Correio do Minho

Braga, quarta-feira

Um beijo

O que nos distingue

Conta o Leitor

2014-07-05 às 06h00

Escritor

Susana Campos

Ovento fazia voar as estrelas, as janelas entreabertas deixavam entrar a brisa, calma esbatida. Os vestidos voavam para cima da cama em dedos fortes puxava-os e no espelho fluiam à frente do meu corpo. Vesti-me de preto, assim as luzes, para onde fosse, não me colocavam como protagonista.

O táxi apitou e em catadupa, desci as escadas. Sozinha, entrei no bar, só queria a minha companhia, os meus pensamentos e uma bebida. Sentada no banco ao balcão, a bebida chegou a mim sem que utlizasse uma única palavra, bebi num gole só, decidira naquele dia afogar as mágoas em copos vazios, em gotas que me enchiam a alma.

O bar ia enchendo, sentia olhos a invadir-me mas queria-me só comigo. Estava farta de diálogos de circustância, de impropérios vazios de conteúdo, de emoção, de engate barato e nesse momento só queria esquecer a minha única categoria de “a outra”. Será que um dia seria mais que horas mortas de família, deixaria de ser mais uma reunião marcada em cima da hora? Queria um ponto final, necessitava de mais.

Permaneci sentada de olhos fixos no nada, embalada pela música de fundo. Não estava ali mas sim no chão de meu escritório, o nosso chão.

Abri-te a porta, esperava-te de braços abertos, calorosa e divertida. Puxei uma cadeira e fiz questão de te encaminhar mas tu abraçaste-me e sabes que não resisto à tua pele, ao calor dos teus braços, a ti. Os nossos lábios suspiravam desejo, e os dedos percorriam os conhecidos poros. Não resistia ao teu indelével aroma e mesmo ali, amamo-nos como se fosse a primeira vez. Juras de amor, palavras que só tu sabias o significado se soltavam.

E que tornavam mulher, tua somente tua e tu entregavas-te no meu corpo, invadias todos os poros e em suspiros eu sussurava delírios de prazer. És meu mesmo que por uma única reunião, eras meu, eu sentia-te assim. O teu telefone chamava, eram horas da família. E eu, perdia-te, perdia-te mais uma vez. A última, dizia.

Um copo tocou no meu braço, trazendo-me novamente à música. Eras tu!
Estavas ali comigo olhos nos olhos, estavamos sós envolvidos em música, em desejo, em palavras. Os nossos corpos  aproximavam-se lentamente, cada gesto, cada palavra, deslizavam em toque de pele permanecendo eternos.

Sabia que iria recordar mais um momento mas tentaria fazer cumprir a promessa; iria resistir ao teu encanto, encontrando-me.
As horas rolavam, os copos vazios eram trocados por cores de um líquido que não sentia, somente o teu aroma percorria as minhas veias. Quem algum dia afirmou que o amor se apresentava como algo belo? Afirmação que não partilho, não me identifico, é sim uma afirmação minimalista generalizada sem algo de sistémico, não sou eu.

No rasgar da madrugada, levantei e tentei despedir-me beijando tua face, saiu um beijo em lábios entrelaçados, húmidos, rodopiantes. Deslizei em teus braços, apoiaste-me até ao teu carro.
Em casa, soltei-me dos saltos e atirei-me em lençóis. Suavemente as tuas mãos tapadas pelo vestido, percorriam minhas ancas e em sussurro acompanhava-as. Em voltas vigorosas, soltaste as meias, friccionando a pele. Bebi demasiado, por isso deixava o meu corpo que em personalidade própria, procurava o teu.

Os lençóis iam tomando as nossas formas. As palavras não ditas alteram as relações e, por consequência, os actos reproduzem os desejos, pelo menos naquele momento.
As janelas ainda semi abertas, deixavam entrar a lua num encantamento de sombras nuas atraídas ou mesmo traídas pela ânsia do amor.

- Deixa-me abraçar-te. Dorme comigo pelo menos esta noite.
Marta concentrou-se na sua interrogação, na ideia do amor dando em especial atenção às imagens controladas de João. A quantidade de coisas que alguém pode sentir ao mesmo tempo compondo gestos, cruzando neurônios e ao contrário do que se pode imaginar cheiram a desejo.
Aguardo que consigas responder-me. Mas João consciente de que não poderia enganar-se a si próprio, vestiu-se e com um sorriso, abandonou a sombra reflectida pela lua e com um beijo sussurrado em lábios submersos em certezas, saiu do quarto.

Marta não tinha paciência para esperar nem tempo para viver ilusões, preocupava-a mais a contagem das rugas. Não queria sentir-se presa ao desejo de João.
Decorridos vários dias, Marta vivia só para o mundo, o ideal do amor devastado pela incerteza de que iria ser a principal protagonista, aglutinava o seu coração...

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