Correio do Minho

Braga, segunda-feira

Um centralismo cego

A ditadura do automóvel

Ideias Políticas

2019-06-11 às 06h00

Francisco Mota

Portugal vive um dos maiores desafios políticos, sociais e culturais da sua história contemporânea: reabilitar um país desfragmentado e a duas velocidades. A perspectiva dos últimos 40 anos dividiu o território, centralizou as políticas públicas e, em muitos dos casos, perderam-se a identidade, os valores e, sobretudo, populações em prol de um projecto colectivo pouco nacionalista, e em nada correspondente com a realidade, anseios e ambições dos portugueses.
Haverá coragem política para assumir a falência do modelo actual? Será apenas o modelo, ou os protagonistas também estarão esgotados? Estas são, para mim, as duas chaves para a mudança de paradigma que o País necessita.
Não basta anunciar intenções à porta de cada acto eleitoral, é necessário um verdadeiro compromisso com todos os portugueses, que siga uma linha identitária, programática, sem qualquer amarra ideológica ou eleitoralista, e que reforce, sobretudo, uma visão representativa das reais necessidades do território, renegando uma mera, oca e dispendiosa, restruturação de estruturas e lugares a serem distribuídos com o fim de alimentar os mesmos propósitos.
Comecemos por derrubar a barreira entre litoral e interior e procuremos um modelo político de eleição representativo de cada região para o parlamento. Nunca teremos uma visão integrada do território se este não fizer ouvir a sua voz, na totalidade das diversas realidades que o compõe, e estas não puderem exercer influência ou sindicância nos órgãos de decisão.
Um novo olhar, vertical e sem dogmas, capaz de reestruturar o estado, tornando-o mais coeso, verdadeiro pilar promotor da autonomia individual (nomeadamente no que à liberdade de escolha dos cidadãos portugueses diz respeito), e de uma verdadeira autonomia organizacional: porque actuar, trabalhar e concretizar em Lisboa ou no Porto não é a igual em Bragança ou Portalegre. Um poder central, mais próximo da realidade, descentralizado em plena cooperação com os agentes locais, sejam eles públicos ou privados, concretizando assim um aumento da eficiência, capacidade de resposta e qualidade dos serviços públicos.
Todos percebemos o que falhou, rasguemos a escuridão e capacitemos os territórios de oportunidades, há muito capital para além da capital, o foco não passa por permitir que os grandes investimentos e políticas públicas apenas passem pelos grandes centros urbanos. Podemos e devemos ser audazes com o nosso mundo rural, que nunca deveríamos ter abandonado. Símbolo de harmonia entre o indivíduo, a comunidade e a natureza, nele residem parte das respostas a desafios vindouros, confiemos na sua capacidade de criar riqueza e fixar as novas gerações.
A continuidade de um centralismo cego, desmedido e corporativista, apenas interessa para alimentar um sistema falido e incapaz de nos representar e abrir os horizontes de um futuro promissor.
É a hora de acordar o sentimento de mudança, não se trata de uma guerrilha dos mais jovens com os mais velhos ou dos mais velhos com os mais jovens, mas antes a necessidade de inaugurar um novo tempo, onde o compromisso inter-geracional será central e absolutamente fundamental para que as opções de hoje sejam garantia do amanhã.
O País carece da nossa geração e nós temos esse dever para com o nosso Portugal, pelas oportunidades que nos criou, pela liberdade que herdamos e pelo testemunho que daremos aos nossos filhos.
Afirmemo-nos como uma geração responsável que confia no seu futuro, não querendo deixa-lo nas mãos de quem quer seja e decidido de uma forma comprometedora. Muito mais que a oportunidade é o contrato que queremos estabelecer, porque este não diz respeito às decisões futuras, mas às implicações futuras das decisões presentes.

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