Correio do Minho

Braga, quinta-feira

Terroristas e refugiados

Uma carruagem de aprendizagens

Ideias

2016-04-03 às 06h00

Artur Coimbra

1. Que o mundo está a tornar-se um lugar pouco recomendável, em virtude da acção dos fanáticos terroristas suicidas, que espalham a morte e o pânico em alguns locais, parece não restarem nenhumas dúvidas.
Em Novembro do ano passado, os extremistas e amantes do terror atacaram Paris, provocando uma mortandade indescritível. Em 22 de Março, fizeram dezenas de mortos em Bruxelas, atingindo o coração da Europa e a sede das instituições democráticas. No domingo passado semearam o terror em Lahore, a segunda maior cidade do Paquistão, provocando mais de 70 mortos, sobretudo mulheres e crianças (29), além de ter ferido 315 pessoas, por ter ocorrido num parque infantil muito frequentado.
E os exemplos da carnificina podem multiplicar-se, em diversos palcos por aí fora.
Os terroristas continuam a ameaçar outros países e até já anunciam acções contra Portugal, o que não deixa de ser assustador, porque o autodenominado Daesh, essa corja de assassinos e criminosos, recruta a escória e os desintegrados da sociedade em todos os países, incluindo o nosso, que não se importa de matar e de morrer, em nome de princípios e de recompensas perfeitamente absurdos e sem qualquer sentido, para os ocidentais. É terrorismo puro e duro, sem alma nem coração, que visa semear o terror em todo o mundo, com o propósito último de mudar o paradigma ocidental, fazendo retroceder o mundo à idade das trevas, ao puro medievalismo da barbárie. Está em causa uma ameaça civilizacional e cultural, que nos deve fazer pensar e inquietar profundamente.
Obviamente, tudo começa com ditaduras e conflitos políticos e religiosos em locais como a Síria, o Iraque ou o Paquistão, a que se associam ódios seculares e, como é evidente, um fabuloso comércio de armas dos países ocidentais e da Rússia que, hipócrita e farisaicamente, mascaram o negócio com uma pretensa intervenção contra o “produto” das suas políticas, o radicalismo, o extremismo, o terrorismo.
Que cada vez mais começa a banalizar-se, a deixar de ser notícia, a configurar apenas um número de mortos e feridos, uma estatística, uma desumanidade, sobretudo se é mais longe da nossa vista e do nosso paradigma civilizacional.
A este mesmíssimo propósito, gostaria de juntar um breve e belo texto do jornalista Valdemar Cruz, no Expresso Diário de 31 de Março, que expressa claramente o alheamento que se vai apossando dos europeus e de cada um de nós face ao fenómeno, quando se desenrola lá para as Áfricas e o Médio Oriente:
“O longe é um lugar sem nome. Não o conhecemos. Não existe. Não nos comove. Não mobiliza o fluxo de notícias. Fala-se durante os instantes iniciais e depois é como se o nada constituísse o quotidiano daquela gente de quem nada sabemos. Não sabemos como riem. Não sabemos como beijam os filhos. Não sabemos como amam. Não sabemos como dançam. Não sabemos se dançam. Não sabemos nada dos homens, das mulheres, das crianças do Iraque, do Iémen, do Chade, da Costa do Marfim, do Mali, da Síria, de Kabul, de Islamabad. Não sofremos com o que não conhe- cemos. Não compreendemos o que não conhecemos. Não vivemos os desgostos, a dor daqueles que desconhecemos. A ignorância é um lugar muito distante.  Quem vive naquele longe são pessoas. Podem morrer 70, 100, 200 e não será o mesmo que morrerem 5, 10, 20, em Paris, Londres, Bruxelas ou Washington. A conta- bilidade das mortes é pornográfica. Mas não há maior pornografia moral do que deixarmo-nos enredar naquela voraz máquina noticiosa que faz perceber como não somos iguais. Nem na morte. Porque a minha morte é melhor que a tua”.
2. E à medida que cresce e se avoluma por essa Europa fora o fenómeno da islamofobia, em resultado exactamente do terrorismo que vem das mesmas regiões, cresce igualmente a rejeição dos refugiados que fogem da guerra, da fome, da pobreza e da injustiça nos países de origem e que a Europa está a tratar desigualmente e de forma cada vez mais agressiva, injusta e desumana (veja-se o caso da Polónia, da Hungria e de outros governos, que até levantam muros de vergonha, em pleno séc. XXI, para suster as migrações).
A identificação entre o terrorismo fundamentalista islâmico e o fluxo de refugiados que chega à Europa é um dos sofismas mais absurdos que é repetido. Uma coisa é uma coisa e outra é bem diversa. A tal ponto que o próprio Papa Francisco, na sua mensagem de Páscoa, há oito dias, tenha vindo condenar essa atitude dos europeus face aos refugiados. O líder da Igreja católica lamentou que, muitas vezes, as pessoas que procuram 'um futuro melhor' tenham apenas duas opções: a morte ou a rejeição da hospitalidade. O Sumo Pontífice falou contra a rejeição de migrantes e de refugiados, numa altura em que a Europa enfrenta a maior crise humanitária desde a Segunda Guerra Mundial.
- “Muitas vezes, estes nossos irmãos e irmãs encontram-se pelo caminho com a morte ou, em qualquer situação, com a rejeição dos que podem oferecer-lhes as boas-vindas e assistência”, acrescentou ainda o pontífice.
O terrorismo islâmico tem raízes na guerra civil entre xiitas e sunitas, em diversos países. Imensas famílias de refugiados que chegam à Europa são vítimas da perseguição e tentativa de aniquilação das comunidades cristãs do Médio Oriente que cresceu exponencialmente desde o derrube de Saddam Hussein, no Iraque, decretado pela imbecilidade de um lunático presidente americano (Georges Bush), acolitado pelos tolos úteis da Europa, entre os quais se conta o português Durão Barroso. Tudo piorou nessa região desde a intervenção aliada, a perseguição aos cristãos (em 2003 viviam 1,5 milhões de cristãos no Iraque, contra menos de 300 mil nos dias de hoje, o mesmo acontecendo na Síria, onde os cristãos são massacrados pelo indevidamente chamado Estado Islâmico), a guerra fratricida, as formas ditatoriais de poder e o terror crescente e cada vez mais selvagem e irracional (dos talibans, à al Qaeda e ao Daesh).
O Ocidente é obviamente culpado pela fogueira destruidora em que se transformou aquela região e a política incompetente e desencontrada - movida o mor das vezes por considerações eleitoralistas e demagógicas - dos líderes europeus acabou por contribuir para o gigantesco problema humanitário que ocorre nos nossos dias e para a avalanche de refugiados que chegam aos portos da Grécia ou da Itália e aos quais ninguém sabe o que fazer, nem como tratar.
E normalmente são maltratados, escorraçados, abandonados em “campos de concentração”, chamados de acolhimento, sem condições humanitárias mínimas, os que tiveram a pouca sorte de viverem em países que a guerra e a fome está a transformar em montes de destroços.
Urge a urgente resolução destes problemas, para que o sofrimento, a morte e a ausência de futuro de milhões de seres humanos sejam minimizados!

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