Correio do Minho

Braga, segunda-feira

Três razões

A Europa paga aos agricultores para não produzirem?

Escreve quem sabe

2018-10-23 às 06h00

Analisa Candeias

Uma das frases que ecoa ainda dos tempos idos da revolução é “Lutar por aquilo em que se acredita”. Resta é saber de qual das revoluções surgiu esta frase, visto que, como bons portugueses que somos, fomos fazendo algumas rebeliões nas últimas centenas de anos. Umas menos pacíficas do que outras, é certo, mas todas elas com algum sentido místico que foi permanecendo na nossa genética. Acreditar. É a isso que se resume todo o nosso dever de rebeldia lusitano, sempre pintalgado, aqui e ali, por uma esperança que teima em se desvanecer.
Ainda não sei bem porque acreditamos. Talvez porque queremos que as condições melhorem – condições de vida, sociais, de trabalho, económicas… Todo um sem número de condições. Talvez porque desejamos construir – simplesmente construir pelo impulso de criar, próprio da natureza humana. Ou talvez porque somos uns desassossegados – irrequietos, agitados, impacientes, mal-educados, turbulentos. E, muitas vezes, é esse desassossego que nos faz avançar, que nos dá energia para andar para a frente.

A profissão de Enfermagem existe desde há uns escassos cento e alguns anos - como profissão, a Enfermagem surgiu no final do século XIX, embora tenham existido sempre enfermeiros nos hospitais e na comunidade. Nós, os enfermeiros, temos sido peritos a fazer revoluções em Portugal. Umas maiores do que outras, também é certo, mas todas elas com um sentido de unidade bastante forte. No fundo, nós, os enfermeiros, somos uns desassossegados. Porque acreditamos. E porque nos damos por inteiros, sacrificando muitas vezes a nossa saúde, e a nossa vida familiar, para construir algo importante junto do Outro que necessita da nossa ajuda.
E, nesta altura, surge uma das perguntas mais importantes dos últimos dias: quais as razões que levam os enfermeiros a fazer greve?
Existem várias, mas parece-me oportuno identificar três razões que, ao mesmo tempo, são grandes pilares da profissão.

A primeira está relacionada com a dignidade. Dignidade perante o reconhecimento do contributo social da Enfermagem e dignidade perante a nossa dedicação. Porque não sentimos que somos reconhecidos no papel social que nos é atribuído e porque não sentimos que a nossa dedicação é reconhecida. Dedicação muitas vezes realizada fora das horas de trabalho, fora de um sistema de recompensas e fora da equidade perante os outros profissionais com quem trabalhamos. Gostaríamos de nos sentir mais dignos, que a sociedade e, já agora, em especial os senhores gestores, deputados e restantes governantes, nos reconhecessem a excelência da nossa missão.
A segunda razão está relacionada com a justiça. Justiça perante os salários e justiça perante a carreira. Justiça perante o reconhecimento da ciência que nos compõe e justiça perante a precariedade dos vínculos. Justiça perante o número de horas que trabalhamos numa semana e justiça perante o trabalho extraordinário que temos de fazer – sim, que isto de andar a trabalhar de noite tira-nos anos de vida. Gostaríamos que fossem mais justos para connosco e para com o contributo que damos - que, consequentemente, traria alguma justiça para aqueles que consideramos como nossos no meio afetivo.

A terceira e última razão está relacionada com a liberdade. Liberdade perante uma autonomia que teimam em reprimir e liberdade perante a nossa autodeterminação de importância na qualidade da saúde em Portugal.
Sentimo-nos livres, portanto sentimos que podemos exercer uma luta, ou uma revolução se assim quiserem chamar, face à inércia e à desigualdade. Gostaríamos que esta ação e sentido de liberdade desse fruto, que fosse possível a melhoria das tais condições já abordadas, e que nos tem sido negada. E porque nos assumimos como livres, tomamos a rebeldia de ousar ir um pouco mais adiante. E avançar.
Somos dignos. Procuramos ser justos. Somos livres. E por estas três razões, ou imposições, acreditamos. Acreditamos que tudo pode ser melhor, que existe disponibilidade para mudar e, acima de tudo, vontade de transformar. Transformar por aqueles que necessitam de melhores cuidados de Enfermagem e por aqueles que, no futuro, podem vir a necessitar dos mesmos.
Acreditamos na transformação em prol de uma população mais esclarecida, mais saudável, mais apta. No fundo, nós, os enfermeiros, somos um bando de turbulentos. E porque não?

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