Correio do Minho

Braga, quinta-feira

Um falhanço colossal!

Diplomas em tempo de 130.º aniversário

Ideias

2012-09-03 às 06h00

Artur Coimbra

1. Todos nos recordamos que há um ano, por esta altura, a exasperante ladainha do Governo em geral, e do indolente ministro das finanças Vítor Gaspar, em particular, era a do alegado “desvio colossal” herdado do governo de José Sócrates. Nunca ninguém conseguiu perceber que “desvio” foi esse, que números concretos significava, a que “buraco financeiro” correspondia, se é que houve algum “desvio colossal”, que não foi apenas um bailinho da Madeira...

Estávamos numa altura em que, vencidas as eleições pelas forças de direita, o importante era lançar areia nos olhos dos portugueses e tentar justificar as medidas draconianas que estavam em curso, numa agenda política que ia muito além das imposições da troika (como se veio a verificar posteriormente) e que acabaria por pretender alterar o paradigma político, social, económico e cultural deste país, à semelhança da ideologia liberal direitista que o executivo tão bem concretiza.

Pedro Passos Coelho prometia-nos um governo curto (o que se veio a revelar um tremendo flop, dada a quantidade de secretários de estado, de adjuntos, de assessores e o 13º ministro António Borges que teve de ajuntar para mandar nos outros todos…), competente (uma supina aldrabice) e independente (só se fosse do PS, PC e do BE).

Ao arrepio do que prometeu na campanha eleitoral e no seu programa, o governo começou por aumentar impostos, cortar subsídios, diminuir salários e subvenções sociais, infernizar a vida da classe média, deixando obviamente incólume os potentados económicos e os bancos que o apoiam. Para além disso, quer vender o melhor que o país tem, ao desbarato, descaracterizando Portugal.

Os portugueses foram submetidos neste ano a uma crise gigantesca e desumana, com a bárbara diminuição dos rendimentos das famílias, a falência de empresas, uma taxa de desemprego a níveis exorbitantes (mais de um milhão de portugueses), o aumento do número de pobres e indigentes que ultrapassam já os dois milhões de pessoas.

Os cidadãos cumpriram, em nome da crise e da necessidade de levantar o país. Os cidadãos que nada tiveram a ver com a crise, que não a provocaram, que não fizeram os negócios ruinosos das PPP, que não nacionalizaram esse antro de corrupção que foi o BPN, que se limitam a pagar os seus impostos e a cumprir as suas obrigações.

Os portugueses fizeram a sua parte, foram sujeitos aos mais hercúleos sacrifícios, perderam casas, carros, frigoríficos, tiraram os filhos dos jardins-de-infância e das universidades, cumpriram. Mas o governo demonstrou a sua incompetência, o que de resto já não é surpresa. Nos últimos dias, ficou a saber-se que o défice do primeiro semestre deste ano é de 6,9 %, segundo a Unidade Técnica de Apoio Orçamental, o que significa que as medidas de consolidação previstas não deverão ser suficientes para assegurar o cumprimento do objectivo para o défice orçamental de 2012, ou seja, 4,5 por cento do Produto Interno Bruto.

As medidas do lado da despesa estão a ser executadas: foram cobrados mais 236 milhões de euros de impostos aos trabalhadores e poupados quase 1000 milhões de euros com os cortes na função pública.

Vítor Gaspar é que está a demonstrar uma incompetência inaceitável a nível da previsão da recolha dos impostos: neste período registou-se um “buraco” de 2,8 mil milhões de euros na receita fiscal (IVA, IRC, ISP, veículos, tabaco).

Qualquer merceeiro que saiba fazer contas, sabe que num período de profunda recessão económica, com a economia paralisada, não há acréscimos de impostos (como o engasgado ministro previa, no papel), mas antes a sua diminuição, como a prática acabou por ensinar-lhe. Fazer contas em contrário, só comprova má fé, calculismo político ou, o que é mais certo, inaptidão e incapacidade para o cargo.

Ele que tanto fazia gala em falar há um ano do “desvio colossal”, engula agora este vero “falhanço colossal”, que desmerece o país mas humilha o governo e faz cair o país nas piores expectativas quanto à estratégia orçamental.

A austeridade tem sido um falhanço e alguém tem de ser fortemente responsabilizado. Não é certamente o povo português, que não tem mais buracos para apertar o cinto.


2. Enquanto os portugueses regressam ao trabalho e os deputados continuam em férias de dois meses, com o devido subsídio que os funcionários públicos não tiveram, porque ganham muito menos e têm de viver em exclusividade da sua missão, o nosso primeiro garantiu há dias, no Pontal, na anual silly season, “que não haverá recessão e disse ter a certeza de que a recuperação económica vai começar no próximo ano”.

Palavras textuais: “”O ano de 2013 será de inversão da actual situação económica em Portugal”.
É claro que são promessas de vendedor de banha da cobra. Promessas tão fáceis de pronunciar e que já em outros anos ouvimos e que se vieram a revelar uma falácia, um embuste, uma aldrabice. Já estamos habituamos a não acreditar nesta gente sem credibilidade!


3. Só mais um breve apontamento: no fim de Agosto, na Universidade de Verão do PSD, em Castelo de Vide, Jorge Moreira da Silva, vice-presidente do partido, no afã de atribuir tudo o que é positivo aos seus correligionários, anunciou que o governo de Passos Coelho “conseguiu aumentar as exportações”. É preciso ter lata. Um governo aumenta as exportações? Já percebi: no último ano emigraram 150 mil portugueses, a maioria jovens qualificados! … O governo exportou 150 mil cidadãos!...
Bravo, Moreira da Silva!... Grande aumento!...

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