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Trabalhar é mau?

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Trabalhar é mau?

Voz aos Escritores

2022-11-25 às 06h00

Fabíola Lopes Fabíola Lopes

Há uns tempos que ando com esta questão a bailar pelos dias fora. A palavra trabalho, que pode significar prazer, conquista, dignidade, crescimento e contribuição, anda pelas ruas da amargura.
Desde logo cedo na escola, local de muitas realidades, encontros e desencontros, onde se procura o crescimento pessoal e social, o conhecimento do mundo e o lugar de cada um nele, a palavra trabalho parece ter desaparecido e até ter sido classificada como horrenda pelos ouvidos mais sensíveis. O importante é ser feliz, sem dúvida. Mas ser feliz também significa isso: crescer na plenitude dos sentidos, aprender, gostar do conhecimento e do que este nos traz, incluindo um trabalho prazeroso, que possa continuar esta escalada de crescimento bidimensional (pessoal e social). Conquistar o desenvolvimento ao nosso alcance e encher o peito com esta realização. Algo que leve o nosso contributo individual para o crescimento e desenvolvimento do mundo. Mas para se chegar lá é preciso trabalhar, que é como quem diz, estudar. A pergunta é simples: se queremos este bolo todo para os nossos filhos, que ingredientes temos de começar a colocar na sua ementa desde cedo? O tempo de cozedura é longo, muito longo, mas convém não esquecer o objectivo final, o tal bolo.
Como estava a escrever, de repente, à direita e à esquerda, a palavra trabalho parece revestida de um manto fétido. Não sei se por reminiscências do trabalho hitleriano ou do dos comunistas. Como se ninguém trabalhasse ou ninguém tivesse trabalhado para alcançar um horizonte mais agradável. Agora é tudo muito profissional. Já não se diz de alguém que é trabalhador, mas antes que é um bom profissional.
Não que esteja aqui a advogar o trabalho e dedicação sem limite, sendo que a dignidade do trabalho reside na capacidade de subsistência e no equilíbrio entre os tempos profissionais e pessoais. Aliás, os exemplos de escravatura são cada vez mais gritantes, longe e perto de nós.
Muito se tem falado nos últimos dias sobre os direitos humanos a propósito do mundial de futebol no Catar, mas… vamos ser sinceros, não conhecemos mais exemplos? Seremos tão hipócritas que não vemos a escravatura chinesa pelo conforto dos nossos smartphones e sem a qual não poderíamos ter acesso a tecnologia tão barata? E cá em Portugal? Já esquecemos as reportagens sobre os trabalhadores explorados e escravizados desde as plantações agrícolas à construção civil?
Sejamos honestos quando criticamos ou, no mínimo, coerentes. O modo de vida dito ocidental sempre esteve assente na escravatura de africanos, sul-americanos ou asiáticos. Se é para apontar o dedo, apontemos a todos, sem descriminação ou olhos toldados pelo conforto e interesse de cada um ou de grandes empresas. Incluindo um dedão bem grande virado para nós. Somos muito críticos à distância, mas custa-nos arrumar a nossa casa.
E até que ponto estamos dispostos a pagar o preço da dignidade no trabalho e o cumprimento integral dos direitos humanos em todo o planeta?
Pelo que ouvi ultimamente sobre a liberdade e democracia a ser conquistada na Ucrânia versus o aumento do custo de vida, inflação, custo energético e outras coisas mais, muitas vozes já não querem saber das pessoas que irão passar o Inverno sem aquecimento, sem luz e sem água canalizada.
Querem antes saber do seu conforto e sobrevivência imediatos. E para alguns a dificuldade é tanta, que nem consigo censurar. Atirar pedras é fácil. Ver onde está a real pedreira já exige menos miopia.

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