Correio do Minho

Braga, segunda-feira

Um dia eu fui feliz

A pretexto de coisa alguma

Conta o Leitor

2015-08-17 às 06h00

Escritor

Filipa Cunha

Sentada à beira mar, ao som das ondas do oceano lembra-se das belas memórias que o tempo não apaga.


Outono de 2013
Esta era a melhor época na ilha da Madeira. Bela terra conhecida pelos seus prados verdes, e as maravilhosas flores no decorrer da primavera, desde hortênsias a orquídeas. A água clara e pura dos lagos e as casas humildes representavam a sua genuinidade e naturalidade.
Foi numa tarde de novembro, enquanto o sol de outono irradiava sobre os jardins frios, que Carolina conheceu Tiago. Ele encantou-se pelos seus cabelos ondulados, ruivos como rubis e, ela pela sua modéstia tão rica como a sua beleza. Conversaram toda a tarde. Tiago gostava de arte e ela, a única arte que admirava era a de cavalgar. Carolina ria-se como uma criança de 4 anos, e ele afirmava ser o som mais agradável que ele já ouvira. Ela olhou o relógio. Já se via o luar. Trocaram olhares reconfortantes, profundos e seguiram caminhos diferentes.

27 de novembro 2013
À saída do café, Tiago e Carolina cruzam-se por acaso, ou quem sabe, destino. A cor dos seus olhos reluzia, o seu sentimento é recíproco, partilham algo que ninguém consegue compreender ou explicar. Ele acompanha-a até à quinta, caminham a cavalo, e Tiago conta-lhe as aventuras dos seus dias em Londres. Saíram para comer um gelado, o preferido dela era baunilha e o dele morango. Discutiram sobre filmes, as comédias era o que mais gostavam. Ah! Por fim tinham algo em comum, quem diria que dois amantes de filmes iriam, apesar de tudo, encontrar-se assim, ali numa rua na ilha da Madeira.
Ele leva-a a casa, caem sobre os braços um do outro, e soltam risos tímidos.
Encontravam-se todas as terças depois do almoço. Ele finalmente tinha uma razão para se levantar da cama pelas manhãs. Os olhos dela cor de esperança e as suas histórias sobre cavalos faziam-no sonhar e viver como uma criança. Ela despertou o lado carismático que ele escondia desde a morte do pai.


17 de dezembro 2013
O natal aproxima-se, e hoje Carolina parte para Lisboa a fim das férias em família. Prepara as malas, sem esquecer os seus lindos cachecóis que sempre a acompanham no inverno, e o Valentim, vai consigo. O Valentim é o cão de Carolina, pêlo castanho com caracóis. A sua amabilidade era a sua maior característica.
Ela parte para o aeroporto e espera ansiosamente a visita de Tiago até ao último minuto. O relógio marca 16h. Hora do voo. Tiago não apareceu.
Aquando a sua chegada a Lisboa, Carolina vê os tios prontos a receber de braços abertos a radiante criança de quem eles se lembravam, e que hoje está tão crescida. A avó sorria, com o prato das tradicionais rabanadas nas mãos, o avô estava sentado na poltrona a ler o jornal, e os primos, esses viam filmes de natal na televisão. Tudo em seu redor era cheio de vivacidade e entusiasmo.
À noite, deitada na sua cama, de olhos postos na janela, pensa nos bons momentos na Madeira, com Tiago.


14 janeiro 2014
Os dias passam, e Carolina volta à Madeira. Será que os seus desejos de ano novo estão prestes a se concretizar?
Quando sai do avião, de malas postas e Valentim a seu lado, depara-se com Tiago. Depois de quase um mês sem se virem, sem se falarem, como pode ele aparecer, ali, de ar sorridente, como se nada se tivesse passado?
Ele explica que não poderia estar presente naquele dia, a morte de seu pai acontecera à precisamente um ano atrás. Dizer um “adeus” ao pai, assim, tão de repente, tocara-lhe no coração. Sentia a sua falta. Estava emocionada. Entendia-o. Seguiram os dois para casa, com o Valentim a acompanhar o rasto.

14 de fevereiro 2014
Dia dos namorados. Almoço na pizzaria. Corrida de Cavalos. Olhar o pôr-do-sol. Assim passaram o dia. Começa a chover torrencialmente. Ela segue para casa, sem saber quem a seguia. Era ele. Precisava que ela lhe emprestasse o guarda chuva. Riram-se.
Nessa mesma noite, Valentim sofrera um acidente, estava ferido. Carolina aconchega-o na sua cama, e promete levá-lo ao veterinário pela manhã. Tarde demais. Ela encontra-o a lacrimejar, olham-se nos olhos. O pobre Valentim cerra os seus e nunca mais os torna a abrir. Um amigo de quatro patas, com um ar tão delicado, amável, doce, de repente desapareceu. Os dias de luto seguiram. Carolina sentia-se segura com Tiago, tinha encontrado o seu refúgio, o seu porto de abrigo. Meses passaram.

18 de Maio 2014
Domingo. 11h. Tiago preparava-se para sair da Madeira durante o verão. Ambicionava viajar pelo mundo. Deixa um bilhete debaixo da porta de Carolina.
Nunca mais voltou, nunca mais se ouviu falar dele. Como poderia ser tão desumano, deixando para trás o amor da sua vida? Talvez tenha sido uma ilusão, talvez o amor seja uma ilusão.
E, hoje, quase dois anos depois de se conhecerem, apenas lhe restam as memórias. Memórias! Essas que não desvanecem, que ninguém as pode tirar. São elas que mantêm aceso um pequeno brilho numa imensa escuridão. Então, de olhos postos no mar, ela disse “Um dia eu fui feliz.”

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