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Um balanço da pandemia

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Um balanço da pandemia

Escreve quem sabe

2020-09-18 às 06h00

Rui Marques Rui Marques

A famigerada segunda vaga da pandemia de Covid-19 está aí e antevê-se que a situação venha ainda a piorar nos próximos tempos, com o início do ano escolar e o aumento expectável de pessoas em circulação, designadamente nos transportes públicos.
Não se conseguindo prever a evolução da crise sanitária por um período de tempo muito alongado, o que sabemos é que a pandemia de Covid-19 tem repercussões significativas na nossa vivência em sociedade e que, até à presente data, teve um impacto económico brutal nas contas públicas, nas empresas e nas famílias.
Decorridos cerca de 6 meses, procurarei fazer aqui um breve balanço do impacto do novo coronavírus na vida das empresas da nossa região.

Quebra abrupta do consumo e retoma lenta

O balanço, à presente data, à escala do concelho de Braga, que não difere muito do que aconteceu em Portugal, revela que a pandemia provocou uma quebra abrupta do consumo e uma retoma lenta.
Segundo as projeções da Associação Comercial de Braga, durante os últimos 6 meses (março a agosto) os setores do comércio, turismo e serviços do concelho de Braga registaram perdas superiores a 253 milhões de euros só em transações pagas com cartões bancários ou pagamentos eletrónicos.
O ponto mais baixo registou-se no passado mês de abril que, lembre-se, foi um mês em que uma parte significativa dos estabelecimentos estiveram encerrados por determinação governamental. Assim, depois de uma quebra no mês de março de 20% nas vendas, em abril a quebra ultrapassou os 41% face ao período homólogo.
Com o desconfinamento e a retoma da atividade económica da generalidade dos estabelecimentos, iniciou-se um processo lento e gradual de retoma da atividade económica. Mês após mês tem-se notado uma aceleração das vendas e uma diminuição das quebras de faturação face aos meses homólogos.
Nos últimos dois meses, a velocidade da recuperação intensificou-se, graças à diminuição do número de novos contágios, à presença da comunidade emigrante e ao regresso dos turistas de nacionalidade estrangeira, mormente espanhóis, depois da abertura de fronteiras, fazendo com que agosto fosse o melhor mês do ano até à data, mas, ainda assim, com uma diminuição das vendas de aproximadamente 5% face ao mês homólogo.

Empresas e setores impactadas de forma diversa

Ao nível das atividades económicas, de uma forma geral, todos os setores de atividade e todas as empresas foram impactadas por esta crise pandémica, mas de forma diversa. Há setores que foram mais sensíveis e outros que até têm estado a comportar-se em contraciclo.
De igual modo, dentro do mesmo setor de atividade, as empresas que se adaptaram melhor às vicissitudes provocadas pela pandemia apresentam desempenhos bastantes diferentes daquelas que tiveram mais dificuldades em se adaptar. Na restauração e no setor da moda são diversos os exemplos de empresas que tiveram enormes quebras e outras, infelizmente em muito menor número, que, mesmo em contexto de crise, conseguiram aumentar as suas vendas.
Em Braga os setores que registam maiores quebras são aqueles que estão ligados ao Turismo, nomeadamente “alojamento turístico”, “agências de viagem” e “animação turística”, tendo-se verificado nos meses de abril e maio um colapso das suas vendas, com quebras superiores a 90%. Se no caso do “alojamento turístico”, no mês de agosto, o desempenho já não foi tão negativo (quebras de cerca de 30% face ao mês homólogo), nas “agências de viagens” ainda se verificaram níveis de faturação cerca de 70% abaixo do ano anterior.
Também a “restauração” tem sofrido de sobremaneira com esta crise, chegando a registar quebras de faturação que ascenderam a 85% (mês de abril). Tem, no entanto, nos últimos dois meses, vindo a acelerar a velocidade da sua recuperação à boleia dos turistas e dos emigrantes. Em agosto, a quebra foi, ainda assim, de mais de 5% face ao mês homólogo.
Uma atividade que tem sido menos propalada, mas que tem sido das mais penalizadas da economia, é a do setor da “moda”. Em abril, as vendas foram pouco mais do zero e em maio as quebras ainda eram da ordem dos 78%. Nos dois últimos meses, também se registou uma aceleração desta atividade, tendo, em agosto, sido atingido cerca de 88% do valor de vendas do ano transato.
Em contraciclo, temos o setor da venda de produtos tecnológicos que beneficiaram de um aumento significativo da sua procura e que tem, em função disso, observado aumentos de faturação da ordem dos 80% nos últimos três meses. Também o comércio alimentar, quer em supermercados e hipermercados, quer em mercearias e minimercados, tem beneficiado positivamente da pandemia, registando aumentos das vendas em todos os meses durante a pandemia.

Exportações resilientes e Turismo a travar a fundo

Os últimos números conhecidos das exportações, revelam que as exportações em Braga dispararam, em junho, para os 143 milhões de euros, registando um crescimento de mais de 51% face ao mês de maio e um aumento de 10% face ao mês homólogo.
Ainda assim, decorrente do impacto nos primeiros 3 meses da pandemia, o valor acumulado de exportações do 1º semestre de 2020 denota uma quebra de cerca de 125 milhões de euros, o que representa uma diminuição de 15% face ao mesmo período do ano anterior. Ao nível do setor do turismo, os números são muito mais impressionantes. Até julho do ano em curso, regista-se uma diminuição de 216 mil dormidas face a período homólogo, ou seja, uma quebra de 62%. Mas, as quebras em abril e maio chegaram a superar os 90%.
Aumento controlado do desemprego
Durante o período da pandemia registou-se um aumento de mais 1.500 desempregados, que passou assim, em julho, a totalizar 7.551 pessoas no concelho de Braga. Apesar deste aumento, as empresas da região têm demonstrado uma grande resiliência e os despedimentos têm acontecido numa proporção menor do que, eventualmente, se esperaria.
De forma natural, a maior parte dos novos inscritos do IEFP são pessoas que não renovaram contratos a termo (cerca de 52%), ou seja, são os trabalhadores com vínculos mais precários que têm sido mais atingidos por esta crise.

Conclusão

A dimensão de algum destes números é impressionante e, infelizmente, prevê-se que, em função do agravamento da situação epidemiológica, venha a piorar nos próximos tempos. O maior inimigo das empresas e do emprego é a sucessão de meses de acumulação de perdas e a exaustão que esta situação gera na tesouraria das empresas e até na vertente emocional dos seus gestores. É, por isso, fundamental que o Governo consiga conciliar as suas intervenções a dois níveis: controlar a pandemia para não matar a economia; e retomar a economia sem descontrolar a pandemia.

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