Correio do Minho

Braga, terça-feira

Um balde de água fria

Saúde escolar: parceiro imprescindível das escolas de hoje

Ideias Políticas

2014-09-02 às 06h00

Carlos Almeida

Alguém que muito estimo e considero tomou, por estes dias, a decisão de me desafiar a tomar o já famoso banho gelado. Nunca pensei vir a ter de defraudar as expectativas que essa pessoa tem de mim. Nunca pensei, a sério, ter de lhe negar algo que lhe parece tão fácil.
Confrontado com o desafio, fiquei, na verdade, sem resposta. Logo eu, que gosto da água bem quente no banho, embora reconheça que, de vez em quando, lá tenho que passar pelos arrepios da água fria no corpo. Mas isso é porque, às vezes, se acaba o gás.

Não sabia como lhe explicar que não alinho neste tipo de coisas. Não sabia como lhe dizer que não tomaria o banho gelado, não porque não seja sensível perante as doenças que se abatem sobre o ser humano, mas porque entendo estas “acções de solidariedade” como patéticas. Não sabia como rejeitar o convite sem que na sua cabeça ficasse a ideia de que não entendi a sua boa vontade e generosidade. Não sabia como lhe dizer que não. Hesitei na forma de lhe responder, nunca duvidei do seu conteúdo, mesmo sabendo que o que motivou a sua atitude está muito longe de tudo aquilo que gira em torno deste acontecimento.

Aqui fica, neste texto, o que move a minha escusa. E não, não é fundamentalismo.
Isto é o que eu penso sobre esta nova forma de caridade, bem ao estilo da sociedade supostamente moderna em que vivemos.

Penso que a moda dos banhos públicos - uns gelados, outros nem tanto - não passa de mais um fenómeno piroso que apenas contribui para desviar a atenção das verdadeiras causas dos problemas. Porventura não será o capitalismo a determinar as falhas genéticas do ser humano, mas é, sem qualquer dúvida, o capitalismo que exponencia as suas insuficiências, assim como são as regras por ele ditadas que decidem quem tem acesso a cuidados de saúde e quem não tem, o que tem, ou não, cura, quem pode viver ou quem está condenado à doença ou à morte.

Penso, também, que se trata de uma corrente de ligação virtual que, pelo seu poder emocional, assente no nobre sentimento de ajuda ao próximo (não duvido de que muitos o tenham mesmo) e na ostentação social, acaba por prender a atenção das pessoas.

É, no entanto, evidente que, neste mundo, nada sobreviveria sem o papel decisivo dos meios de comunicação e daqueles que são os seus protagonistas. Daí termos vindo a assistir a uma autêntica roda-viva de políticos, actores, jogadores da bola e outros que tal a despejar baldes de água fria na cabeça.

Mas uma coisa não posso negar. A ideia foi bem montada, porque cria uma espécie de chantagem sobre os nomeados, e a coisa até acaba por ter piada. Tem tanta piada que o meu filho anda chateado porque ainda ninguém o nomeou. Mas, no fundo, não é disso mesmo que se trata, uma brincadeira de crianças? E na sua cabecinha eu percebo por que é que, por um lado, é importante que alguém o escolha e, por outro, quer fazer uma coisa inusitada, da qual se pode gabar juntos dos seus amiguinhos. Mas o meu filho tem 8 anos.

Não tem (ainda) obrigação de saber que o verdadeiro balde de água fria é aquele que se sente por vivermos num mundo repleto de injustiças. Ou quando, ironicamente, não se tem dinheiro para pagar a factura da água.
Se descontarmos aqueles que realmente alinham no desafio por razões altruistas, na verdade, sobram os que apenas querem circo. E, assim sendo, prefiro deixar a tarefa para quem a sabe fazer.

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