Correio do Minho

Braga, quarta-feira

TU e o desejo em voltar a ser um puto à solta uma última vez…

Saúde escolar: parceiro imprescindível das escolas de hoje

Conta o Leitor

2015-08-22 às 06h00

Escritor

Carlos Alberto Rodrigues

Naquela manhã outonal de novembro, o ar corria frio pelas ruas da cidade. As árvores que pontualmente ia encontrando, vestiam-se com as cores da despedida das suas folhas que facilmente caíam, criando mantos coloridos e tapetes fofos, dando razão à afirmação de que o outono é a natureza a envelhecer: o amarelo imperial, o vermelho alaranjado ou o castanho avisavam que dentro em breve ficarão despidas, expondo-se ao frio invernal. Elas caem das árvores e flutuam no ar, assinalando o final de uma vida. O vento leva-as com delicadeza até seu encontro final com os relvados dos jardins ou com o chão duro das ruas da cidade.
Dirigia-me para o centro histórico, em busca de documentação que eu necessitava, por isso o meu destino era a biblioteca.

Estava eu entretido com os meus pensamentos quando de repente algo impensável de acontecer… aconteceu, ou antes, apareceu: Vi-te, a escassos metros da biblioteca. Apesar de estares de costas voltadas para mim, enquanto conversavas com alguém, a silhueta não enganava, apesar dos vinte anos que separavam aquele momento da última vez que te vi, naquela despedida na plataforma da “velha” estação dos comboios, de onde partirias com destino a Lisboa. Desde então quase não tive notícias sobre ti. Desta vez, devo confessar que o meu coração quase saia disparado deste peito que tantas vezes procurou o conforto do teu para momentos de ternura e onde muitas vezes calmo acordei.

Por isso parei e procurei o banco de pedra fronteiriço à igreja do Largo para recuperar das emoções. Enquanto esperava por um encontro contigo, mil emoções passaram pela minha memória. Anos, lugares e pessoas voltaram a estar presentes surgidos de um tempo distante. Um tempo que foi nosso e que me permitiu viver contigo dias sem idade. Naquilo que agora pareceu um ápice vi-te menina feliz de longas tranças pretas a transformar-se numa mulher feita, cuja beleza exótica ganhava realce, muito por culpa de tua tez morena a que se juntavam os tais cabelos que permaneciam negros como uma noite sem luar e os olhos verdes como o musgo que tantas vezes procuramos nos montes por entre a urze brava e os fetos, quando se aproximava o natal. Já naquela altura não era necessário ter “poderes” exotéricos para saber que mais tarde irias fazer sofrer muitos corações. Muitos homens haviam de procurar abrigo nos bares ou nas alcofas de outras mulheres por não te terem a ti. Eras linda, foste a minha fiel companheira de jornada entre os campos em flor ou pelas veredas de verde vestidas, pelas escapadelas que fazíamos para ficarmos apenas os dois nesse tal mundo. Alguns até de pecado eram capazes de descrever esta relação. Diriam que mais parecia coisa de gente adulta. Palavras, que debalde eram rejeitadas quando já eramos capazes de nos defendermos perante tal falatório ou tão só ciúmes. Não julgo que haja no mundo nada mais bonito do que as ideias que acordam, no coração de uma mulher como tu e se transformam em realidade no homem que se ama. Parece que tudo à nossa volta ri, tudo brilha e tudo folga à roda dessas ideias e assim, à volta de ti, até ao sopro do ar e ao raio do sol que se divertem à porfia nos travessos fios dos seus cabelos.
Hoje com a lucidez que os anos nos trazem e a nitidez de pensamento descomprometido, devo dizer que foste a verdadeira lufada de ar fresco naquela manhã outonal. Recuar no tempo onde ambos descobrimos o mundo e que um dia nos descobrimos mutuamente, sem pressas. Ousadia que foi um dia ver-te sorrir naquela aldeia, que um dia nos viu nascer e partir para a vida.
Finalmente ficámos parados e olhamo-nos a sorrir como se também tu acabasses de ter viajado até ao nosso tempo e esse sorriso fosse resultado de um sonho que ficou suspenso com a viagem que fizeste naquela manhã de maio, enquanto o sol se erguia num desses céus azul-ferrete. Depois, na falta de notícias, afogava-me nas mulheres como o suicida no mar, e senti na cama a falta do teu ombro ou do teu regaço ou do colo onde pousava a cabeça e ouvia-te contar como foi o teu dia.

Disto dei-te conta na conversa que se seguiu. Reparei que mantinhas o ar jovial, os olhos permaneciam verdes, e os cabelos livres como tu. Sorrias amiúde, pareceu-me disfarçado de um nervosismo miudinho. Pediste-me perdão. Nada havia a perdoar. Voltei a carregar na tecla do tempo sem idade. Que se recordasse sempre dos nossos bons momentos.
- “Ai, mas disso lembro eu muitas vezes. São eles que muitas vezes dão-me forças para continuar neste “corre, corre, não podes perder o ritmo”. Quantas vezes? Mais do que alguma vez hás de imaginar. Terás sempre um lugar especial na minha memória”.
Depois de mais um sorriso, pediu-me para ser seu cicerone e mostra-lhe a face da mais nova cidade de Braga que tão bem conhecera em tempos. Concordei com a ideia e mergulhamos pelas ruas da cidade à aventura dos sentidos.

Terminado o dia, a noite pareceu-me mais bela do que nunca. Deitei-me sabendo de antemão que não ia ser fácil adormecer. Esperavam-me memórias sobre a aventura dos sentidos. Como costuma haver desencontros na vida, o contrário também acontece.
Antes de fechar os olhos ainda tive tempo para recordar:
“Acariciemos o outro, caiamos nas nossas bocas, sobre o seio macio, vamos agoniar de prazer e, sorridentes, deixar-nos-emos morrer de pequenas e contínuas mortes.”
Estamos sós… até amarmos ou morrermos”.

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