Correio do Minho

Braga, quarta-feira

Um país velho, deserto e desigual

Sem Confiança perde-se a credibilidade

Ideias

2014-06-16 às 06h00

Artur Coimbra

Na semana em que se voltou a evocar o Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades vale a pena reflectir sobre o que é isso de Portugal. Que país somos hoje, afinal?
Naturalmente que toda a reflexão passará por um facto tragicamente basilar: vivemos por estes dias a crise mais profunda desde o 25 de Abril, pelo menos.

Desde que o país readquiriu a democracia e restaurou a liberdade. Um país com novecentos anos de história está desde há três anos submetido aos credores internacionais, os ditos “mercados”, que mais não são do que o capitalismo selvagem e sem rosto que apenas visa o lucro e a especulação financeira.

Para essa gente sem alma, na ânsia de empobrecer os povos com a aposta deliberada nas políticas de austeridade selvagem, não contam as centenas de fábricas que são empurradas para a falência, os incontáveis milhares de trabalhadores atirados para o desemprego, as famílias que ficam sem rendimentos dignos e se vêem obrigadas a entregar as casas aos bancos, a tirar os filhos do infantário ou da universidade, por não poderem saldar os seus compromissos.

Esta estratégia ideológica, que tem a colaboração activa do governo, que ele encarna e promove, ao ufanar-se de ir além da “troika”, que continuará por cá por décadas, tem em vista destruir o modelo político, económico e social construído após a Revolução.

Um país cujas empresas estratégicas estão a ser vendidas ao estrangeiro, para dar aos chineses, por exemplo, o lucro que deveria tapar os “buracos” que a ganância da especulação da finança nacional e internacional cavou neste país. Ainda agora se viu com os lucros pornográficos da electricidade, cujas tarifas são absolutamente escandalosas e um dos factores impeditivos de um melhor desempenho da economia nacional.

Um país que, apesar de tudo, viu elevar drasticamente o seu nível educacional, duplicando o número de licenciados no espaço de uma década, nos anos 2000 (quadruplicando a percentagem dos anos 90), mas que continua com um quinto da população sem qualquer nível de ensino. E os licenciados, que são quem empurra a economia e cria riqueza, são apenas 12% da população, muito abaixo da média europeia…

Desafortunadamente, muitos milhares desses jovens foram obrigados pelas contingências da crise a abandonar a “zona de conforto”, para realizarem os seus sonhos. A vaga emigratória dos últimos anos, com centenas de milhares de portugueses em direcção aos destinos do mundo em que há oportunidades de emprego e de uma “vida melhor”, é apenas comparável à debandada dos milhares de nacionais que, nos duros anos 60, rumaram sobretudo à França e genericamente à Europa, para fugir à guerra colonial e à fome, em busca da dignidade que o seu país lhes negava.

Um país cada vez mais velho, desertificado e litoralizado. Permanecem como resistentes à desertificação, no interior, cidades como Bragança, Viseu, Castelo Branco, Évora e Beja. De resto, é a concentração numa estreita faixa junto à costa, sobretudo a norte de Setúbal, Algarve e áreas metropolitanas.

Um país que assistiu ao encerramento de 7000 serviços públicos desde o ano de 2000, quando os sinais da crise começavam a despontar. Fecharam escolas, unidades de saúde, maternidades, postos da GNR, correios, tribunais, repartições de finanças. Extinguiram-se freguesias, numa medida abominável e que não trouxe qualquer benefício às populações. Aldeias ficaram sem ninguém; outras, sem um café, nem um mercado, nem uma criança.

Um “ciclo vicioso” que contribuirá ainda mais para desertificar o interior, pois obviamente ninguém vai para onde não existe nada, nem ninguém lá permanece se não houver motivos de atracção ou serviços mínimos.

O fosso entre o interior e o litoral vai assim agravar-se ainda mais, bem como a distância entre os cidadãos e o Estado. O acesso aos serviços públicos é mais afastado e difícil, mais oneroso, porque obriga a deslocações. E nem se diga que a internet resolve, pois há milhões de portugueses que não possuem computadores e há serviços que não se solucionam virtualmente.

Como refere um investigador do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra, “quando o Estado retira escolas, tribunais ou as Finanças, é o próprio Estado que também desaparece”. Ou seja, a lógica custo-benefício que o Estado aplica para fechar serviços públicos é uma lógica de mercado, de merceeiro, mas não de uma instância em que se exige o serviço às populações e não a mera contabilidade financeira. Para fazer contas e cobrar impostos, nem é necessário existir Estado…

Somos, contudo, um país que jaz contraditório. Por isso, o pessimismo bate recordes no tecido social. A falta de esperança. A desconfiança. Mas também um sorriso e algum acreditar que, um dia destes, mudando os actores e as políticas, será possível ver luz “ao fundo do túnel”…
Um país desconfiado dos políticos, como ainda agora claramente se viu nas recentes “europeias” e que não permitirá que destruam uma pátria, pela qual os antepassados lutaram e morreram, por incompetência, erros, péssimas opções ou projectos políticos perversos.

Um país que não se revê no funcionamento de uma democracia que vive da demagogia e da mentira, em que os líderes partidários chegam à chefia do governo com base na impostura, nas promessas que não cumprem, acabando por concretizar o contrário do que anunciaram nas campanhas. O governo actual é exemplo ostensivo e paradigmático do embuste como estratégia para conquistar votos.

Um país que tem Passos e Portas mas, em contraponto, tem Ronaldo e Mariza, que nos envaidecem e alegram.
Um país que nos envergonha com Relvas e Maduro, mas que nos orgulha com Manoel de Oliveira e António Lobo Antunes.
Um país que não tem políticas de saúde ou de investigação científica, mas tem os melhores cientistas nas melhores universidades, no país e no estrangeiro.

Um país que tem Seguro, mas também tem Manuel Alegre, poeta maior da lusitanidade, cantor da identidade e da resistência.
Um país, apesar de tudo, que é nosso, é único, singular, é o nosso fado, ao qual estamos condenados! Fatalmente condenados!

PS - Aproveito esta tribuna, se me permitem, para convidar os leitores que queiram assistir à apresentação, na Biblioteca Lúcio Craveiro da Silva, em Braga, esta sexta-feira, dia 20, pelas 21h30, do meu livro “As Palavras nas Dunas do Tempo - 35 anos de Poesia”. Foi em Braga que começou a minha aventura literária, com “O Prisma do Poeta”. Em 1978, já era colaborador deste jornal!...

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