Correio do Minho

Braga, quinta-feira

Um país emigrante e deserto

Uma carruagem de aprendizagens

Ideias

2014-02-10 às 06h00

Artur Coimbra

1. Todos vimos na televisão, a meio da semana passada: mais 50 enfermeiros partiram, em lágrimas mas conformados, do Porto para Inglaterra, onde vão trabalhar num hospital perto de Londres. Foram recrutados por uma empresa britânica, que lhes oferece as condições de trabalho que não encontram no mercado português. Somam-se aos milhares de portugueses que todos os anos abandonam a estupidamente designada “zona de conforto”, que os actuais governantes apontaram como solução para gritantes carências na área laboral. Sinal inequívoco da incompetência política para gerir este país e dar esperança ao seu povo e em especial às novas gerações.

Mas, perante esta realidade que qualquer português médio consegue, sem dificuldade, analisar e apreender, vêm Passos Coelho e sus muchachos entoar loas à fantasmagórica descida do desemprego. Segundo os dados de que se ufanam, no último trimestre de 2013 a taxa de desemprego baixou entre nós para os 15,3%. O que, sabemo-lo todos, não passa de mera enunciação de números e estatísticas, que dão para tudo, potenciando as mais diversificadas leituras, servindo até para despudorado aproveitamento político de quem nisso tem interesse, mas que em nada tem contribuído para reverter a situação, bem pelo contrário, como é o caso da direita no poder.

A baixa do desemprego, deveriam proclamar os ocupantes de S. Bento, se quisessem falar um mínimo de verdade, e não apenas a atoarda que lhes convém, não corresponde à criação de empregos que se vejam, mas sim ao recrudescimento do fenómeno da emigração para diferentes destinos do mundo, onde haja oportunidades que em Portugal escasseiam, bem como ao aumento do número de portugueses que já nem se inscrevem nos centros de emprego, porque autenticamente desencorajados e desiludidos com as perspectivas de tal não dar em nada. Por conseguinte, aquela taxa de desemprego relaciona-se apenas com a variação de quem está inscrito nos centros de emprego. Mais nada. Passam ao lado desses números, ou diminuem-nos, os incontáveis milhares de portugueses que todos os dias partem para o estrangeiro, e que no ano passado deverão ter atingido os 100-120 mil, a acrescentar às centenas de milhares dos anos anteriores.

Por outro lado, alguns avançam que houve alguma criação de emprego nos últimos meses, superior à destruição de postos de trabalho registada nos anos recentes, em razão das políticas de excessiva austeridade e de paixão pelo receituário da tróica que este governo levou alegremente a cabo, contra o povo português e o tecido empresarial e económico.
Francamente, olha-se à volta e nada se lobriga. Não abrem empresas, as fábricas não deitam fumo, as gruas não se levantam para construir prédios, os professores estão no desemprego, os enfermeiros vão para Londres, o Estado e as autarquias são obrigados por lei a diminuir o quadro dos activos em pelo menos 2% todos os anos, pergunta-se, então: onde é que estão os raios dos empregos criados, que ninguém os vê?

A não ser que se considerem empregos ocupações temporárias aos balcões dos hipermercados, a troco de uns míseros euros mensais e de uma exploração negreira, nesses mesmos estabelecimentos a que o Estado dá benefícios fiscais de milhões de euros, ou os estágios que o governo financia aos jovens licenciados, durante um ano e que apenas são um embuste paras ‘mascarar’ o flagelo.

Percebe-se que estamos em presença de um governo com várias características: desde logo, explorador dos portugueses, que esmaga com impostos e a quem corta ordenados e pensões, sem dó nem piedade; depois, cínico, aldrabão, inconfiável, mentiroso, entretendo-se em jogos de linguagem para tentar ludibriar os incautos; depois, inimigo dos portugueses, em geral e dos jovens em particular, a quem, por um lado, capacita academicamente e, por outro, esbulha da possibilidade de construírem o seu futuro no país que é o seu, empurrando-os para organizarem a sua vida longe do país que os rejeita; ainda, hiperbolicamente subserviente relativamente aos credores internacionais e nada preocupado com os portugueses que o elegeram; um governo que administra para os privados, para os grupos económicos, nacionais e estrangeiros, da banca e da finança; um governo forte com os fracos mas que se acagaça com os poderosos, da Merkel ao FMI; enfim, um governo que está a delapidar os sectores estratégicos do país, para angolanos e chineses. Quando esta gente for embora, o que vai restar de Portugal e do que nele é público e social?



2. Além de emigrante, ou como consequência dessa realidade, o país está a tornar-se num deserto. De pessoas, de projectos e de ideias. E até de bom senso.
Ainda no anterior governo, fecharam escolas em todos os distritos, empobrecendo o espaço rural. Depois, encerraram serviços nos hospitais, postos médicos, centros de saúde, correios, num movimento centralizador que encontra paralelo apenas no antes do 25 de Abril.

Agora, são os tribunais que encerram, sobretudo no interior, obrigando as populações a deslocarem-se e acabando com tudo o que seja serviço de proximidade. E ainda têm a lata, como fez o primeiro-ministro por estes dias, de virem declarar que, com estas perdas, “as populações ficam melhor servidas”. Em que país imaginário pensa Passos Coelho que está?
Claro que, encerrando o interior, as populações migram forçosamente para o litoral ou para a estranja, apenas restando nas aldeias, vilas e cidades os mais velhos e as crianças, cada vez em menor número. Além de emigrante, este país está a ficar um deserto, em resultado de opções políticas criminosas, que são tudo menos apostas na coesão territorial e social.

A crise económica não explica tudo. São opções ideológicas, castigadoras de um povo que permanece demasiado brando e domesticado e punitivas de estratos sociais e económicos que esta gente acusa de terem vivido “acima das suas possibilidades”, quando todos sabemos que as causas dos males do país estão na corrupção generalizada e nas opções delinquentes da classe política. Com um país devastado e um povo descrente e empobrecido, pergunta-se: o que resta das esperanças do Portugal de Abril?

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