Correio do Minho

Braga,

Um discurso quase messiânico para o povão!

Serviços de pagamento: mudaram as regras

Ideias

2018-01-14 às 06h00

Artur Coimbra

O Presidente Marcelo Rebelo de Sousa falou ao país em 1 de Janeiro, na tradicional Mensagem de Ano Novo.
Foi um discurso carregado de subentendidos, de recados implícitos para os outros. Porque a responsabilidade nunca é de Sua Excelência. Nunca assume nada. Ele, que é o Chefe do Estado que acusa de falhar em diversas áreas da vida nacional, nunca tem culpa de coisa alguma. A culpa é sempre dos outros.
O Estado falha mas o seu líder máximo nunca falha, o que não deixa de ser paradoxal
Francamente não gostei do discurso, a não ser do ponto de vista literário, que não político, e não estou a gostar da atitude de um Presidente que fala demais, que reage a tudo o que mexe, sem qualquer reserva, sem contenção, nem a mínima discrição. Passados dois anos em Belém, Marcelo teima em não despir a pele de opinador televisivo. Já cansa ouvi-lo comentar, a propósito e a despropósito, desde que se levanta até que se deita.

Como alguém escrevia, há poucos dias, Marcelo transformou o P.R. num comentador diário, com palavra pronta sobre todos os temas, desde a influência dos raios gama no comportamento das margaridas, à qualificação das intervenções do Primeiro-ministro. Decorre daqui uma enorme pressão sobre o sistema político e uma excessiva dependência comunicacional do que possa ser em cada momento a opinião do P.R. Não é seguro que o prolongar desta situação seja bom para a democracia, ou salutar para a convivência democrática entre os diferentes órgãos de soberania. É o que se diz por aí, com todo o respeito.
Marcelo falou de um ano de 2017 estranho e contraditório, um ano povoado de reconfortantes alegrias e de profundas tristezas.
Um ano em que íamos vivendo, como se de um sonho impossível se tratasse, finanças públicas a estabilizar, banca a consolidar, economia e emprego a crescer, juros e depois dívida pública a reduzir, Europa a declarar o fim do défice excessivo e a confiar ao nosso Ministro das Finanças liderança no Eurogrupo, mercados a atestarem os nossos merecimentos.

Nesse ano glorioso, cabem ainda o triunfo europeu da nossa música (Salvador Sobral), os elevados galardões no turismo, o sucesso reiterado no digital ou os êxitos nas artes, na ciência ou no desporto, colocando Portugal como destino cimeiro universal.
Marcelo estabelece uma divisão entre a primeira e a segunda parte do ano.
Se o ano tivesse terminado em 16 de Junho, ou tivesse sido por mais seis meses exactamente como até então, poderíamos falar de uma experiência singular, constituída quase apenas por vitórias.
Contudo, assim não aconteceu, e sucederam tragédias de monta, como os incêndios catastróficos de Junho e em Outubro, de consequências devastadoras, o acidente de Agosto no Funchal, ou o espectro da seca. Tudo metido no mesmo saco, como convém, para que as culpas sejam distribuídas, mesmo a quem não tem a mínima responsabilidade. E ninguém teve culpa directa do que ali se refere, obviamente, a não ser a portuguesíssima mania de querer encontrar culpados para todas as situações

Vem depois a treta da reinvenção do futuro, o que concretiza, referindo: Reinvenção da confiança dos portugueses na sua segurança, que é mais do que estabilidade governativa, finanças sãs, crescente emprego, rendimentos. É ter a certeza de que, nos momentos críticos, as missões essenciais do Estado não falham nem se isentam de responsabilidades.
Um conceito poético, num discurso quase messiânico (sem Messias), como bem o descreve uma semana depois o filósofo José Gil no jornal Público, para concluir que no Portugal de 2018 não há lugar para messianismos nem para visões proféticas do Quinto Império, como parece querer Marcelo e que tiveram o seu lugar no Portugal de Salazar, bem antes de 25 de Abril de 1974.
Escreve José Gil: Se reinventar significa revolucionar recomeçando do zero, não há espaço hoje em nenhum país, para tais devaneios

Devaneios, palavras bonitas, encantatórias, para eleitor ouvir e gostar, para o povão apreciar, quanto mais primário melhor, mas sem grande adesão à realidade quotidiana!...
Obviamente, o discurso não poderia terminar sem quatro recados, que foram amplamente glosados pelos comentadores nos dias seguintes:
- Temos de converter as tragédias que vivemos em razão mobilizadora de mudança, para que não subsistam como recordação de irrecuperável fracasso.
- Temos de afirmar nesta exigente frente de luta colectiva a mesma vontade de vencer que nos fez recusar a resignação de uma economia e de uma sociedade condenadas ao atraso e à estagnação.
- Temos de superar o que de menor nos divide para afirmar o que de maior nos une.
- Temos de ser como fomos nos instantes cruciais das grandes aventuras, dos grandes riscos, das grandes catástrofes, dos grandes encontros com a nossa História.

O temos aqui utilizado não passa, obviamente, de um plural majestático. Qualquer coisa que venha a correr menos bem, e Marcelo sacode a água do capote, pois a culpa será sempre dos outros, que nunca dele
Claramente, 2017 foi o melhor ano dos últimos anos, a todos os níveis, apesar das tragédias, sempre de lamentar. A fixação nas catástrofes e sobretudo nos incêndios não deixa de ser um sinal político significativo do actual Presidente da República, obcecado até à exaustão em capitalizar as desgraças dos portugueses, sobretudo do interior, que ele considera o povo autêntico, como se não fossemos todos portugueses dos melhores. Péssimo sinal para o país! Os portugueses orgulham-se de um ano como o anterior, apesar das considerações de Marcelo Rebelo de Sousa.
O resto é conversa fiada. E metáforas literárias!...

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