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Um aquário e um peixe dourado

O Corpo Nacional de Escutas nos Açores

Um aquário e um peixe dourado

Ideias

2023-12-04 às 06h00

Álvaro Moreira da Silva Álvaro Moreira da Silva

Não sei se vos acontece o mesmo, mas quando o assunto são os filhos tenho tendência a deixar levar-me pelas emoções e a amolecer por dentro. Aqui há uns anos, a minha Margarida pediu-me um aquário e um peixinho dourado. Não resisti ao seu olhar de pequena menina, nem ao seu pedido, daí que na altura me dirigi a uma loja de especialidade para lhe satisfazer o desejo. Infelizmente, passadas umas semanas, dei por ela mais interessada noutros assuntos, na televisão e nos telemóveis, e por mim a habituar-me a novas rotinas. Diariamente, alimentar o pequeno peixe e, mensalmente, limpar o seu dormitório. Ora, nesse tempo, levantou-se a questão de quem alimentaria o animal durante as férias. Na inexistência de respostas satisfatórias procurei, nesse mesmo dia, por um dispositivo que me permitisse viajar descansado, garantindo que ao pequeno peixe não lhe faltaria alimento. Encontrei-o na mesma loja, e sem quaisquer hesitações lá o comprei. Este milagroso dispositivo possuía uma pequena portinhola na parte superior por onde sairia o alimento. Exibia também um relógio digital, para além de trazer embutido um sistema de regras que me permitiria definir até quatro horários distintos para alimentar o animal. O dispositivo iniciaria uma rotação de 360º nesses precisos momentos, projetando magicamente algumas algas secas para a água.
Tal como este simples dispositivo, muito útil e recomendável, sabe-se pela História que desde sempre o Homem procurou instrumentos que lhe possibilitassem melhorar a sua qualidade de vida, resolvendo problemas e automatizando as suas rotinas pessoais e profissionais de forma cada vez mais célere. Em grande parte, auxiliavam-nos em tarefas físicas. Com o decorrer dos tempos, constatou-se que o mesmo Homem procurou encontrar recursos menos focados na sua componente física, mas mais orientados para a componente cerebral. Como exemplo, recordemos a evolução da máquina de calcular, aperfeiçoada desde o primeiro ábaco construído numa pedra, até às modernas calculadoras científicas com circuitos eletrónicos integrados, ultrarrápidas e repletas de funções matemáticas de torcer a retina.
Nas últimas décadas, observámos o surgimento de sistemas tecnológicos e analíticos complexos, permitindo a captação massiva de dados e auxiliando os seus utilizadores na tomada de decisão. Assistimos também ao nascimento de novos algoritmos e técnicas de aprendizagem artificial para a descoberta de padrões resultantes desses mesmos dados, revelando um paradigma de abstração e conhecimento bem mais poderoso. Atualmente, é a disciplina de Inteligência Artificial (IA) que surge na vanguarda da inovação, procurando apoiar o Homem em variadas tarefas, atualmente encorajando os modelos computacionais generativos. Estes modelos permitem, por exemplo, gerar novos conteúdos, criar arte e música, escrever um resumo de um livro, gerar código para um novo software, tudo isto sem qualquer esforço físico ou mental. A Computação Quântica, por sua vez, promete alavancar ainda mais esta esteira de IA, transportando o proces- samento de gigantescos volumes de dados para patamares de excelência, à velocidade de um piscar de olhos.  
Perante esta evolução, escutam-se vozes enaltecendo preocupações, legitimas diga-se, sugerindo uma rápida intervenção de diversas entidades políticas e organizacionais, para a discussão de valores e ética, diretrizes e regulamentos, garantindo que os sistemas de IA sejam utilizados de forma responsável e justa. Creio, sinceramente, que todos estes receios ainda permanecem no domínio da especulação, mas a verdade é que assistimos, em alguns casos, a uma clara intenção de proliferar a utilização destes mecanismos artificiais, em detrimento das pessoas e em prol de lucro.
Felizmente, o pequeno robot que adquiri não era um ser inteligente, mas o sistema de regras básico que lhe incorporaram permitiu-me respirar de alívio durante uma semana bem desfrutada. Depois das férias, aproximei-me do aquário, reparei que o peixe rodopiava feliz por me ver. Fiz questão de retirar o dispositivo do seu aquário, pousando-o na prateleira anexa à garrafeira. Doravante, e até que a minha Margarida se relembre do seu peixinho dourado, o pequeno animal merecerá a minha total dedicação

*com JMS

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