Correio do Minho

Braga, sexta-feira

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Um filme obrigatório

Assim-assim, ou assim, sim?

Um filme obrigatório

Ideias

2019-02-25 às 06h00

Carlos Pires Carlos Pires

Escrevo esta crónica horas antes da cerimónia de entrega dos “Óscares”, os mais mediatizados prémios de cinema, já na sua 91º edição. Sou um amante de cinema, pelo que, confesso-vos, é com elevada ansiedade que aguardo as 23:30 horas portuguesas, momento em que terá início o desfile das estrelas do cinema na “red carpet”.
Tenho as minhas apostas, para uma dezena de categorias que considero as mais importantes: desde logo, o “melhor filme”, mas também as melhores interpretações, argumentos ou realização. Já cruzei as minhas preferências com os resultados recentes de outros prémios de cinema – os “Globos de ouro”; os “Bafta”, prémios ingleses do cinema – pelo que estou preparado para as surpresas (ou não!) que possam seguir-se ao célebre anúncio: and the winner is…

O cinema é uma arte maravilhosa: permite-nos uma sã distração e faz-nos sonhar. Um bom filme muda uma cara fechada, um sorriso torto, um coração sofredor. Mas também nos dá conhecimento e aprendizagem.
Este ano são 8 os filmes nomeados para a categoria máxima, a de “melhor filme”. E é sobre um deles que vos vou falar hoje. Curiosamente, não tratarei daquele filme, poderoso, que será o favorito para o tão almejado galardão – “Roma”, do mexicano Alfonso Cuarón -, nem tão pouco dedicarei este texto a um dos meus filmes nomeados preferidos, “Green Book”- Um Guia para a Vida”.
Decidi pois falar-vos de um terceiro filme nomeado, também das minhas primeiríssimas preferências: “Vice”, um filme de Adam McKay, que analisa a figura de Dick Cheney, vice-presidente dos EUA durante o mandato de George W. Bush (Janeiro 2001 a Janeiro 2009).

Este filme ensina-nos muito. E por isso eu considero-o um filme necessário, mas também um filme obrigatório. O mundo que nós habitamos hoje é fruto de muitas opções tomadas pela administração política americana aí retratada, a mesma que se viu a braços com o ataque terrorista às “Torres Gémeas”, a mesma que decidiu invadir o Iraque, a mesma que retirou direitos aos presos políticos e impôs restrições à imigração. E, por detrás de tudo isto, não estava afinal a figura bizarra de George W. Bush, mas antes Dick Cheney, o homem que impôs o alargamento dos seus poderes como condição para aceitar o cargo de vice-presidente.
Normalmente as nossas atenções vão para o orador político exibicionista, que consideramos como “mais perigoso”. Em “Vice” constatamos que nem sempre é assim; que muitas vezes o homem mais perigoso não é o mais barulhento, mas sim o mais silencioso.

O filme retrata a história da subida ao poder de Cheney, magistralmente interpretado por Christian Bale, fazendo um profundo estudo de caráter deste homem, ligando vários aspetos da sua vida de forma engenhosa, permitindo que o espectador tenha uma visão alargada desta figura histórica: por vezes maquiavélica, outras vezes um estadista, ou mesmo um pai extremoso e um marido dedicado.
McKay, realizador e autor do argumento, não se limita contudo a fazer juízos de valor contra Cheney, revelando uma tendência política que seguramente não pretende esconder. O próprio espetador, comum cidadão, é envolvido no filme e na crítica do cineasta. A nossa cumplicidade na subida ao poder de homens como Cheney, que ameaçam diretamente a nossa democracia, é nos revelada e acusada, fazendo com que “Vice” seja uma verdadeira chapada para quem o vê.

É um filme que deve ser visto por todos nós. Após ver “Vice”, cada um de nós deveria decidir se pretende continuar a ser enganado por políticos como os que são retratados no filme – um filme, repito, baseado em factos reais e bem recentes - ou se, ao invés, queremos começar a tomar um papel mais ativo e de maior responsabilidade nos nossos deveres políticos, como cidadãos a quem incumbe a construção e a manutenção da democracia. A mudança está pois e apenas nas nossas mãos.

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