Correio do Minho

Braga, sexta-feira

Um governo sem país

As Bibliotecas e a cooperação em rede

Ideias

2013-01-07 às 06h00

Artur Coimbra

1. O governo que nos coube em sorte continua a ocupar S. Bento, é certo, mas perdeu o país, ou a maior parte dele. Sem dúvida. O respeito do país. A necessidade de o país acreditar. Basta ouvir a rua e as suas manifestações de indignação, ou estar atento à comunicação social.
Desde logo, pelos ziguezagues e imbecilidades do próprio Passos Coelho, que interiorizou estar a assumir a missão patriótica de “salvar” Portugal. Será, alegadamente, o seu “desígnio nacional”. Não será por acaso que recentemente foi fotografado com um livro sobre Salazar: quer ficar para a História como o segundo “Salvador da Pátria”. Só podemos ter comiseração por quem assim se acha, porque ele foi eleito apenas para resolver os problemas do país. Ninguém lhe outorgou nenhum mandato messiânico.
Aliás, é Passos Coelho que, por impreparação política, incompetência e ânsia dos holofotes mediáticos, se diz e desdiz, num exercício de descredibilidade que o torna penoso.
Em Fevereiro, declarou que “Portugal poderá começar a crescer em 2013”. Em Agosto, no célebre e insensato comício do Pontal, assegurou que 2013 “será o ano da inversão na situação da actividade económica em Portugal”. Mais recentemente, no Parlamento, fez marcha atrás, e acabou a vaticinar quer “2013 vai ser um ano de grande dificuldade”, o que, de resto, já se sabia, quer pelo relatório da tróica, quer por esse despudorado e bárbaro assalto aos bolsos dos portugueses que substancia o Orçamento de Estado para este ano.
Curiosamente, pela mesma altura, declarou que “estamos cada vez mais próximos de vencer a crise”.
E na mensagem de Natal, enquanto apelava aos portugueses inocentes para «renunciar de uma vez por todas ao pessimismo», antecipava «dias mais prósperos e felizes». Não se sabe é para quando. Com ele, nunca se sabe quando é que as coisas podem acontecer. É o mesmo que os “amanhãs que cantam”. Para as calendas gregas!...
O homem ou está louco ou lê pelos livros de Vítor Gaspar, essa incompetência parda que, há duas décadas, profetizou o “oásis” de Cavaco Silva, com as consequências que se conhecem. Neste governo, reincide na ausência de capacidade para contribuir para a solução dos problemas do país. Não acerta uma previsão…
Esta gente, em vez de tentar encontrar um lugar na História, deveria aprender com aquela que é e sempre será a “mestra da vida”. Mas não adianta: começam a ser contumazes!...

2. Até o Presidente da República, da mesma área ideológica, criticou fortemente a política do excesso de austeridade de Passos Coelho, acabando por enviar o Orçamento do Estado para 2013 para fiscalização sucessiva do Tribunal Constitucional, porque teve «fundadas dúvidas sobre a justiça na repartição dos sacrifícios». Deveria ter enviado o documento para fiscalização prévia, mas Cavaco é assim mesmo: quer agradar a gregos e a troianos. Promulga o OE para contentar o governo, apesar das suas fundadas dúvidas, mas envia-o para o Tribunal Constitucional, para quadrar à oposição.
Na sua mensagem de Ano Novo, Cavaco Silva demonstrou várias discordâncias com a política levada a cabo pelo Governo de Passos Coelho e apontou para um novo caminho: o crescimento económico em vez da austeridade, tão cara ao governo de Passos, Gaspar e Merkel.
O Presidente da República arrasa o aumento de impostos e o corte nas prestações sociais: «Todos serão afectados, mas alguns mais do que outros».
Mas as críticas ao Governo não ficaram por aqui. Cavaco Silva reconheceu que, com tais medidas de austeridade, «o próprio objectivo de equilíbrio das contas públicas torna-se mais difícil de alcançar», sendo «socialmente insustentável».
E avisou: “segue-se mais austeridade para alcançar as metas do défice público, o que leva a novas quedas da produção e assim sucessivamente. É um círculo vicioso que temos de interromper”.
Por isso, pede um investimento no crescimento económico, o que Passos Coelho nem quer ouvir falar. Crescimento económico? Então, se a missão de “Salvador da Pátria” só se cumpre em ambientes de austeridade excessiva e dramática, como falar em crescimento? Esta gente deve estar loca…

3. Mas as vozes contra o governo, não se ficam por Cavaco Silva. Por estes dias, foi Mota Amaral, deputado do PSD, a alertar para o «alastramento de uma verdadeira catástrofe» em Portugal, face à «crescente indignação» dos cidadãos, que «não vêm nem finalidade, nem fim para os cortes de benefícios».
«A situação geral do país em vez de melhorar, como o Governo promete e todos desejaríamos, tem vindo a degradar-se e basta ter os olhos abertos para comprovar o alastramento de uma verdadeira catástrofe», afirmou Mota Amaral, num artigo de opinião publicado na passada sexta-feira no jornal ‘Correio dos Açores’.
O antigo presidente da Assembleia da República considerou que o «enorme aumento de impostos» determinado para 2013 vai «reduzir contribuintes à insolvência, fazer falir muitas empresas e aumentar o desemprego», acrescentando que a entrada em aplicação das leis que facilitam o despedimento e despejos «só pode piorar a fractura social».
«Parece-me ter sido um erro a voluntariosa opção por ir além da tróica, quando a mais elementar prudência que, como ensinam os clássicos, é a principal virtude requerida aos governantes, aconselhava a ater-se ao conteúdo programático do memorando de entendimento, alegrando assim a base parlamentar e social de apoio ao cumprimento do mesmo», escreveu Mota Amaral.
Nem eu diria melhor, por isso aqui fica a abalizada citação.

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