Correio do Minho

Braga,

Um dia no Futuro

Macron - Micron

Conta o Leitor

2015-07-02 às 06h00

Escritor

Ana C. Nunes

O cigarro acesso e ainda meio por consumir foi repousar no cinzeiro ao lado da cama. O fumo que saiu por entre os carnudos lábios da sedutora mulher despida, envolveu o quarto escuro. O homem que dormia a seu lado, com o seu corpo musculado e tez bronzeada, era o melhor amante que ela conhecera e os dois entendiam-se muito bem entre lençóis e fora deles.
O luxuoso quarto estava silencioso e não se ouvia uma sirene sequer no exterior do prédio. As estrelas e a Lua cheia reluziam mais do que nunca.
Um ecrã holográfico saltou à frente dos seus olhos, o seu verde contrastava em absoluto com o restante ambiente, exibindo em letras mecânicas a mensagem

Consulta mensal de saúde marcada para daqui a 1 hora
Ela pressionou o holograma no canto superior direito e o ecrã desapareceu por completo. Desviou os lençóis de cetim que acariciaram gentilmente a sua pele e saiu da cama sem grandes cerimónias, caminhando nua pelo extenso quarto.
Aproximou-se do pequeno ecrã que estava colocado na parede ao lado da porta de entrada e pressionou os números

754391275
O ecrã mudou para a cor laranja e exibiu a mensagem

Terminar sessão
A mulher desmaterializou-se.
Num minúsculo quarto, cujo único mobiliário era uma espécie de cadeira de consultório com uma infinidade de fios ligados a dez pequenos ecrãs espalhados em todos os cantos, que por seu lado estavam ligados por inúmeros cabos a várias tomadas de parede, repousava uma mulher obesa.
Um dos ecrãs exibia uma mensagem em letras vermelhas

Sessão terminada
A mulher abriu os olhos relutantes e levou as mãos inchadas até aos fios que estavam ligados à sua testa, retirando-os cuidadosamente, um a um, e colocando-os numa bacia metálica do seu lado esquerdo. Fez o mesmo ao tubo que estava ligado a um buraco que a veste tinha no lugar da virilha e outro, ainda maior, que descia por baixo da mesa.
As luzes amarelas do compartimento ligaram-se automaticamente assim que ela retirou as pernas gordas do conforto da cadeira.
As suas canelas não resistiram e cederam perante o seu peso. Ela embateu no chão com um sonoro som e gemeu palavrões e frustrações umas a seguir às outras, como se isso a fosse ajudar a levantar-se.
Demorou alguns minutos a conseguir erguer-se. Os membros estavam adormecidos e o corpo não estava habituado a carregar tanto peso. Quando finalmente conseguiu mover-se correu o fecho do fato completo que usava e despiu-o com alguma dificuldade. O suor e restantes fluidos que lhe cobriam o corpo tinham colado o fato, já de si justo, ao seu corpo quase como um autocolante.
Começou a caminhar lentamente até à porta metálica que se encontrava do lado esquerdo do quarto. A porta deslizou para lhe dar passagem. Do outro lado encontrava-se um cubículo onde não cabia mais de uma pessoa, com as paredes brancas cobertas de pequenos orifícios. O tecto era em metal e quando ela entrou a porta voltou a fechar-se, exibindo um pequeno ecrã, na parte de trás da porta, com várias escolhas

Duche rápido
Massagem corporal
Sauna
Deluxe
Ela pressionou a opção de duche rápido.
Jactos de água de cheiro voaram pelas centenas de orifícios da parede e o tecto abriu-se para deixar descer duas pequenas mãos metálicas, uma com uma esponja de massagens e outra com orifícios nas extremidades. As duas juntaram-se e do primeiro orifício saiu um espesso líquido de cor rosa para cima da esponja da outra mão que rapidamente iniciou a sua árdua tarefa de esfregar todos os cantos do corpo da mulher. Ela limitou-se a abrir ligeiramente os braços e pernas, deixando que os mecanismos fizessem o seu trabalho.
Cerca de quinze minutos depois, com o cabelo já hidratado e o corpo seco, todos os aparelhos recolheram às suas estações, e o ecrã brilhou a vermelho
Duche terminado
A porta voltou a abrir-se e ela deu passadas lentas pelo chão frio, atravessando o quarto adjacente e indo de encontro à outra porta que também se abriu à sua passagem.
Estava dentro de um outro cubículo mas este estava revestido com espelhos e apenas continha uma ranhura que atravessava uma das paredes de um lado ao outro e um pequeno ecrã, colocado por cima da ranhura, com um simples menu

Homem
Senhora
Seleccionou senhora, maldizendo a tecnologia por não a reconhecer automaticamente como fêmea da sua espécie. Outro menu brilhou

Casual
Desportivo
Formal
Ela foi seleccionado menu atrás de menu e as escolhas aumentavam a cada pressionar dos seus dedos desajeitados. Finalmente surgiram no ecrã múltiplas fotos de vestidos floridos, a escolha que ela tinha feito anteriormente. Ela pressionou o terceiro da primeira fila, um curto vestido primaveril, branco com flores de várias cores. Nos espelho o seu reflexo mudou e ela pôde ver, de todos os ângulos possíveis e imaginários, como ficaria naquela roupa. O seu corpo continuava despido mas a imagem holográfica era perfeita e ela decidiu que aquele vestido lhe assentava muito bem. Pressionou

Comprar
A ranhura na parede abriu-se para deixar passar o vestido que ela acabara de adquirir. Outras duas mãos metálicas surgram no topo daquele compartimento, erguendo o vestido, deslizando o fecho e enfiando, com mil e um cuidados, no corpo da mulher obesa. Terminada essa tarefa, ela voltou ao ecrã para pressionar a seguinte cadeia de escolhas

Mudança de parâmetros > Transporte > Local: Consultório Médico “Beleza Eterna” > Aprovar desintegração
Assim que terminou esta sequência o chão começou a brilhar um intenso azul e o corpo dela começou a desmaterializar-se.
Quando voltou a abrir os olhos encontrava-se em frente a um balcão, numa pequena sala de paredes lilás. A menina atrás do balcão cumprimentou-a com um largo sorriso pedindo gentilmente para que colocasse a palma da mão no ecrã no topo do balcão. Ela fê-lo e foi imediatamente identificada pelo computador

Lurdes Andreia Casanova Arantes
Foi avisada que o médico estava à sua espera e que podia entrar no consultório número 1546.
À sua esquerda estava um longo corredor, percorrido por duas passadeiras rolantes, cada uma seguindo em direcções opostas. Ela pisou o passadiço que seguia em frente.
Demorou cerca de 10 minutos a alcançar a porta que lhe fora nomeada, mas como a passadeira rolante estava convenientemente apetrechada com bancos confortáveis, ela pôde fazer todo o caminho relaxada, sem que as pernas inchadas lhe ficassem a doer.
O médico-robot que a recebeu era de um modelo mais avançado que o último que a tinha recebido, mas ela não estranhou pois a clínica estava sempre a melhorar os seus serviços.
O robot - de forma quase humana - explicou-lhe que tinha engordado 32 kg desde a sua última consulta e sugeriu-lhe os procedimentos habituais. Check-up geral e intervenções cirúrgicas para remover o excesso de gordura e repô-la à sua beleza de sempre.
Foi tudo feito ali, com a ajuda das enfermeiras e cirurgiões robóticos que ela sempre reconhecera e que não falhavam nunca.
Quando terminou, horas depois, era a bela mulher que fumara, horas antes, um cigarro virtual num quarto virtual, acompanhada pela imagem virtual do seu marido. E sentia-se a pessoa mais feliz do mundo, sorrindo a todos que passavam por si no caminho de volta àquele quarto minúsculo e àquela fria cadeira impessoal.
O ciclo repetir-se-ia dentro de 30 dias.

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