Correio do Minho

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Um Coelho no País das Maravilhas

Escola em mudança

Ideias Políticas

2015-06-30 às 06h00

Pedro Sousa

Ouvir Passos Coelho é, por estes dias, quase insuportável. A imagem do que foi fazendo ao longo dos já quatro anos do seu (des)Governo, hoje, a pouco mais de três meses de enfrentar os Portugueses nas urnas, desdobra-se em acções da mais idiota propaganda, procurando, por todos os meios e artifícios, fazer crer que salvou o País da ruptura e do abismo inevitável.

Felizmente, quatro anos de logros, mentiras umas atrás das outras e cosmética quanto baste para tentar disfarçar o indisfarçavel, fizeram com que, apesar de algumas sondagens ainda tentarem fazer crer no contrário, os Portugueses não estejam disponíveis, mais uma vez, para se deixarem enganar pelo mentiroso compulsivo que é Passos Coelho e por esse discurso mirabolante, positivo, enganador, maravilhoso e, agora, slogan de campanha que diz qualquer coisa como: “Portugal à Frente”.

Por falar em mentiras e na medida em que, no meu entender, deixam bem claro o carácter (no caso, a falta dele) de Passos Coelho, quero, aqui, recordar algumas das afirmações de Passos Coelho durante a Campanha Eleitoral de 2011: “Não aumentaremos os impostos”, “Não se pode gerir um país sem crescimento“, “Não privatizaremos ao desbarato para arranjar dinheiro para tapar o défice”, “A solução deve vir do corte da despesa e não do aumento da receita fiscal”, “Não contarão comigo para mais ataques à classe média“, “Não basta austeridade e cortar cegamente”, “Não se pode atacar os alicerces básicos do Estado Social”, “Acabar com o 13º mês é um disparate”, “O IVA não é para subir”, “Nunca iremos dizer que desconhecíamos a realidade… nós temos noção de como as coisas estão”.

Estas frases não são invenção da minha cabeça, foram todas elas ditas e assumidas por Passos, são públicas e foram, na altura, publicadas nos principais jornais portugueses, mas, mais importante que tudo isso, são o reflexo mais cristalino de que Passos Coelho não é um homem sério e confiável.

Impõe-se, então, perguntar a Passos Coelho em que é que, afinal, deixa ele Portugal à Frente após quatro anos a liderar o Governo da República? Em quê? Que nos diga, pelo menos uma coisa que seja, em que deixa Portugal à Frente. Eu, pessoalmente, tenho algumas coisas para lhe dizer sobre como ele deixa Portugal.

A Cáritas, revelou ha dias que Portugal é o Pais da Europa onde a taxa de risco de pobreza e de exclusão social mais cresceu no último ano. Os últimos relatórios internacionais revelam, também, que Portugal tem a terceira dívida pública mais elevada da UE e que, desde 2011, é o País onde esta mais cresceu.

O Eurostat deixa bem claro que, apesar de todos os “pseudo” programas (promovidos pelo Governo) de apoio ao emprego mas que, na verdade, mais não são do que programas de promoção estágios sem nenhuma perspectiva futura e que servem, unicamente, para mascarar um pouco os números arrepiantes daquele que é, hoje, o maior flagelo nacional. E assim, apesar do mundo encantado em que vive Passos Coelho, Portugal tem o quinto desemprego mais elevado dos países europeus. Mas há mais coisas em que estamos à frente. Por exemplo, no valor do salário mínimo nacional, onde aparecemos num honroso quinto lugar. Pena que seja em quinto lugar a contar do fim e que em pior situação que nós estejam, apenas, verdadeiras potências económicas como a Eslováquia, a Estónia, a Letónia e Lituânia.

Há ainda mais coisas que gostava de lhe dizer Sr. Primeiro Ministro. É que os últimos anos foram um desastre na destruição do Estado Social, o último reduto de defesa de um País onde se anseia viver com base num ideário humanista, mais igual, mais justo e solidário.

O serviço nacional de saúde foi alvo de ataques nunca vistos e quem hoje tem, infelizmente, a necessidade de recorrer aos hospitais públicos, confronta-se, muitas vezes, com níveis de carestia (de meios técnicos, humanos e, até, muitas vezes ao nível medicamentos) e de falta de qualidade no serviço prestado que nos fazem tremer de cada vez que temos de recorrer ao serviço nacional de saúde, desconfiança que nunca existiu no passado. As mortes, aliás, a gratuitidade das mortes que se verificaram em muitas urgências hospitalares no fim do ano anterior e no início deste ano em muitos hospitais deste País, deixam bem claro o estado a que a saúde chegou.

Na Educação, o único e verdadeiro motor de transformação de qualquer sociedade e comunidade, as coisas estão longe de estar melhores. A brutal trapalhada do último concurso de colocação dos Professores ficará nos anais da história e é mais um sintoma de um estado fraco, de um estado que desinveste em si próprio e que, aos poucos, se demite das suas funções mais básicas, à medida que se prepara para, já ali a frente, dizer que não tem capacidade para o fazer e que mais vale entregá-las aos privados porque estes podem fazer com mais eficiência.

Da justiça é melhor nem falar. O pesadelo do Citius está longe de estar resolvido e, assim, aquele que é um dos sectores mais chave para o Estado de Direito é, todos os dias, prejudicado por isso, contribuindo para um cada vez maior descrédito e desconfiança das pessoas em relações as instituições públicas.

Apesar de tudo isto, Sr. Primeiro Ministro, o Sr. e seus pares vão dizendo de forma sorridente e grandiloquente que o País esta melhor, que estamos no bom caminho, que Portugal está à frente. Está, de facto, à frente noutro indicador. Somos o País da UE que mais “exporta” jovens licenciados por cada mil habitantes. Estamos, ao desbarato, a exportar os nossos melhores, os nossos mais capazes, os nossos mais qualificados, porque em Portugal não encontram, como gostariam, espaço para trabalhar, para projectar os seus sonhos e esperanças. Este é, na verdade, o estado do País pelo qual o Sr. é o maior responsável. Portanto, deixe as fábulas para a Lewis Carrol ou para o La Fontaine e, por uma vez, enfrente o País com a dignidade e a verdade que, desde que foi eleito, nunca revelou.

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