Correio do Minho

Braga, quinta-feira

Trump: um perigo para a Humanidade!

Sem Confiança perde-se a credibilidade

Ideias

2017-01-29 às 06h00

Artur Coimbra

É incontornável que Donald Trump, que tomou posse há uma semana como 45º presidente dos Estados Unidos da América, seja motivo para umas palavras, embora a contragosto, porque o personagem releva mais do ridículo e da loucura do que da consistência política. É o facto de ser o líder da nação mais poderosa do mundo que torna o homem extremamente perigoso, não apenas para a América, mas para a própria Humanidade. Promete virar de pernas para o ar o mundo que conhecemos do após II Guerra Mundial, com os seus equilíbrios geoestratégicos, a sua tolerância, a convivência das nações ao longo de décadas!

E assim sendo, todos os cidadãos do mundo são chamados a ter uma posição sobre o novo presidente ianque, porque as decisões tomadas na Casa da Branca, para o bem ou para o mal, vão ter repercussões inevitáveis pelo mundo fora. Portanto, tudo o que Trump fizer ou deixar fazer, interna e externamente, também tem a ver connosco. Daí o interesse pelo que se passa no outro lado do Atlântico.
E numa semana já “anunciou” que todos estamos mesmo em risco, não apenas quem mora nos 50 estados federados.

Quando se desenrolou a interminável campanha eleitoral (uma das patéticas originalidades americanas...), e se ouviram as ideias mais estapafúrdias e inacreditáveis que imaginar se possa, ainda se julgou que estávamos apenas em plena propaganda para arrebanhar a América mais profunda para o apoio a um candidato que não prima propriamente pela subtileza. Estamos a falar de um multimilionário, sem a mínima experiência política (o que é claramente desvantagem...), arruaceiro, racista, fanfarrão, misógino, extremista, radical, autocrático, profunda e negativamente tradicionalista. Ainda ninguém conseguiu encontrar virtudes num personagem cujas acções e medidas alguns apontam, algo catastroficamente, como prenunciadoras da III Guerra Mundial.

Como o classifica justamente este fim-de-semana José Pacheco Pereira, no Público: “Não é um democrata, não é um liberal, não é um conservador, nem um fascista, nem um nacionalista, é um demagogo revolucionário, egocêntrico e autoritário, que só ouve a voz do seu próprio sucesso”.
Porém, após a tomada de posse, afinal, muitas das ideias mais radicais de Trump são retomadas e colocadas em cima da mesa, o que não pode deixar de ser assustador.

Não será por acaso que o fim-de-semana foi fértil em protestos, na América e no exterior, com mais de 600 manifestações pelo mundo fora, incluindo Portugal, juntando muitos milhões de cidadãos. A chamada “marcha das mulheres” agregou as maiores multidões de sempre nos Estados Unidos, desde a Guerra do Vietname, onde mais de 500 mil pessoas desfilaram na capital. Trump é o presidente americano que inicia o mandato com os mais baixos índices de popularidade, o que não deixa de ser significativo da sua índole patética!...

Desde logo, a nível interno, acabou com o “Obamacare”, um sistema de saúde para os mais pobres, que, se calhar, foram os seus eleitores maioritários. É a paga!...
Ideologicamente, e num tempo de cosmopolitismo e globalização, Trump propõe o regresso do egoísmo americano, a América voltada para dentro, para si própria: “Tornar a América grande outra vez. A América em primeiro”.

É claro que quem maltrata o mundo, não vai esperar que o mundo aprecie o personagem. Não é por acaso que já anunciou o “Dia do Patriotismo”, como umas primeiras medidas. Mas também proclamou o reforço do arsenal bélico norte-americano, o que é perigosíssimo para a segurança mundial, e a manutenção da política de armamento dos americanos. O acesso às armas é livre, para se poderem matar à vontade uns aos outros, como frequentemente tem acontecido. E também já anunciou que as forças de segurança podem exercer as maiores atrocidades perante os cidadãos, sobretudo negros, que os seus agentes até serão galardoados...
Mas isso é problema deles.

Um presidente polémico, agressivo, que “tweeta” contra tudo e contra todos os que não vão à missa com as suas estranhas ideias. Desde logo, é patente a sua agressividade contra a grande imprensa americana que, seguramente, não morre de amores pelo personagem. Trump diz que os jornalistas estão entre as pessoas mais desonestas da Terra e o seu estratega para a comunicação, um homem de passado e ideias sinistras, Stephen K. Bannon, afirmou que é melhor a imprensa “manter a boca calada”. A imprensa é tratada como o “partido da oposição”. Significativo… Eleito como presidente de uma superpotência mundial, os seus projectos no âmbito da política externa têm, naturalmente, grande impacto nos cinco continentes, até pelo facto de desafiarem as normas políticas vigentes até agora.

No âmbito do livre comércio, Trump ameaça acabar com vários acordos de livre comércio em vigor, culpando-os pela perda de emprego nos EUA. Falou em impor taxas elevadíssimas aos produtos importados de outros países, sobretudo da China. Levadas avante, estas alterações podem significar a reconfiguração mais significativa das relações comerciais dos EUA com o resto do mundo.

Em relação às mudanças climáticas, Trump ameaça sair do acordo de Paris (sobre a redução de gases com efeito de estufa), assinado por mais de 195 países no ano passado, e disse que iria parar as contribuições norte-americanas para os programas contra o aquecimento global das Nações Unidas. Para o personagem, o aquecimento global é um ‘truque chinês’. A China é um dos alvos predilectos de ataque da nova política americana.

Trump tem fixação no que poderíamos chamar de fronteiras fechadas. Fala em deportar milhões de imigrantes ilegais na América, critica o apoio aos refugiados, sugeriu a proibição da entrada de muçulmanos nos EUA. E desencadeou já a construção de um muro na fronteira com o México e que o país pagará por ele.

Outro dos focos trumpianos dirige-se à NATO, que tem destratado nos seus discursos. O presidente americano sempre criticou a organização, definindo os seus membros como aliados mal-agradecidos. Tem mesmo afirmado que os EUA não podem continuar a proteger países da Europa sem a devida compensação. Não se augura nada de bom por estes lados.

Finalmente, são muito suspeitas as “boas relações” de Trump com Vladimir Putin, não se percebendo muito bem qual vai ser a política americana perante a estratégia de um ditador que quer afirmar e expandir o “império russo” e que tem anos-luz de matreirice política em relação a um inexperiente líder americano que agora começa e que só sabe tratar dos seus negócios!...
Como bem refere o Papa Francisco, vamos esperar para ver, mas sempre desconfiando, porque, como lembrou em entrevista a um jornal espanhol, “a história está carregada de maus exemplos de homens que se apresentaram como salvadores”.

Mas não pode ser boa rês (e não é) um presidente que defende que “a tortura funciona” e que vai promover legislação no sentido de permitir a detenção de suspeitos de terrorismo em “locais negros”, o que significa repor técnicas de interrogatório “musculadas”, para usar um eufemismo. Ou seja, para torturar. 
Os cidadãos, pelo mundo fora, inquietos e apreensivos, quanto ao novo presidente americano, bem gostariam mais de o ver a construir pontes de diálogo e não a construir muros, não apenas físicos, mas simbólicos!

Deixa o teu comentário

Usamos cookies para melhorar a experiência de navegação no nosso website. Ao continuar está a aceitar a política de cookies.

Registe-se ou faça login

Com a sessão iniciada poderá fazer download do jornal e poderá escolher a frequência com que recebe a nossa newsletter.




A 1ª página é sua personalize-a

Escolha as categorias que farão parte da sua página inicial.

Continuará a ver as manchetes com maior destaque.