Correio do Minho

Braga, segunda-feira

Um país suspenso das eleições

Sinais de pontuação

Ideias

2014-04-07 às 06h00

Artur Coimbra

1. Ainda todos estamos lembrados que, logo no início da sua governação, Passos Coelho, naquele afã fanfarrão de quem se julga imbuído de altos desígnios patrióticos, proclamou, urbi et orbi, “que se lixem as eleições”. Estávamos ainda num período de “estado de graça”, em que tudo era perdoado aos novos inquilinos de S. Bento, alegados “salvadores da Pátria”, do ponto de vista financeiro, depois do pretenso excessivo “regabofe” protagonizado pelo governo anterior de José Sócrates, de que restam imensas dúvidas, estando, antes disso, devidamente comprovada a ânsia de acesso ao poder pela direita portuguesa.
Feita essa declaração de intenções inicial, a prática desmentiria cabalmente uma atitude de despojamento político que se viria a revelar imensamente suspeita e enganosa.
Passos Coelho quer claramente disputar e vencer eleições, deitando às malvas uma modéstia fabricada, uma humildade que se transformou rapidamente em arrogância, um “sentido de missão” que é claramente ideológico e político, um favorecimento do aparelhismo partidário que todos os dias se comprova por sucessivas nomeações para o aparelho de Estado, hoje inteiramente feudo das clientelas do PSD e do CDS. Alguma eventual excepção apenas serve para comprovar a insofismável regra…
Essa enviesada estratégia está patente claramente na forma de encarar as eleições para o Parlamento Europeu por parte do primeiro-ministro, que está convencido que vai continuar a enganar todos durante todo o tempo. A direita quer à fina força vencer as eleições de 25 de Maio, para readquirir algum do fôlego desperdiçado ao longo dos últimos três anos, por via de medidas de destruição da economia e do aparelho produtivo nacional, de que resultou um empobrecimento generalizado dos trabalhadores e da sociedade como há décadas não se vislumbrava.
E para que as eleições europeias não sejam uma miragem, Passos Coelho anda a aldrabar os potenciais eleitores, escondendo uma agenda de austeridade que todos os portugueses sabem que desabará em mais cortes em ordenados e pensões nos meses a seguir ao sufrágio.
Apesar de declarar, para quem se deixa ludibriar, que não condiciona as suas decisões “ao calendário eleitoral”. Como se os portugueses ainda acreditassem no Pai Natal!... É que todos nos lembramos que foi a mentir nas suas promessas ao eleitorado que Passos Coelho chegou à chefia de um governo para a qual não estava minimamente preparado, apesar das suas declarações em contrário.
A afronta governamental começou logo com inábeis e indigentes explicações sobre os cortes “temporários” nos salários e pensões que, afinal, vão passar a “definitivos”. Mas não se sabe quando, nem quanto, nem quais os cortes que vão ocorrer. Importa manter os portugueses na ignorância, pelo menos mais um mês e meio.
Depois, nada transpira sobre os próximos cortes no valor de 2 mil milhões de contos, como avançou há dias, com seriedade, o porta-voz do PSD na SIC, Marques Mendes, que é um político geralmente bem informado na sua ficção de comentador.
Onde vão ser operados tais cortes? As hipóteses não são muitas: saquear mais uma vez os bolsos dos trabalhadores e dos pensionistas, como já vem sendo hábito consuetudinário por parte desta gente que nos governa; desmantelar ainda mais o Estado Social, arruinando os sectores da saúde, da educação e da segurança social para níveis terceiro-mundistas, de que já não andam longe ou, enfim, causticar os contribuintes com mais impostos.
Todas estas hipóteses são péssimas mas apenas serão equacionadas lá para Junho. Todos já antevemos quem vão ser os alvos das medidas, os “suspeitos do costume”…
Porque as grandes fortunas, as rendas imorais, a especulação financeira, não podem ser diminuídas, que diabo, são elas que mantêm este governo, que lhe dão a alma e o ser, que o tornam em objecto de repugnância para o povo português.
Ainda bem que o voto de um capitalista não vale mais que o de um reformado. Estávamos tramados se a democracia fosse condicionada pelo capital no momento da eleição!... Não é. Claramente não é. Bendito sufrágio universal. Ainda bem!...




2. O que mudou (afinal) após três anos de tróica? Três anos após a assinatura do decantado e malfadado memorando de entendimento, o Jornal de Negócios ouviu quatro economistas sobre a actuação da tróica em Portugal. E o que se realça é um sentimento de desilusão e a sensação de um desempenho abaixo do esperado.
Há opiniões para todos os gostos, naturalmente, em função da tendência ideológica.
Há os que culpam o contexto europeu, que “foi muito pior do que se antecipava” e essa foi a razão principal do falhanço da tróica em Portugal. Dá jeito. Como dava jeito, no tempo do governo anterior, responsabilizar maximamente o contexto interno pela crise…
A intervenção da tróica em Portugal foi a maior desgraça que nos poderia ter acontecido, obviamente. Os resultados estão à vista de quem não se quer cego: uma economia de rastos, um nível de desemprego nunca visto, sobretudo na área da juventude, o poder de compra reduzido em 30%, a emigração avassaladora para níveis de há 50 anos, em pleno fascismo, a pobreza a alastrar e a atingir quase 2 milhões de portugueses, um povo triste, sem perspectivas, sem esperança, sem confiança, que é o pior que pode suceder. Acresce uma dívida que não pára de aumentar e que nos asfixiará nas próximas décadas. Para a aliviar, há quem proponha a sua “restruturação”, ou seja, diminuir os juros e aumentar o prazo de pagamento, como tentaria qualquer devedor em face da quase absoluta impossibilidade de saldar os compromissos. Só não quer ouvir falar no assunto quem tem feito gala do estatuto de “bom aluno” na vassalagem ao capital financeiro.
A tróica é responsável por este estado da Nação, sem dúvida, como o é o seu fiel escudeiro e capataz, Passos Coelho, que fez do memorando de entendimento o seu assumido programa de governo, com os trágicos resultados que estão à vista. O “equilíbrio orçamental” não é tudo na vida de um país; quem assim pensa não merece a confiança dos portugueses!..
Como diz o povo, vai ter de pagá-las!... Em eleições, obviamente!...

Deixa o teu comentário

Usamos cookies para melhorar a experiência de navegação no nosso website. Ao continuar está a aceitar a política de cookies.

Registe-se ou faça login

Com a sessão iniciada poderá fazer download do jornal e poderá escolher a frequência com que recebe a nossa newsletter.




A 1ª página é sua personalize-a

Escolha as categorias que farão parte da sua página inicial.

Continuará a ver as manchetes com maior destaque.