Correio do Minho

Braga, quinta-feira

Um país em transe!

Sem Confiança perde-se a credibilidade

Ideias

2010-05-10 às 06h00

Artur Coimbra

Que a situação do país é bem mais delicada do que nos querem fazer crer, não passa de verdade apodíctica. Apesar dos portugueses estarem a ser anestesiados diariamente com as notícias da vinda do Papa ou distraídos com questões fracturantes como a de saber quem vai ser seleccionado para o mundial da África do Sul, entretanto as empresas não param de encerrar, o desemprego de crescer, as condições de vida de piorar. Basta atentar nos aumentos constantes dos combustíveis ao longo dos primeiros meses deste ano, bem como das taxas de juro dos empréstimos, ou nas quedas visíveis das bolsas de valores.

O espectro do PEC assombra o nosso quotidiano como asa de vampiro.
O PEC é o nosso colectivo desafio, a nossa vitória ou a nossa perdição, nos próximos anos. Ninguém duvida que o país está em transe, que nos desafia individual e colectivamente.
Estamos no cerne de uma das maiores crises das últimas décadas, no mínimo, de que apenas sairemos se tivermos a capacidade de gerar um amplo consenso nacional em torno das principais questões do nosso devir. Consenso que exige a colaboração simultânea e decisiva das forças da oposição e do governo, com as necessárias e desejáveis cedências mútuas, para que os objectivos nacionais sobrepujem, no final, os efémeros e tácticos interesses partidários.

Por isso, se saúda o recuo estratégico do primeiro-ministro José Sócrates, no final da semana passada e depois de “empurrado” para essa solução pelo que restava de um país lúcido, encabeçado pelo Presidente da República e pelo Governador do Banco de Portugal.

Não era admissível que o governo, ainda por cima minoritário, quisesse impor a sua visão de mundo, a sua reiterada obsessão na bondade das obras públicas de grande dimensão como redenção para a crise, quando tantos outros sectores de opinião, igualmente credíveis e respeitáveis, consideravam que quem não tem dinheiro não tem que ter comboios de alta velocidade, auto-estradas onde não são prioritárias ou pontes que não fazem falta. Não vamos estar permanentemente, de forma irresponsável, a hipotecar o futuro. Os nossos filhos não têm culpa dos nossos erros, ou das nossas ambições.

Ainda bem que José Sócrates se viu forçado a “congelar” o novo aeroporto de Lisboa e a nova ponte sobre o Tejo, poupando ao défice público 5 mil milhões de euros.
De igual forma se saúda que esta resolução “patriótica” tenha sido legitimada pelo líder do principal partido da oposição, Pedro Passos Coelho, comprometendo-o com os destinos imediatos do país.

Num momento de gravíssima crise financeira, em que nos confrontamos com o cutelo das sanções indesejáveis da União Europeia ou do execrável Fundo Monetário Internacional, de péssima memória, não seria admissível que o chefe do Governo não demonstrasse capacidade de diálogo, de entendimento, de tolerância, tal como a oposição não poderia continuar a pugnar esterilmente por uma situação de guerrilha permanente contra o governo, numa espécie de política de “terra queimada” que, se em outras ocasiões, terá dado os seus frutos, num momento particularmente sério como o actual não se mostra minimamente compreensível, nem aceitável.

O que se espera, numa altura destas e para além do bom senso nos gastos públicos, é que haja força, raça e vontade de quem manda para enfrentar com decisão os desafios que o presente impõe. Não para ser prepotente, perante os mais fracos, os que inexoravelmente pagam as crises, como os desempregados, os reformados, os subsidiados, os funcionários públicos, aqueles o Estado subjuga para ultrapassar os momentos difíceis. O que se espera de quem está mandatado para deter o leme do poder é que consiga demonstrar ânimo, valentia e audácia perante os mais fortes, os possidentes, as empresas monopolistas, os gestores públicos ou privados que auferem milhões em ordenados e subvenções que configuram revoltante imoralidade face a ordenados médios de vergonha, enfim, as instituições financeiras e os bancos que se ufanam de apresentar lucros indecorosos de 4 milhões de euros diários num terrífico e desanimador cenário de crise…

Esse é o desafio maior: como compatibilizar um povo vestido lugubremente de tanga com um sistema financeiro que, fazendo jus à sua crapulosa identidade capitalista, vive de sugar o sangue dos particulares e das empresas.

Falamos do sentido da justiça e da urgência de todos contribuírem, à sua medida, a começar pelos titulares dos cargos políticos, até pelo exemplo, para o futuro comum. Aí se joga claramente o destino colectivo dos portugueses, mas também, sem qualquer dúvida, o da própria democracia.

PS - É neste país em transe, que se tornam inadmissíveis e caricatos os gestos de responsáveis políticos, como o episódio do deputado socialista Ricardo Rodrigues que se apoderou (na melhor das expressões…) de dois gravadores de jornalistas da revista Sábado, que o entrevistavam. Com as responsabilidades que tem, e ainda que não tivesse, é intolerável que um representante do povo meta ao bolso objectos que não lhe pertencem, só porque não lhe estão a agradar as perguntas que estão a ser feitas. Prepotência, censura, violação da liberdade de imprensa, são algumas das acusações que lhe foram feitas e com razão. Nenhum português se pode rever neste tipo de comportamentos ilegítimos, por muitas razões que tenha para o fazer. Por isso, não deixa de ser vergonhosa a “cobertura” e as “justificações” do chefe da bancada parlamentar, Francisco Assis. Há reacções que têm de se assumir, mas não com desculpas…

Deixa o teu comentário

Usamos cookies para melhorar a experiência de navegação no nosso website. Ao continuar está a aceitar a política de cookies.

Registe-se ou faça login

Com a sessão iniciada poderá fazer download do jornal e poderá escolher a frequência com que recebe a nossa newsletter.




A 1ª página é sua personalize-a

Escolha as categorias que farão parte da sua página inicial.

Continuará a ver as manchetes com maior destaque.