Correio do Minho

Braga, quinta-feira

Trump, um ano depois

Uma carruagem de aprendizagens

Ideias

2018-01-19 às 06h00

Margarida Proença

Este sábado, dia 20 de janeiro, faz um ano que Ronald Trump foi eleito Presidente dos Estados Unidos, e como seria de esperar sucedem-se as análises sobre os resultados obtidos. Há um ano, portanto, Trump era eleito sob a bandeira global do America First, mesmo que para tal fosse necessário sacrificar os interesses dos aliados.

No contexto da política externa, defendia a importância dos EUA terem mais poder militar por forma a tornar-se tão poderoso que não fosse ameaçado por ninguém, e que os outros países, e nomeadamente a União Europeia, deveriam responsabilizar-se, e pagar, pela sua própria segurança. Prometeu impedir o avanço do islamismo, reservando-se o direito de exigir contrapartidas aos países que não fossem leais, e não acompanhassem o sentido das políticas definidas pelos EUA. Trump garantiu ainda o melhor dos mundos em termos económicos- empregos para todos e uma diminuição fantástica dos impostos para empresas e classe média. Prometeu ainda que as empresas deixariam de se deslocalizar para a China ou para outros países ou de fragmentar os seus processos de produção facilitada pela tecnologia e pela globalização, criando por essa via milhões de empregos novos nos EUA. E que para tal, se necessário, penalizaria empresas que deixassem o país. A contrapartida de cortar tanto impostos era acabar com o Obamacare, e diminuir os gastos públicos que não militares, claro, na educação, na saúde, nas agências de regulamentação, etc. E obviamente o America First significava também o não à imigração, o muro na fronteira com o Mexico, a expulsão dos imi- grantes ilegais, por aí fora.

A abordagem explorou o descontentamento de muitos, levando uma mensagem simples de que os outros são os culpados e que basta fechar as fronteiras para resolver os problemas. A atração pela promessa fácil que induz, num contexto de quase certeza que garante, a ausência de complexidade desta leitura, tem vindo também a multiplicar-se pela Europa; entronca numa abordagem política e económica muito antiga, que veio recentemente a reforçar-se com base em muitos argumentos esgrimidos contra a globalização e o peso excessivo da tecnologia na sociedade atual, e multiplicados, de forma explosiva, pelos comportamentos imediatistas e facilitadores das redes sociais. Estes argumentos remetem para custos elevados da globalização, para o reconhecimento óbvio de que nunca se prestou atenção suficiente ás consequências em termos da distribuição e redistribuição de rendimentos, para a dominação e controlo do sistema económico internacional por parte dos países mais ricos, para o acréscimo da volatilidade financeira nos mercados mundiais, para o aumento do poder das multinacionais inclusivamente no contexto político, para a contribuição para problemas ao nível ambiental, chegando a colocá-la como a principal ameaça do Ocidente. Nunca questionando o queóbviaet está do outro lado da moeda Trump parece concordar com teses antigas, de que o comércio internacional é um jogo de soma nula eu perco o que tu ganhas.

Um ano depois, a insegurança e o grau de incerteza nas relações económicas e políticas internacionais aumentou. E se houve algumas boas notícias é que Trump falhou em grande parte das suas promessas. Acabou com o envolvimento dos EUA no Acordo de Parceria TransPacífico, negociado por Obama com 12 países do Pacífico Rim, e tocou os tambores dos media por isso como se fosse a entrada no paraíso. Mas não; o acordo previa uma implementação ao longo de 15 anos e tinha sido criticado porque os ganhos que permitiria obter não eram significativos. E de qualquer forma, os outros países envolvidos, foram para a frente com ele. As multinacionais vão passar a ter comportamentos estratégicos diferentes? dificilmente. Elas escolhem onde localizar a sede, a produção, a comercialização, ou os ativos financeiros de acordo com os seus próprios interesses, de acordo com regimes fiscais, sistemas legais, mecanismos regulatórios, acesso a mercados, fontes de matérias-primas ou qualificação do trabalho, e integram as várias localizações em cadeias de valor globais; vão optar por deixar de ter acesso a fontes de matérias primas, ou a países com salários mais baixos, diminuindo por essa via a competitividade que têm, ou aceitar a imposição de barreiras tarifárias por parte dos parceiros comerciais que se sintam prejudicados?
Trump saiu do acordo sobre o clima, que considerou ser um mau negócio, mas isso levou a que a EU, outros países e mesmo alguns estados americanos como a California, considerassem tal como um incentivo adicional em apostar em energia limpa. Se se comportarem de forma semelhante no quadro dos acordos multilaterais de comércio, como parece por agora, dificilmente Trump cumprirá as suas promessas.

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