Correio do Minho

Braga, quarta-feira

Teologia fiscal

Por mais cultura do treino e treino baseado na ciência

Ideias

2016-05-01 às 06h00

José Manuel Cruz

Não me agarrarei ao homem quanto gato por bofe se assanhe, mas quem muito se espanta de constar seu limpo nome em execrável lista de fiscal paraíso, quem com pia face testemunha que jamais procedeu a qualquer operação como administrador de esquiva sociedade - sinceridade que registamos e acolhemos - bom fora que no embalo lhe houvessem perguntado, então, como é que sóbria pessoa em tão estranha companhia se vira achada. Eu, que não suspeito que capitais possua em parte alguma, a confrontarem-me com semelhante recorte, nada de outro me ocorreria que exclamar: - Ai sim!? E quanto me toca?

Contudo, santo sendo o aludido homem, quem senão ruim alma estranhará que domicílio tenha em intangível paraíso? Santidade atingida em vida, naturalmente, por força de desvelos incontáveis em prol dos mal protegidos, pois não o ouvíramos nós, minutos antes, verberar contra aqueles que, em decénios recentes, malbaratado tinham mares de dinheiro numa qualificação trôpega e torpe da mão-de-obra nacional? Assalariados ditos imprestáveis em economia que marca passo - pasme-se! - por carestia de quadros dotados de competências de ponta e motivação quanto baste para inundar de produtividade as empresas nacionais ávidas de genuíno progresso! E não rastreie ele, conde da democracia portuguesa, clientes, amigos ou afilhados, entre os que vitupera anonimamente.

Eriçam-se, os portugueses - por via dos que tenham património parqueado em ilhas virginais ou estados de banca flibusteira? Julgo que nem por isso. Depare o mais insignificante dos cidadãos com inesperado baú de notas, que, logo possa, o põe ao fresco com a maior das sem cerimónias. É de crer, por outra, que bem se abespinhem com a estagnação da Escola e com a paraplegia do modelo de qualificação profissional à disposição de filhos e, de uma feita, dos próprios, que muito calha a homem e a mulher feita arrancar cabelos sem saber que novo rumo dar à vida.
Haverá, algures, um plano nacional de reformas, e qualquer coisa entre as ditas tocará à Escola e à Formação Profissional. Retenho dois factos recentes: o debate de 6 de Março no PEB consagrado a questões da Educação, e o número astronómico de 32 mil milhões € que a França consagra por ano a esta rúbrica.

Do que em Braga se passou vi qualquer coisa nestas páginas e não fiquei entusiasmado. Ultrapasso a vaidade de dizer que muito poderia aduzir, tanto que não cabe em matéria de inócua crónica. Quero registar, porém, que o ensino em Portugal não carece de revisão integral, até porque, no terço superior dos alunos - os de elevado rendimento - as coisas bem que funcionam, e não frequentam, todos, estabelecimentos particulares e elitistas. O problema reside nos que se posicionam no terço inferior, e para esses é preciso pensar de modo radicalmente distinto, exercício que melhor executarão outras cabeças, que não as que de Lisboa lavram os mesmos sapientíssimos discursos anos a fio.

Quanto ao montante que em França se consagra à formação profissional. Quão superior ele não seja em termos absolutos, e em termos relativos - acomodando a diferença populacional -, tenho a dizer que por cá ninguém se mostra radiante, de modo que, o que o disse Senhor Engenheiro das distorções ocorridas em Portugal, igual poderia repetir alma gémea sua com domicílio em arrondissement chique de Paris.
Em suma: de que adianta estourar 2, 4, ou 30 mil milhões, se, quem o faz, são os cândidos engenheiros do costume.

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