lá das magras abstracções a que chegue um orgulhoso académico, que sobre a Vida em termos nada se aprende nas Escolas de Economia. Não é que a gente não o adivinhasse, só que agora ficamos sabedores de ciência feita.
Para os efeitos práticos da Vida, nada havendo que um summa cum laude articule melhor que tarimbado cidadão, cai por terra a auréola dos técnicos, dos especialistas, dos miraculosos salvadores. Saberão tanto como nós, senão menos. A ser assim, melhor caminharíamos nós para governos em tandem, cada ministério com um técnico e um popular tirado por tômbola à cabeça, um exporia coisas em números ou palavreado esotérico, e o outro corrigiria as arengas com talões de peixaria. Eu acho que era capaz de dar certo. Mas isto serei eu, a um pequeno passo do delírio.
Como o deputado Miguel Morgado poderei estar a outro pequeno passo, este da indecente má língua, se pensar que haja um Centeno AG e um Centeno DG, que a chamada a Governo possa ter determinado mudanças de paradigma mental, que as verdades do Professor não coabitem com as verdades do Ministro, que possa ele ser dois, não um; por exagero - Centenas, não Centeno! Vários seja, se for como o Pessoa, calha bem - trabalhará por dois, e ganhará por um. Nós é que ficamos a lucrar.

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