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Um País que ainda não sabe a data da sua fundação!

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Um País que ainda não sabe a data da sua fundação!

Ideias

2024-06-23 às 06h00

Sérgio Castro Rocha Sérgio Castro Rocha

24 de junho de 1128
– DIA UM DE PORTUGAL

Portugal é um país de história e de conquistas. É um dever preservar a história e, fundamentalmente, celebrar as magnificentes conquistas. Existe conquista maior do que a celebração do dia da fundação de um país? Há um reconhecimento global a nível científico, histórico e até mesmo político que a Batalha de S. Mamede, realizada a 24 de junho de 1128, foi o primeiro passo para a fundação do País. Logo, qual a razão que impede os portugueses de celebrar esta data com a dignidade que merece, numa extensão das celebrações ao país – e que já acontece em Guimarães – para comemorar o Dia Um de Portugal?

Na era da Inteligência Artificial (IA), perguntei no ChatGPT “Qual o dia da fundação de Portugal?” e obtive a seguinte resposta: “Portugal foi oficialmente fundado em 24 de junho de 1128, com a Batalha de São Mamede, onde Afonso Henriques venceu as forças de sua mãe, Teresa de Leão, marcando o início do processo de independência do Condado Portucalense do Reino de Leão. Este evento é muitas vezes considerado o ponto de partida para a formação de Portugal como um país independente. No entanto, a data tradicionalmente celebrada como a da fundação do Reino de Portugal é 5 de outubro de 1143, quando o Tratado de Zamora reconheceu a independência de Portugal. Posteriormente, em 1179, o Papa Alexandre III reconheceu oficialmente Portugal como um reino independente”.

Mas não ficamos pela IA. A relevância histórica da data é reconhecida unanimemente pelos historiadores portugueses. A batalha de São Mamede marca a passagem do poder para D. Afonso Henriques, ou seja, a capacidade de comando militar e a possibilidade de entregar aos seus fiéis a defesa e a organização do território. Frei António Brandão fixa nessa data o início da realeza afonsina; o artista Acácio Lino apelida de 'a primeira tarde portuguesa' no título para o quadro de grandes dimensões que pintou em 1922 para o palácio de S. Bento, então sede do Congresso da República. Nas palavras do historiador José Mattoso, “Como se sabe, as tropas de Afonso Henriques e as de Fernão Peres defrontaram-se em São Mamede, perto de Guimarães, no dia de São João Baptista de 1128, tendo o conde saído derrotado. Era uma data carregada de simbolismo. A mutação cósmica do solstício marcava uma decisiva mudança política. O santo que nesse dia se venerava anunciara a vinda de Cristo. Parecia agora proclamar o aparecimento de um novo reino, destinado a tomar na Cristandade um lugar de relevo.”
Ora se Portugal foi oficialmente fundado a 24 de junho de 1128, qual a razão para não se celebrar esta data como o Dia Um de Portugal?

Atualmente, o 24 de Junho apenas é comemorado como feriado municipal em Guimarães, onde, em 1128, foi travada a Batalha de São Mamede, na qual Afonso Henriques saiu vitorioso contra os partidários da mãe e assumiu o governo efetivo do território portucalense.
O Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, manifestou já em 2021 que a pretensão de tornar o dia 24 de junho como um feriado nacional para celebrar o Dia Um de Portugal terá de passar pela Assembleia da República. “Há aqui uma pretensão de Guimarães, que se dê ao 24 de junho a importância própria de ter sido a primeira batalha, de muitas batalhas, pela independência de Portugal. Isto é um processo em que a Assembleia da República tem a palavra a dizer, como sabem é uma competência parlamentar, portanto, neste momento há uma intenção de chamar a atenção para esse problema. Veremos quando é que o Parlamento entende que deve falar sobre ele. É justo lembrar-se a importância desta batalha e deste dia, é aí que começa um processo muito longo e complicado que culmina na independência de Portugal. Como é que vai ser, a palavra é dos deputados da Assembleia da República”, referiu Marcelo Rebelo de Sousa.
E o que fizeram os deputados da Assembleia da República?

O relevante significado da Batalha de São Mamede e da caminhada para a independência que aí se iniciou, definitivamente constitui um momento histórico singular. O 1.º de Dezembro é feriado nacional para assinalar o Dia da Restauração da Independência de 1640, certo que apenas se restaura aquilo que já existe. Segundo o historiador Barroso da Fonte, “aquilo que em 1640 se restaurou, já tinha 512 anos. O 24 de Junho de 1128 é, contra ventos e marés, a data maior da História de Portugal. Não é preciso ir a Coimbra para compreender este raciocínio. José Mattoso chamou-lhe «aquela primeira tarde Portuguesa».
Posto isto, é incompreensível como ainda não houve coragem política, nem lucidez científica bastante para hierarquizar a importância das datas da História de Portugal. Quando tal se fizer, o 24 de Junho de 1128, o 25 de Julho de 1139, o 14 de Agosto de 1385 e o 1º de Dezembro de 1640, deverão ter escalonada a sua importância.
Sem nascimento nada existe. E todos celebramos o nosso nascimento… mas o nosso País deixa passar em branco a efeméride da sua fundação.

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