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Terrores e delírios

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Ideias

2016-05-15 às 06h00

José Manuel Cruz José Manuel Cruz

David Vallat publicou um livro, e apareceu na televisão. David é francês, homem dos seus 44 anos, vividos como por poucos. “Terror de Juventude” tem o livro por título - Terreur de Jeunesse.
Do que apanhei da entrevista, grosso modo seria ele de católica origem, não particularmente fervorosa, no entanto. Teria feito o serviço militar como atirador, desobrigado do qual, bem instruído nas artes do tiro de precisão, se achou na Bósnia, mas do lado dos muçulmanos. Assim entendia combater as injustiças e auxiliar os mais fracos. Da Bósnia ao Afeganistão, por assim dizer, foi um tirinho. Regressado ao país natal, emparceirou com argelinos do GIA, vendo-se a contas com a Justiça e incriminado pelos atentados de 95. Cumpriu pena de prisão, durante a qual aproveitou para obter um diploma universitário. Saiu e mudou de vida. É, ao presente, quadro superior de respeitável empresa, sendo que os patrões nada conheceriam dos seus engajamentos de jovem adulto.

Quebra o anonimato, David, para alertar os jovens - como ele foi - dos perigos da radicalização islâmica. Chocaram, a David, os assassinatos frios do Bataclan e das esplanadas parisienses. Que a tal jamais se teria ele disposto, regista. Em maré de franqueza, porém, reconhece que, sendo quem é, sem remorsos teria participado em raide punitivo ao Charlie Hebdo, porque eram “inimigos da fé”. Já não mata, David, em desagravo de divindade ou iluminado profeta, já não purga com sangue a ousadia deicida de hereges ou blasfemos, mas o estafermo vingativo continua-lhe anichado no íntimo. E autojustificado.

Vem a público, David, ao que diz, por nada haver mudado nas campanhas de recrutamento, senão para melhor. Que os endoutrinamentos, fixados então em registos VHS, passados sigilosamente de blusão para blusão, mais ágeis correm hoje na net. Mas a ladainha hipnotizante, as promessas, bem se mantêm nos termos de outrora. David é um converso, e não é o único. Reportagem, difundida nos princípios de 2015, registava a vaidade de mesquita salafista de Molenbeek: só à sua conta, seriam à roda de 600 por ano, os conversos!

Que o radicalismo belicista islâmico é a resposta em negativo à xenofobia cultivada pelos ocidentais, que o delírio terrorista é o canal por onde escorre a integração social e cultural que o Ocidente nega aos muçulmanos, apregoam comentadores e políticos de tuta-e-meia, repletos de meias-verdades e néscias ignorâncias. E os conversos, que tão pronto acolhem nova fé, como logo se vêem cruzados de espada desembainhada?

Em nome das Luzes, para que o Homem progredisse, para que o retrógrado e o obscurantista jazesse definitivamente no passado, decretou-se no Ocidente a obsolescência da fé. Os Estados seriam laicos, regidos por códigos civis; a Razão positiva ocuparia o sacro lugar a Deus reservado, e a finitude instituída como único horizonte. Vergou e acomodou-se, o catolicismo: que mais lhe restava? Mas eis senão quando, sem expresso convite, nos entra o Islão pela porta dos fundos! E não é que que a prerrogativa antes retirada a uns, parece hoje difusamente acordada a outros, em nome de prosaico multiculturalismo!

Saúda, o comissário Moscovici, a eleição de um Sadiq e, a coberto da emoção, acrescenta que “a Europa não é cristã”, que ele “não acredita nas raízes cristãs da Europa, que a Europa é diversa”. Até onde quer ir ele com as raízes, até ao paganismo? Bom, por aí, até o aventalinho de chiço é um progresso.

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