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Tocaram no pior que há na História

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Tocaram no pior que há na História

Ideias

2022-03-06 às 06h00

Joaquim da Silva Gomes Joaquim da Silva Gomes

O mundo assiste com estupefação, desde há uma semana, a um ataque perpetrado pela Rússia à Ucrânia, criando um cenário que já não estávamos habituados a ver na Europa, desde o final da 2.ª Guerra Mundial.
Foram vários os motivos que levaram à eclosão desse conflito mundial, sendo muitos os que falam na eventualidade de uma 3.ª Guerra Mundial.
Os acontecimentos a que assistimos desde há uma semana são uma cópia, quase fiel, dos que ocorreram em março de 1938, quando Hitler decidiu invadir a Áustria. Deixo ao critério de cada um dos leitores a associação do que aconteceu em 1938 e os acontecimentos que decorrem agora no leste da Europa.

Tudo ocorreu no dia 12 de março de 1938 quando as tropas Nazis de Adolfo Hitler invadiram a Áustria, argumentando que se tratava de um país irmão. O mesmo está a acontecer nos nossos dias, com a invasão da Ucrânia pela Rússia, sob o argumento de russos e ucranianos serem o mesmo povo, nas palavras do ditador Putin.
Os argumentos apresentados por Hitler para invadir a Áustria são semelhantes aos de Putin: “O Reich, quer a paz e ordem, e é por isso que resolvi pôr à disposição dos milhões de alemães da Áustria o apoio do Reich. Desde esta manhã, soldados do exército alemão atravessaram em toda a parte a fronteira austro-hungara”, refere o Diário do Minho, de 13 de março de 1938.
Como consequência desta invasão, logo nesses dias, a população começou a fugir da Áustria, com destaque para os cidadãos judeus: “Os comboios que seguiram para a Tchecoeslováquia foram revistados com especial cuidado pelas S.A. em razão dos muitos judeus que, não se julgando seguros, procuravam refúgio nos países vizinhos”.

Perante esta invasão, a França e a Inglaterra pouco fizeram, limitando apenas ao protesto da anexação pelos embaixadores da França e da Inglaterra, em Berlim.
Com a anexação da Áustria, o império alemão passou a ter 75 milhões de “alemães” e ainda mais 110 mil soldados austríacos, que se juntaram ao exército alemão. Os outros países pouco fizeram, limitaram-se simplesmente a condenar a invasão!
Em 1938, a Alemanha pretendia destruir a França, por se tratar da única potência que poderia fazer frente aos alemães e aplicar na Europa o célebre programa do “Mein Kampf”, que visava a apropriação de todos os territórios da Europa Central que permitiriam à Alemanha ter acesso a mais produtos alimentares, matérias-primas e petróleo.
Depois de anexarem a Áustria, os alemães já planeavam atacar a então Checoslováquia, mas ninguém os levava a sério!

A 15 de março de 1938 o “Diário do Minho” alertava “Que ninguém se engane: A Europa dominada por Hitler é a guerra dentro de pouco tempo e em piores circunstâncias que aquelas que jamais conhecemos”. Hoje são cada vez mais os que dizem que a Guerra na Ucrânia poderá alastrar-se a outros países, transformando este conflito à escala mais alargada, até global. Em 1938 acertaram em cheio! Hoje veremos o que irá acontecer.
Após a invasão da Áustria pela Alemanha, as tropas nazis dispuseram-se em torno das fronteiras da então Checoslováquia e Hungria. E ninguém fez nada! Hoje as tropas russas aproximam-se de fronteiras de países da União Europeia…
Em Inglaterra, a Câmara dos Comuns protestava com os métodos adoptados pela Alemanha e ainda por esta ter anexado a Áustria. Hoje o Parlamento Europeu, a ONU ou a NATO protestam contra a invasão da Ucrânia.
No dia 15 de março de 1938 Hitler participou num imponente desfile militar em Viena, sendo calorosamente saudado pelos austríacos! Alguém duvida que será isso que irá acontecer em breve, com Putin a passear-se pelas ruas de Kiev?

O jornal alemão “Die Zeit” publicou um texto, no dia 14 de março de 1938, referindo que “Tomaram-se nestes últimos dias decisões de extremo alcance para o povo alemão. Não há alemão, onde quer que viva, que não comungue do entusiasmo dos seus irmãos e irmãs da Áustria”. Alguém duvida que a tomada da Ucrânia originará narrativas dos russos a afirmar que a sua nação e a da Ucrânia comungam dos mesmos objetivos e entusiasmo por esta vitória militar?
Entretanto, na Alemanha foram proibidos os jornais estrangeiros, com especial destaque para o “Times”, o “Daily Telegraph” e o “Le Jour”, jornais muito lidos na Alemanha. Hoje são vários os jornais estrangeiros e outros meios de comunicação censurados pela Rússia.

Os alemães, mal entraram na Áustria, resolveram prender e perseguir várias pessoas. Para além dos Judeus, há a destacar a prisão de Max Von Honhberg, filho do célebre arquiduque Francisco Fernando, que tinha sido assassinado em Sarajevo, em 1914, e ainda do seu irmão, o príncipe Ernest Von Hohnberg! Hoje a lista de ucranianos presos ou mortos aumenta a cada dia que passa. Em breve saberemos a identidade dessas vítimas!
Apesar dos alemães referirem de forma propagandística que os austríacos desejavam integrar a Alemanha, o certo é que os nazis usaram da força e da violência para anexarem a Áustria, tal como referiu o chanceler austríaco, nas suas últimas palavras, caindo desmaiado e assim ficando durante bastante tempo, após as proferir.

Um jornalista belga, do “XX.º Siecle”, referiu a 13 de março de 1938 que logo pela manhã desse dia em que Hitler visitou a Alemanha “…começaram a avançar pela praça numerosos grupos de populares, trazendo à frente bandeiras brancas e vermelhas, e gritando intensamente: - Viva a Áustria independente! Viva a Áustria independente! E mais claramente: Viva Schuschning!”.
Entretanto, em Viena, a multidão era cada vez maior, perante os camiões com soldados alemães, armados com metralhadoras e com vários fios de arame amarrados às árvores, aos postes e aos candeeiros.
O ataque da Alemanha à Áustria, em 1938, originou desde o primeiro dia a fuga de milhares de austríacos, sendo muitos deles judeus. Os comboios de Viena para Varsóvia transportavam centenas, milhares de refugiados! Hoje são milhares os que fogem, em comboios e outros meios, de Kiev e de outras cidades ucranianas, para Varsóvia, Bucareste, entre outras cidades.

A Alemanha Nazi era intolerante, desumana e perseguidora. Hitler julgava-se omnipotente e senhor absoluto que dispunha da vida e da liberdade alheias.
A 3 de julho de 1938 o “Notícias de Guimarães”, ridicularizava a situação do momento dizendo que “o senhor Hitler é para os Alemães um deus em carne e osso, um enviado cujo espírito divino …”. Não será hoje a militarizada Rússia intolerante, desumana e perseguidora? E não será Putin um senhor absoluto que dispõe da vida e da liberdade alheias?
A democracia, como constatamos, deve ser alimentada permanentemente, diariamente, tal como um ser vivo, para que sejam evitados acontecimentos como os que assistimos atualmente.
Putin e a sua Rússia militarizada tocaram no pior que há na História da Humanidade!

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