Correio do Minho

Braga, quarta-feira

The day after

Prémio Nobel da Medicina

Ideias

2016-06-27 às 06h00

Carlos Pires

Faz hoje oito dias que a Professora Doutora Felisbela Lopes, neste mesmo espaço de opinião, e sob o título “Por favor, não vão embora”, alertara para a importância das consequências do referendo no Reino Unido. “Os resultados ditarão o futuro de todos nós”, referira a reputada professora da Universidade do Minho, tendo ainda alvitrado que “se a resposta britânica for a favor da saída, então estaremos aqui a falar de um verdadeiro terramoto”. Pois é, infelizmente o pior dos cenários confirmou-se: ganhou o “não” à permanência do Reino Unido na União Europeia (Brexit). Ao contrário do que as ultimas sondagens divulgaram, a comoção coletiva pós assassinato da deputada pró-União Europeia Jo Cox não foi suficiente para alterar o sentido de voto de 51,9% de britânicos…
Não tenho dúvidas de que o (demissionário) primeiro-ministro britânico, David Cameron, sempre achou que o referendo, apesar de arriscado, seria controlado. Mas não! Transformou-se num processo com um resultado impactante, e relativamente ao qual temas como o terrorismo, a imigração, ou ainda a possível integração da Turquia na União Europeia, não serão alheios. Sim, a velha e democrática nação europeia não pode negar os condimentos de saudosismo e xenofobia com os quais cozinhou a sua decisão de saída da Europa. Os mesmos ingredientes, de resto, de que se alimenta, do outro lado do oceano, o projeto Donald Trump…
É um resultado de todo imprevisível? Na realidade, convenhamos, o Reino Unido sempre desdenhou o projeto europeu. Sempre esteve com um pé-meio-fora-meio-dentro, recusando dar qualquer passo que correspondesse a uma maior integração (a moeda única, a Carta dos Direitos Fundamentais, Schengen). Sempre manifestou a posição, orgulhosa, e à boa maneira inglesa, de quem estava a fazer um favor (e um frete!) aos outros. Sim, eles, a “ilha”, como se fossem um continente à parte. O discurso do “agarrem-me senão eu fujo” foi uma constante da presença britânica na União Europeia, para o qual, com toda a sinceridade, e obviando todas as consequências da saída, já não havia pachorra.
Apesar dos festejos de rua que visionamos na televisão, por terras de Sua Majestade, na 6ª feira, e após ser conhecido o resultado do referendo, entendo que se tratou de uma má escolha, com consequências internas no Reino Unido, quer do ponto de vista económico (elucidativo o facto da libra esterlina ter estado em queda livre nos mercados cambiais, atingindo o valor mais baixo desde 1985 face ao dólar…), quer do ponto de vista político (aumento da tensão com a Irlanda do Norte e com a Escócia, que votaram maioritariamente a permanência na União Europeia e que não aceitam o veredicto final), quer ainda do ponto de vista da influência que os britânicos tinham na União.
E agora? Que vai acontecer à comunidade, que, desde o Tratado de Lisboa de 2009, se designa União Europeia? O risco de contágio é real: vários responsáveis políticos de outros Estados membros manifestaram o desejo de convocar votações semelhantes. Com efetivo risco de serem, tal como no Reino Unido, votações bastante divididas, que ponham a nu as fragilidades da União Europeia, e que beneficiem de algum aproveitamento político de forças extremistas e eurocéticas.
Estamos habituados há muito à expansão territorial da União. É a primeira vez que presenciamos a saída de um dos seus membros e a crise está instalada no projeto europeu, cada vez mais um gigante com pés de barro.
Só há uma forma capaz de travar a estagnação e o declínio: aprofundar a união política e os mecanismos de participação, reforçando os poderes políticos de órgãos democráticos, como o Parlamento Europeu, e, proporcionalmente, desinvestir em órgãos burocráticos, como a Comissão Europeia. Independentemente das assimetrias económicas dos países que a compõem, a União Europeia tem de deixar de ter como rosto a Alemanha. Em resumo, mais democracia, mais proximidade, mais igualdade. Se isto será suficiente? Sinceramente, não sei.

Deixa o teu comentário

Usamos cookies para melhorar a experiência de navegação no nosso website. Ao continuar está a aceitar a política de cookies.

Registe-se ou faça login

Com a sessão iniciada poderá fazer download do jornal e poderá escolher a frequência com que recebe a nossa newsletter.




A 1ª página é sua personalize-a

Escolha as categorias que farão parte da sua página inicial.

Continuará a ver as manchetes com maior destaque.