Correio do Minho

Braga, sábado

Touradas

Investir em obrigações: o que devo saber?

Ideias

2018-06-18 às 06h00

Carlos Pires

O presidente da Câmara, Aires Pereira, anunciou o fim das touradas na praça da Póvoa de Varzim já depois do próximo verão, uma vez que o espaço vai ser transformado numa unidade multiusos. A notícia abalou o mundo dos aficionados, que colocaram na Internet uma petição pública para impedir o fim das corridas. A Prótoiro – Federação portuguesa da Tauromaquia emitiu um comunicado no qual considera que “a tauromaquia é um traço centenário da cultura e identidade dos Poveiros, sendo a sua praça um ex-libris da cidade e da tauromaquia no norte de Portugal. Além disso, a tauromaquia é uma das marcas distintivas e uma das mais-valias da oferta turística e cultural da cidade e da região, com impacto económico”.
Aires Pereira fundamentou a sua decisão, nomeadamente, no fato de existir nos dias de hoje “uma outra sensibilidade em relação às touradas, as novas gerações  HYPERLINK "https://www.publico.pt/2017/07/22/sociedade/noticia/meia-centena-manifestase-na-povoa-de-varzim-contra-a-realizacao-de-touradas-na-cidade-1779988" olham-nas de forma diferente, este ano já  HYPERLINK "http://pet.publico.pt/2018/05/23/evora-universitarios-decidem-acabar-com-garraiada-na-queima/" não se fizeram garraiadas nas festas académicas e a câmara decidiu dar um novo uso àquela praça”. A este propósito, registe-se, estudantes de outras escolas superiores (vg. Universidade de Évora) decidiram acabar com a garraiada académica (utilização de toiros) na festa da Queima das Fitas. As touradas deixaram pois de ser vistas como um ritual cultural e passaram a ser encaradas como um ato bárbaro?

Eu desde já aplaudo a iniciativa e coragem do presidente da câmara a Póvoa de Varzim. Já posso adivinhar a (caduca!) habitual argumentação dos aficionados: que a tourada é uma forma de arte, e deve ser visto como o equivalente de dança, ou pintura, ou música e, ainda, que os toureiros são qualificados e por trás de toda a pompa e ritual, o touro é de fato morto de uma forma muito digna. São, na verdade, argumentos “de encher chouriços”, que causam até repúdio na maioria das mentalidades e sobretudo nas mais jovens.

Caros leitores, conforme já referi anteriormente e neste mesmo espaço de opinião, a propósito quer da aprovação, em Março de 2017, do Novo Estatuto Jurídico para os Animais - e através do qual estes deixaram de ser tratados como “coisas” e integraram o estatuto de “seres vivos dotados de sensibilidade”, criminalizando-se os maus tratos, dor ou sofrimento que lhes sejam infligidos -, quer ainda a propósito da legislação que entrou em vigor no mês passado e que passou a permitir que os animais de companhia possam acompanhar os respetivos donos a estabelecimentos de restauração, temos de reconhecer que estamos a atingir um novo estado civilizacional, ao qual são colocados cada vez mais exigentes desafios.

Na verdade, a par dos hábitos saudáveis de vida que procuramos promover, a par da proteção do ambiente que se impõe a todos nós, urge estabelecer-se uma mudança de paradigma na relação com os restantes seres vivos, os animais, que connosco convivem neste planeta que se pretende harmonioso, sendo que muitos deles integram a nossa cadeia alimentar. Estamos obrigados, como seres pensantes que afinal somos, a tratá-los com respeito; a dar dignidade à sua criação para abate; a não tolerarmos os maus tratos, o sofrimento desnecessário. Só assim pode- remos falar em progresso.

Posto isto, a prática das touradas é inaceitável. Porque se trata de uma prática bárbara - na sua essência, a tourada é ritualmente abater um animal, sujeito a prévia, penosa e contínua dor, para pura diversão do homem. É ainda uma prática arcaica, ao invés de ‘tradicional’ - se no passado remoto a humanidade não permitiu mais lutas de gladiadores, então por que devemos permitir nos dias de hoje a tourada? A antiguidade de uma tradição não pode servir para a justificar moralmente.
Tenho como certo que a abolição das corridas de touros é um processo natural de evolução de uma sociedade que se quer civilizada, e um desejo inequívoco da maioria dos cidadãos portugueses.

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