Correio do Minho

Braga,

Teresa - a cidadã intemporal

Mercado de trabalho em Portugal: pontos fortes e pontos fracos

Escreve quem sabe

2014-10-17 às 06h00

Carlos Alberto Pereira

Celebrou-se, no passado 15 de outubro, o dia Santa Teresa de Jesus, nascida em Ávila (Espanha), no dia 28 de março de 1515. Em todo o mundo, as comunidades Carmelitas e Teresianas celebram já o V Centenário do nascimento da Santa, como é designada na sua terra natal.
Inserido nestas comemorações, vai realizar-se, em Fátima, nos dias 17, 18 e 19 de outubro, o II Congresso subordinado ao tema “A Experiência Mística Cristã”.

Aos 39 anos esta carmelita opera uma profunda mudança na sua vida, iniciando o ciclo a que ela própria chamaria a sua vida mística que a leva a viver em dois planos distintos e complementares: o plano contemplativo - a sua relação com Deus, e o plano da ação que a leva pela atividade intensiva desenvolvida a ser uma mulher fundadora e escritora.

Por esta vida intensa de oração e de ação, não espanta que Teresa, juntamente com Catarina de Sena, tenha sido a primeira mulher a ser declarada Doutora da Igreja, no dia 27 de setembro de 1970, por Paulo VI. Teresa foi uma Mulher inspiradora para várias gerações e para aqueles que se dedicam à educação com valores e o para valores de cidadania.

Não deixará de ser curioso que, para o público, tenha sido o Arcebispo de Évora, D. Teotónio de Bragança, grande amigo de Teresa que tenha pedido à carmelita espanhola para que publicasse o seu manuscrito “Caminho de Perfeição” tendo o próprio Arcebispo escrito o prefácio desta obra que foi publicada, em estreia, em Portugal nos inícios de 1583, uns meses depois do falecimento da autora, a 4 de outubro de 1582.

Teresa confessa a sua relação com Deus no livro da “Vida” o seu percurso, a sua intimidade mais absoluta, as suas angústias e as suas alegrias, a eterna luta entre o mal e o bem (o pecado e as graças). Este livro, quando ultrapassou o circulo íntimo do grupo e caiu no “domínio” público, pela forma como apresentava a narrativa, atraiu, de imediato, os olhares da inquisição espanhola.

O ”Caminho da Perfeição” é um livro de pedagogia espiritual, é a primeira pedra de um edifício educativo que orientará a vida das suas comunidades, com percursos reais, isto é, respondendo aos problemas, quer da Igreja, quer da Humanidade, que levam os caminhantes em direção a Deus. Delicadamente esta obra marca a assunção de novos papéis da “mulher” na Igreja e na Sociedade. Aliás, por ser uma visão “nova”, diria mesmo, inovadora na Missão da mulher no Mundo, trouxe grandes dificuldades à sua publicação, designadamente em Portugal.

Em 1577, com 62 anos de idade, Teresa escreve “Moradas” ou “Castelo Interior”, considerada a sua obra prima. Obra profundamente mística, arrancada do íntimo das suas próprias vivências. Nela se descobre um percurso, marcado pelo ponto de partida - Deus que é connosco, um movimento de aproximação, que se pretende, permanente - a oração e a interioridade, e um ponto de chegada - a santidade, a comunhão em Deus.

Este percurso espiritual que permite entrar no castelo e a caminhada pelas suas sete moradas são a preparação para o encontro supremo com Deus. É uma obra cujo público-alvo são as suas freiras, mas não deixa de visar aqueles que ameaçavam a sua obra. De forma sublime, é uma resposta às dúvidas ou às insinuações daqueles que, no chamado século de ouro de Espanha, continuavam a olhar para o “velho mundo” e para o “Homem Velho”. Teresa apresenta uma leitura dos novos sinais dos tempos, como diríamos hoje, e sabe que, como lembra Tiago (2, 17) «A fé: se ela não tiver obras, está completamente morta».

Finalmente, surge a quarta grande obra de Santa Teresa, “O Livro das Fundações”, escrito ao longos dos últimos 10 anos de vida (de 1573 a 1582), que acompanhou o aparecimento das suas fundações e reflete por isso o olhar maternal de Teresa, o seu humanismo, a sua capacidade de entrar dentro de cada uma das suas irmãs, mas com toda a jovialidade e ingenuidade de criança.

Santa Teresa de Jesus, revela-se, nos dias de hoje, como um modelo profundamente atual, quer pela sua visão inovador do mundo, quer pela missão de cada um de nós, neste mundo de Deus e dos Homens, quer ainda pela estreita ligação entre a nossa vida espiritual e humana com a vida do “outro”. Com ela percebemos que a Cidadania não é apenas um conceito, mas é sobretudo um “modo de viver”.

Mostra-nos um Deus que parece uma pessoa conhecida, que só por mera distração não reconhecemos, mas ficamos com a estranha sensação do “parece-me que o conheço de qualquer lado”. Teresa convida-nos a olharmos para o nosso interior para O descobrirmos e descobrirmos os outros.

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