Correio do Minho

Braga,

Traído pelo tempo imperdoável

Escrever e falar bem Português

Conta o Leitor

2013-08-09 às 06h00

Escritor

DANIEL SILVA PEREIRA

Acordava todos os dias às sete e trinta e sete da manhã. Tinha por costume andar sempre com as horas certas, ainda que, por vezes, um minuto a mais ou sessenta segundos a menos. De seguida dirigia-se à casa de banho e tomava um duche de sete minutos e, com o resto das tarefas de higiene pessoal, os quinze minutos eram essenciais. Depois deveria dirigir-se à cozinha e tomar o pequeno-almoço que lhe consumia dezoito minutos. Assim saía de casa precisamente às oito e dez e com o caminho até ao emprego, que, segundo os seus cálculos, demoraria vinte e três minutos, isto é se não “levasse” com algum imprevisto pelo caminho. Já no seu escritório, cerca de dois minutos depois lia as notícias matutinas no jornal, pois gostava de se manter informado sobre o que se passava. Esta sua leitura deveria demorar vinte e dois minutos, para que quando ligasse o computador e ajeitasse os dossiês estivesse a trabalhar às nove horas da manhã sem falhar nenhum segundo.

Para Aristides tudo isto tornou-se uma rotina desde a infância… primeiro apenas por brincadeira, depois começou a entranhar-se em si e começou a ser uma rotina que fazia já de forma natural sem que estivesse sempre a mirar o relógio. Todos os admiravam por ter tanta paciência e tal dom, como se fosse um “mágico do tempo”. Aliás a sua promoção na empresa para um cargo de grau elevado deveu-se também à sua pontualidade milimétrica, junta com, é claro, o seu profissionalismo e inteligência. Era feliz.

Os anos foram passando, porém na vida de Aristides quase nada mudara. Para ele o mais importante é que o dia tinha vinte e quatro horas e esse tempo dava para fazer coisas diversas. No fundo, tudo corria “controladamente” até que um dia conheceu Luísa, uma nova moradora do quinto direito, no elevador numa tarde às seis e vinte e dois. Passaram à troca de números e seguiram-se as mensagens, os jantares, os encontros e as idas ao cinema. Aristides controlava todos os momentos que passaram juntos até ao mais ínfimo solavanco temporal e por isso no dia em que jantaram no mais refinado e conceituado restaurante da cidade adiantara que depois de cento e quarenta e três dias, três horas e dezanove minutos estava pronto para dar um novo passo na vida… e pediu Luísa em casamento.

O episódio do pedido de casamento fora o ponto final do controlo do tempo para Aristides, porque agora, casado, teria de dedicar todo o tempo possível à vida familiar e por isso o tempo passou a ter uma importância mais leviana e relativa. Ajudar a esposa nas tarefas domesticas, ir ao mercado, dar um passeio ao sábado de manhã…

Dois anos depois tiveram o primeiro filho a quem chamaram de Jacinto. Agora ainda havia mais trabalhos a fazer, desde mudar fraldas, a contar uma história para adormecer. Tudo isto se juntou ao dia a dia e fez Aristides sentir-se um homem mais feliz ainda e mais completo. E tudo corria maravilhosamente bem na sua vida e quando deu por ela, já o Jacinto jogava à bola e fazia os primeiros desenhos abstratos. A vida deste homem era maravilhosa e ele até pensava que tinha o mundo e o tempo nas suas mãos… mas não tinha!

Doença complicada, quase sempre fatal, herdada dos seus antepassados familiares, foi-lhe diagnosticada. Passaram a ser rotina os tratamentos, as consultas, os tubos no seu corpo. Segundo os peritos da medicina hospitalar os dias estavam contados para Aristides, devido à doença estar alastrada pelo seu corpo e ser quase impossível travá-la a tempo.

As noites antes passadas em família eram agora passadas entre quatro paredes brancas, ligado constantemente a fios, a sentir o cheiro a desinfetantes, a sentir o barulho entranhado nos corredores. Alienado, chegava à conclusão que perdera demasiado tempo a dar importância ao tempo e claramente percebeu, apenas agora, que “dominá-lo” fora a coisa mais oca que fizera, porque fora um engano.

Todas as manhãs acordava e olhava os seus braços incolores e passava a mão na cabeça, agora despida. E logo de seguida era levado para a sala onde se seguiam os tratamentos prolongados e dolorosos. Sentia que o enganavam em tudo o que lhe faziam. Depois disso diziam-lhe sempre: “Vamos agora voltar para o seu quarto, senhor Aristides. Precisa de descansar!”. E ele chorava silenciosamente, porque sabia, com raiva, que aquele não era decerto o seu quarto.

De tarde vinham as visitas, quase sempre familiares, que para si funcionavam como uma recompensa depois de todo o esforço e sofrimento dos tratamentos. A sua esposa e o seu filho estavam com ele todos os dias. Ela com os olhos cansados de sofrimento e ele, inocente e demovido de tudo o que se passava, apresentava-se alegre ao ver o pai. Porém Luísa sabia mais que todos. Sabia que não restavam muitos dias ao seu marido, pai do seu filho. Se a ciência se revelasse exata, Aristides tinha agora treze dias de vida.

E os dias passavam lentamente no hospital, porque que ali o tempo parecia ser “ilimitado”, mas para Luísa a cada dia de visitas aparecia mais desmoronada, mais velha. Agora, segundo os cálculos médicos, cinco dias era todo o tempo que restava.

Passaram os quatro dias seguintes e a rotina manteve-se exata e cortante para o corpo e para a alma de Aristides. Sentia-se fraco e logo depois do jantar daquele dia adormeceu repentinamente. Os sonhos foram estranhos desde labirintos sem saída, a relógios famintos de tempo que avançavam rapidamente e ainda que ele se esforçasse para tentar travá-los nada fazia abafar o “tic-tac”, ecoante. Acordou em sobressalto e mirou de imediato o relógio da parede que andava normalmente… segundo a segundo. Aliviado olhou o retrato que tinha ao seu lado na mesinha de cabeceira. Ele, Luísa e Jacinto numa tarde solarenga de primavera. Pensou imediatamente na próxima visita.

Depois pousou, lentamente, a cabeça na almofada. Olhou através da janela para a luz serena das estrelas e da lua. Suspirou, sorriu… e adormeceu.

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