Correio do Minho

Braga, terça-feira

Um Amigo que partiu sem despedida

Desprezar a Identidade, Comprometer o Futuro

Conta o Leitor

2013-09-03 às 06h00

Escritor

Carlos Alberto Rodrigues

Naquele bairro criou as melhores amizades, do tipo que ficam para sempre dentro do nosso espírito e que são testemunhas dos melhores momentos de nossas vidas. Sobretudo 3 ficam ainda hoje nas melhores recordações: Marito, Litos e Julinho. Andavam os 4 quase sempre juntos qual D' Artagnan e os 3 mosqueteiros.

Quer quando se tratava de uma partida de futebol e tudo fazíamos para ficar na mesma equipa. Assim, desse modo para além de se manterem na mesma equipa mais facilmente podiam vencer a partida mercê das qualidades que qualquer um tinha na arte de dar pontapés na bola.
Eram praticamente imbatíveis, mas era quando jogavamos contra a equipa do bairro vizinho que a rivalidade vinha à tona qual SC Braga x Guimarães.

O mesmo companheirismo se fazia sentir quando rumavam ao velho 1º de Maio ver o “braguinha”, pois eram sócios com lugar cativo a cada 15 dias naquele palco mítico onde viveram tantas tardes e noites de glórias mas também alguns desgostos.
Assim se manteve essa sã convivência até à altura do casamento de dois deles: do Marito e do Julinho. Pouco tempo depois perdia o rasto do Litos que preferiu o estrangeiro para tentar o sonho de ser guitarrista e que melhor cidade que Liverpool para tentar ser o novo J. Lennon?
Debalde tal tentativa, pois estava de volta ao bairro meia dúzia de meses depois da partida. Porém tal como regressara assim partira novamente.

Agora ia tentar a cidade luz, juntar-se aos outos artistas que deambulam entre Montmartre, um bairro boêmio e Montparnasse - La plus belle vue de Paris - ou junto à gótica catedrale de Notre Dame ou nas margens do Sena. Dessa vez ficou muito mais tempo.
De ínicio ainda ia recebendo cartas onde contava as façanhas como guitarrista de rua (também usava amiúde e para espanto dos transeuntes a braguesa) os aplausos, o dinheiro que ganhava e que juntava para pagar o seu quarto num barco ancorado algures no Sena na zona de île de France. Tinha conseguido abrigo através de uma portuguesa que entretanto conhecera, também ela artista. Mas quanto mais o tempo passava menos notícias recebia. Até que finalmente deixou de dar notícias.

Mau grado a distância nenhuma erosão dos tempos seria capaz de apagar das memórias as traquinices, as brincadeiras, os jogos de futebol no campo empoeirado do bairro as viagens ao encontro do des-conhecido ou dos concertos de fim de semana onde colecionaram centenas as vezes que assistiram a grandes nomes do rock português mas também nomes ilustres da música “indie” como Peter Murphy, Nick Cave ou The Pogues...
As noitadas de S. João que não perdiam por nada - a primeira noite em “branco” por “culpa” desse santo aconteceu teriam cerca de 12 anos.

Quando se encontravam o Litos, mais concretamente o seu paradeiro era a preocupação maior. Se pelo menos tivesse algum familiar, mas o companheiro tinha ficado cedo privado do amor de mãe do carinho e ajuda do pai. Até que certa manhã aparece o carteiro com uma carta na mão.
Vinha de Viena, Áustria. Veio-lhe logo ao pensamento o seu amigo, pois não ti-nha ninguém que pudesse andar por aquelas bandas senão ele. Rapidamente o seu sorriso de surpresa esvaneceu-se, a escrita estava em inglês. Tratava-se realmente do Litos.

Não, desta vez não foi para escrever que estivera no local onde foi gravado “Um americano em Paris” com Gene Kelly no seu melhor, ou que deixara de escrever porque ganhara muito dinheiro e com ele foi fazer a viagem de sonho de todos eles os quatro.

Não. Antes para o notificarem da morte do seu querido amigo. Quem escrevia dava pelo nome de Margareth e referia que tinha ficado com ele até ao último minuto, que ele tinha pedido a presença deles mas pensando que podia causar trans-torno ocultou-lhe que não contactou ninguém. Mas quem decidia o que fazer, afinal? Parece que o tecto desabara em cima como se de um tremor de terra se tratasse. Correram mil e uma imagens pela sua mente, queria manter-se focado mas o seu ser parece que tinha esmorecido, tinha também ele perecido por ins-tantes para dar lugar à angústia e finalmente a tristeza. Apenas queria recuperar o miúdo que um dia correu a seu lado e megulharam juntos nas águas do rio Este ou das jornadas domingueiras no graní-tico 10 de Maio, dos risos. Dos dias.

Não queria pensar que o podia encontrar agora na aldeiazinha dos mortos caiada de branco já na companhia daqueles que eram seus e já há muito tinham partido. Um arrepio trouxe-o de volta á realidade. Sonhos (ou pesadelos) desta natureza fazem-nos perder a noção de tempo e lugar.
A primeira recordação que guarda dele é a de um puto que estudava na escola que deu lugar hoje ao IPDJ e tal como muitos outros miúdos, cheio de alegria, uma alegria contagiante própria da idade. Nessa altura eram companheiros de carteira.

Fica o vazio, esse jamais será preenchido. Fica bem que eu cá vou indo, agora um bocado pior. Falta-me algo que ninguém consegue preencher no coração! É este o epitáfio que jaz com ele na lápide do túmulo que está algures no Pere Lachaise, junto ao seu ídolo maior: Jim Morrisson.
Por cada Amigo que perdemos parece que ficamos mais velhos, mais desprotegidos e frágeis. Começam a faltar as forças que ajudam a ultrapassar tropeções desta natureza. Também elas parecem morrer, devagar, como um último sopro...

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