Correio do Minho

Braga, terça-feira

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Um balde cheio

Viva o Verão de forma segura

Conta o Leitor

2022-07-06 às 06h00

Escritor Escritor

Texto José Händel de Oliveira

Em Coimbra, depois de assistir a um dos espectáculos do ciclo de teatro que tinha lugar no Teatro Académico Gil Vicente, resolvi tomar um café no “Mandarim”, na Praça da República. Estava, divertido, a ler um cartaz que dizia que ali era proibido estudar, quando reparei na chegada do meu colega Pacheco que ofegante, subia as escadas, olhando várias vezes para trás, como temendo ser seguido. Sentou-se na minha mesa e depois de pedir um café e um copo de água, exclamou: - Artur, tu nem sabes o que me aconteceu! Curioso, pedi-lhe para que me contasse. Então, tragando o café de uma só vez e bebendo toda a água do copo, disse-me que no princípio da semana passada, quando saía da Associação Académica, onde jantara e maldizendo a chuva que caía, fora abordado por uma senhora, já de certa idade, vestida modestamente e que estava acompanhada por uma moça alta, bonita e elegante, que lhe perguntou se ali perto do Hospital havia uma pensão que não fosse cara. Cativado pelo sorriso da moça que vinha com ela e que vestia também com simplicidade, mas que deixava adivinhar umas formas tentadoras, conduzi-as até uma pensão, ali bem perto, onde eu era conhecido, desde os tempos que lá ficara, quando fizera os exames de admissão à Universidade. Pelo caminho, a senhora disse-me que se chamava Delfina e que a rapariga era a sua filha Esmeralda que no dia seguinte tinha um exame médico a fazer.
O trajeto não foi fácil pois a rua estava em obras, com a calçada levantada e amontoada pelo passeio, atravancando-o. Quase patinando sobre o piso escorregadio, chegámos à pensão, à porta da qual estava o proprietário e meu amigo, Sr. Ambrósio que, como é costume em Coimbra, me tratou por Dr. Pacheco e mostrou grande satisfação em me ver. Disse-lhe que aquelas senhoras pretendiam um quarto para passar a noite, tendo a D.ª Delfina acrescentado: - Mas que não seja caro.
O Sr. Ambrósio estava a dizer que se arranjava o que elas pretendiam, quando eu senti uma violenta pancada nas costas que me prostrou à entrada do corredor. Socorrido pelo Sr. Ambrósio e por um empregado, rapidamente me recompus, ficando a saber que fora atingido por um paralelo que um autocarro pisara ao passar em frente à pensão, projetando-o no ar e que me veio atingir nas costas. Embora combalido, quis despedir-me e ir para casa, mas o meu amigo Ambrósio, não deixou, dizendo: - Era só o que faltava, depois do que lhe aconteceu e com o tempo que faz, não vai para os Olivais. Fica cá e não se preocupe com o pagamento que depois fazemos contas.
Resignado, aceitei e, a custo, subi até ao 2º andar da casa para ocupar o quarto que me fora indicado, dando-se coincidência daquele quarto ficar em frente ao da D.ª Delfina e da sua filha. Deitei-me sobre a cama e fiquei a pensar no que tinha acontecido e nos belos sorrisos com que a Esmeralda, repetidas vezes me contemplara. E eis senão quando, bateram levemente na minha porta. Ao abri-la, surpresa das surpresas! Era a Esmeralda que entrou de mansinho e começou a massajar.me as costas, perguntando-me se doía muito. Eu, apesar de deliciado com o trabalho das suas mãos, macias e quentes, perguntei-lhe pela mãe, tendo-me respondido que tinha ido à casa de banho que ficava ao fim do corredor. Quase sem querer, amaciando-lhe o bonito cabelo castanho que tinha e fixando-a firmemente nos seus belos olhos da mesma cor, murmurei-lhe a seguinte quadra: “São tão lindos os teus olhos

Quando se fixam nos meus
Dizem coisas, contam coisas
Ai Jesus, valha-me Deus”.

Ela, emocionada, beijou-me levemente uma das mãos e disse-me que mais tarde vinha ver como eu estava. Ao ouvir isso, perdi o sono e esperei ansiosamente pela vinda daquela adorável pequena. E isso não tardou muito a acontecer. Vinha em combinação, descalça. Quando me abraçou, perguntei-lhe pela mãe e ela respondeu-me que a mãe tomara, como habitualmente, um comprimido para dormir e não acordaria antes das 8 horas da manhã. Só te digo que os seus carinhos, os seus beijos doces e o facto de ter tirado a pouca roupa que vestia, proporcionaram-me uma louca noite de amor, em que até esqueci a dor nas costas.
Já raiava o sol da manhã, quando nos descolamos, e ela confessou-me que ia à “examina” no Instituto de Medicina Legal, pois a mãe que julgava que ela era virgem, apanhara-a no coxo da lenha a ter relações com um vizinho casado e que há muito a assediava. A pressa dele fizera com que lhe rasgasse as calcinhas, o que levou a mãe dizer a toda a gente que ela fora violada e apresentou queixa ao Delegado do Ministério Público que ordenara o exame no Instituto, até porque a mãe afirmava que apesar da filha já ter dezoito anos, era virgem. Eu nem sabia o que dizer, mas ela disse-me que gostava de mim e pediu-me uma esferográfica e um papel onde escreveu: Esmeralda da Silva Fernandes, Rua da Saudade, 69, Covilhã e o número do telefone de uma vizinha para eu poderia ligar, quando quisesse falar com ela.
Quando me levantei já elas não estavam na pensão. Apesar de estar a tirar o curso de Medicina Legal, sabia que o Professor não deixava os alunos assistir a exames íntimos, para não constranger as pacientes.
Porém e servindo-me da amizade do Dr. Queirós, um dos Assistentes do Professor, consegui saber o que se tinha passado no exame. A moça declarara que era virgem e que o agressor praticara a penetração vaginal. Quando o Professor lhe perguntou se aquela penetração tinha provocado hemorragia, ela disse que saíra muito sangue. Mas mais ao menos quanto?
Um balde cheio, respondeu a rapariga. O que provocou risos dos presentes, até do Professor que, no entanto, pediu silêncio. Não foram detectadas quaisquer lesões, tendo o Professor concluído que as declarações da examinada, não eram exclusivamente da sua conta. Na perícia psicológica que se seguiu, a rapariga acabou por confessar que a mãe queria que ela falasse em violação, para obrigar o homem ao pagamento de uma indemnização.
Apesar de tudo isto, eu não podia esquecer o meu encontro com a Esmeralda e desejoso de repetir os bons momentos passados, telefonei-lhe a dizer que no Domingo ia vê-la.
Mostrou-se encantada, dizendo-me que me esperava em casa, ao princípio da tarde que era a altura que a camionete da carreira chegava à cidade. Eu nunca tinha ido à Covilhã, mas consegui um lugar num autocarro que passava em Seia e depois descia a Serra da Estrela. Chegado à “Cidade Presépio”, informaram-me onde ficava a rua da Saudade, mas o difícil foi encontrar o nº 69, número estranho como afirmaria, mais tarde, um importante político dos Açores, e isto porque a numeração pintada nas paredes das casas modestas, há muito que tinha desaparecido. Mas perguntando aqui e acolá, cheguei ao meu destino. A Esmeralda, de traje domingueiro, convidou-me a entrar para uma sala que para espanto meu, estava cheia de gente e mais espantado fiquei quando a D.ª Delfina me apresentou, em voz bem alta, como sendo o noivo da sua filha, dando-me dois beijos e gritando: Palmas para o Dr. Pacheco. Eu estava encavacado e o barulho das rolhas a saltarem das garrafas de espumante, lembraram-me a metralha da Guiné. Não conseguia falar com a Esmeralda e fiquei aterrorizado quando aos diversos brindes, a D.ª Delfina me pediu que indicasse a data do casamento. Gaguejando respondi que tinha primeiro que falar com os meus pais, desculpa que foi aceite.
Depois de mais de três horas de grande sacrifício, em que tive de responder às mil perguntas que me fizeram, aleguei que estava na hora de apanhar o autocarro para Coimbra, pois no dia seguinte tinha um exame importante a que não podia faltar.
A Esmeralda prontificou-se a acompanhar-me à estação rodoviária, mas a mãe resmungou: Sozinha, só depois do casamento e ordenou a dois matulões que eram também seus filhos que nos acompanhassem. Quando entrava na viatura, ainda ouvi a Esmeralda dizer para os irmãos: Sou a rapariga mais sortuda do mundo, vou-me casar com um doutor.
Eu já nem sei o que disse à Esmeralda na despedida, o que eu sei é que amanhã vou para a aldeia, só voltarei para os exames, pois tenho muitas faltas para dar e isto para evitar que apareça aqui uma comitiva da Covilhã que me leve de rastos até uma igreja, para fazer um casamento, sobre o qual não fui ouvido, nem achado.

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