Correio do Minho

Braga, sexta-feira

Um Governo amigo dos portugueses!

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Ideias

2016-05-29 às 06h00

Artur Coimbra

1. Passaram esta semana os primeiros seis meses de vigência da mais inesperada solução governativa que jamais havia sido tentada em Portugal nos últimos quarenta anos.
Estamos a falar de uma solução maioritária, de esquerda, com o Partido Socialista a governar e o Partido Comunista e o Bloco de Esquerda a apoiarem na Assembleia da República.
Nunca tal havia sido tentado, quer porque todos os protagonistas políticos se acomodavam sempre a uma leitura “tradicionalista” da Constituição (quem vence as eleições, governa, ainda que minoritariamente…), quer porque pesou em demasia durante longos anos a velha clivagem entre um PS tributário de Mário Soares e um PCP ortodoxo, nas suas linhas gerais.
Coube a António Costa o mérito de quebrar o gelo da tradição de uma esquerda de costas profundamente voltadas e que nunca havia sido chamada a ensaiar uma solução governativa conjunta depois das primeiras eleições democráticas de 1976.
É claro que meio ano é muito pouco tempo para se avaliar um executivo que tem sido chamado a apagar diversos fogos que transitaram do anterior governo de direita e que este foi empurrando voluntariamente com a barriga das conveniências eleitoralistas, como é o fragrante e penalizador caso do Banif, que há muito deveria ter sido resolvido, se não fora uma governação mais preocupada em ganhar dividendos eleitorais do que em resolver os efectivos problemas dos portugueses.
O primeiro-ministro António Costa demonstrou, durante estes escassos meses, uma capacidade negocial notável, conseguindo sobreviver aos permanentes ataques de uma Europa que não consegue engolir a solução governativa de esquerda em Portugal e também à imensa demagogia que os partidos de direita vão semeando, à falta de argumentos sólidos e credíveis, depois do estado lastimoso em que deixaram o país.
Não podemos esquecer que o PSD e o CDS passaram a vida a gabar-se, durante quatro anos e meio, de que o seu objectivo era consolidar as contas públicas, diminuir o défice e a dívida pública. Para esse objectivo macroeconómico, trituraram os portugueses com uma apaixonada dose cavalar de austeridade, que empobreceu a generalidade dos portugueses, trabalhadores e pensionistas, com sucessivos cortes de salários e pensões, levando o desemprego a níveis nunca antes alcançados, a falência desarvorada de empresas e à própria insolvência de milhares de famílias.
Não podemos desmemoriar o que foram quatro anos de desgraça colectiva e individual, para mais levados a cabo com uma arrogância neoliberal e capitalista insuportável, uma frieza e falta de escrúpulos de Passos Coelho e Companhia que arrepiam, como se a destruição do país e do seu povo e a venda de tudo o que ainda valia alguma coisa fossem um desígnio patriótico. E claramente não foram. Representaram apenas a destruição do melhor que Portugal tinha, a nível material e humano, num curto período.
Olhando para traz, e não é preciso um grande exercício de memória recente, apetece afirmar que, num país civilizado, o povo teria pedido contas e justiça a um governo que, vistas bem as coisas, esteve ao serviço de algo que não era o interesse nacional, ainda que, farisaicamente, ostentasse a bandeira republicana nas deslavadas lapelas…
E se é certo que a consolidação se foi fazendo, o défice resultou num permanente falhanço, as celebérrimas previsões gasparianas eram já motivo de chacota e a dívida pública não parou de aumentar, ultrapassando nesse período mais de 30 pontos percentuais. Para quem se ufanava de tanto rigor, a conclusão é que não passaram de uns incompetentes, para não dizer mais…
António Costa demonstrou, neste meio ano, algumas mudanças na prática política que são de evidenciar, sublinhar e elogiar.
Cumpriu as promessas de acabar com os cortes salariais na função pública, está a repor as pensões e a diminuir a sobretaxa do IRS, começando pelos escalões mais baixos. Está a olhar pelas pessoas, a contribuir para o aumento do consumo, para a dinamização da economia. Está a cumprir a sua promessa de desapertar o cinto da austeridade!...
Lutando contra a Europa, dentro do possível, sem a subserviência dos governantes anteriores, mas também contra a “herança” dos buracos financeiros legados pela direita, do BES ao Banif, que sugaram milhões incontáveis aos contribuintes e contra os interesses instalados dos privados que querem continuar a extorquir milhões ao Estado ao nível da educação, António Costa tem-se mantido à tona, firme nas suas convicções, dialogante, aberto à negociação sempre que o interesse nacional a reclama.
Tem havido erros de casting na governação, sem dúvida. Tem havido decisões menos acertadas, ou contestações escusadas. O que é normal um qualquer sistema.
Mas o que se pode afirmar é que estamos em presença de um governo amigo dos portugueses. Um governo que forceja pelo aumento do seu rendimento disponível, do poder de compra. Um governo que quer criar emprego e dinamizar o tecido económico, mas cujas premissas não dependem exclusivamente, ou dependem muito pouco, da sua vontade e da força dos seus projectos.
Um governo de que a Europa capitalista não gosta, porque foge ao controleirismo e à dobragem da coluna vertebral a que a finança está acostumada. E quem diz Europa, diz o poder financeiro, especulativo e castigador corporizado nesse execrável ser que dá pelo nome de Wolfgang Schäuble, que é quem manda ou quer que os outros pensem que manda na Europa que, neste modelo, caminha para o desmantelamento, para o desprestígio e para o descrédito. Uma Europa cada vez com mais barreiras e cuja solidariedade não passa de uma mistificação.
2. Esta semana sentiu-se mais um sinal do novo consulado de António Costa, a reposição de feriados nacionais, neste caso a festividade do Corpo de Deus, que nunca deveriam ter sido suspensos e que só a manifesta ignorância e a falta de respeito pela identidade cultural dos portugueses - do governo anterior e da tróica - permitiu que o tivessem sido.
Por estes dias, voltou à baila a questão das “pontes” e dos prejuízos que alegadamente acarretam para a economia nacional. O que conduz à óbvia vontade do patronato em desviar os feriados de terça ou de quinta-feira, colando-os ao fim de semana.
Falou-se em 37 milhões de euros de prejuízo, cabendo perguntar: que entidade é que realizou o estudo que conduz a tão precisas conclusões? Ou estamos em presença de um mero número lançado para o ar, sem qualquer sustentação?
E já agora, numa qualquer “ponte”, não se pode apenas contabilizar o que deixa de se produzir, mas também o que é injectado na economia, em viagens, estadias, alimentação, compras do mais diverso tipo. Ou apenas se olha para o conveniente lado da equação?
E, depois, que sentido faz comemorar o 5 de Outubro no dia 4 ou no dia 7?!...
Absolutamente ridículo!
Espero bem que o governo de António Costa não caia no embuste que as confederações patronais estão a engendrar à vista de todos!...
(Artigo escrito em deliberado desacordo ortográfico)

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