Correio do Minho

Braga, quarta-feira

Tomadas de decisão, erros estratégicos

O que nos distingue

Ideias

2010-05-12 às 06h00

Pedro Machado

“Não dar um passo maior do que a perna”. Nesta expressão se resume o assunto que vou abordar nesta crónica. Por vezes, certas tomadas de decisão colocam-nos em patamares que não se coadunam com a nossa realidade, resultando em erros estratégicos gravíssimos.
Sempre fui e continuo a ser da opinião que devemos ser ambiciosos, pró-activos, arrojados, mas nunca devemos construir “elefantes brancos”.
Este cuidado é ainda mais importante quando se trata de sectores em que são os contribuintes a pagar.
Mas falemos de casos concretos.

Na vizinha Espanha, dois dos melhores sistemas de resíduos da região da Galiza: SOGAMA - Sociedad Gallega del Médio Ambiente - participada maioritariamente pela Xunta de Galicia e que abrange a quase totalidade dos municípios da Galiza e Albada, empresa concessionária do Município de A Coruña que gere o sistema de tratamento resíduos localizado em Nostián.

Estes dois sistemas apostaram no tratamento biológico (triagem prévia, digestão anaeróbia e compostagem) e custaram na ordem dos 60 milhões de euros cada um, envolvendo investimento em equipamentos tecnológicos bastante avançados mas pouco experimentados e com má qualidade técnica no caso da triagem mecânica, revelando-se praticamente ineficazes.

Por exemplo no caso de Albada - A Coruña - os 4 digestores anaeróbicos estiveram inoperacionais desde 2005. Um deles ficou, inclusivamente, danificado em 2002 e não foi recuperado pois não justifica o investimento, dado que actualmente apenas dois funcionam a cerca de 20% do rendimento máximo. Isto origina um composto sem qualidade pelo que não pode ser comercializado, sendo apenas usado para cobertura no aterro.

Este problema é também originado pela fraca separação de resíduos por parte da população, o que faz com que certos resíduos cheguem à unidade de valorização orgânica prejudicando a produção de composto, como por exemplo, vidro, papel e plásticos que deveriam ter sido depositados nos ecopontos, mas que a população não faz essa separação prévia.

Neste momento, o sistema da SOGAMA está no limite da sua capacidade de tratamento, uma vez que, uma grande parte daquilo que chega, é depositado directamente no aterro. Para além disso, o sistema para um mês por ano para manutenção, período durante o qual, todos resíduos são depositados no aterro.

No caso de SOGAMA há ainda o problema da transferência de resíduos, uma vez que abrange a quase totalidade da Galiza, possui 22 Estações de Transferência. Estes locais servem para permitir o transvase dos resíduos provenientes da recolha municipal para contentores de maior capacidade que os transportam até ao Complexo de Cerceda, onde funciona a Unidade de Valorização. Este transporte origina elevados custos, significando 37% do custo total de tratamento dos resíduos.

Todos estes problemas originaram uma grande subida das tarifas, por exemplo, a empresa Albada solicita aos municípios 120€ por tonelada! O problema é que há municípios que não pagam aos sistemas. Segundo fontes da SOGAMA, esta sociedade possui uma divida de 14 milhões de euros, reclamando cerca de 6 milhões de euros aos municípios. No caso de Albada a dívida ronda os 40 milhões de euros!

Os problemas são muito graves, não só devido às dívidas por parte dos municípios e aos elevados custos de transporte, mas também porque os sistemas pura e simplesmente não funcionam tal como foram planeados, os aterros estão em colapso pois foram construídos apenas para os refugos da valorização biológica e não para todos os resíduos.

Como estão em causa investimentos elevados e muitos empregos, o Governo da Galiza injecta capital na SOGAMA para a manter a funcionar.
Não se pode dar passos maiores do que as pernas, há que construir infra-estruturas adap-tadas às nossas características e realidade. Fica a questão: quem irá pagar?

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