Correio do Minho

Braga,

Tempo contado

Verbos defetivos

Voz aos Escritores

2019-04-05 às 06h00

Fabíola Lopes

90 segundos. 60 segundos. 30 segundos. Depende se estamos de carro ou a pé. A perspetiva muda, como em tudo, dependendo do lugar onde estamos. A geografia comanda contextos, acções e percepções.
Aqui, umas luzes amarelas, pequenas mas muito juntas, dizem-me o tempo que tenho de esperar até poder avançar. De carro ou a pé. Avisam-me. Previnem o trânsito ou tentam que a atenção do condutor ajude neste fluir frenético, nesta ânsia de ultrapassar os pontos de pára-arranca em cada conjunto mais alargado de segundos stressados, de manhã e ao final da tarde. Um garrote que faz pulsar a adrenalina e a má-educação. Pode muito bem funcionar como um espelho, o espelho da verdade, qual bruxa má, onde o carácter de cada um é revelado, no seu extremo. Caras cerradas, músculos tensionados, lábios apertados. Ou abertos. As mudanças entram em força, aceleram-se fúrias, descarregam-se frustrações.
Há uns anos um taxista brasileiro confidenciou-me gostar muito de Portugal e do povo português. Que tinha sido muito bem tratado e acolhido. Só não conseguia perceber a mudança que ocorre quando se sentam atrás de um volante. Estupidificam, ficam brutos, disse-me.
Na altura, nos términos da adolescência, nunca me tinha ocorrido nem tinha, por isso, parado para observar e reflectir sobre o assunto. Mas, como em todas as revelações externas, passou a acompanhar-me, com mais ou menos incidência, dependendo do contexto. A vida avançou, como os segundos que visualmente deslizam à minha frente.
Tempo, considerações, perspectivas, contextos. Tudo fugacidades que teimamos em agarrar ou fazer de conta que dominamos, para nos enchermos de uma falsa sensação de controlo, contabilidades à flor da pele. Tempo que nos leva e que nos traz, aqui e ali, as vivências por vezes esquecidas e enterradas no tempo. Às vezes um cheiro, às vezes um gesto de quem passa, uma peça de roupa em movimento, e lá estamos nós fora daquele carro, numa outra cidade, numa outra casa, com outras pessoas, a ser quem gostamos mais de ser: observadores de coisas vividas. Recordar não é só viver novamente. É poder ver melhor o que aconteceu, analisar o que foi dito, vezes sem conta, como reagimos, o que pensamos e o que sentimos. De quando em vez a descoberta de uma nova perspectiva, um novo sentido, uma intenção disfarçada ou um carinho escamoteado. Uma revelação para depois desfazermos em martelados compassados, pensamentos circulares de moagem. É também com estas decifrações que nos fazemos gente, que construímos identidade e que nos dilatamos no tempo, que foi nosso e de outros que caminharam connosco, respiraram este ar, pulsaram a mesma terra debaixo dos pés. Preenchemos definições, descrições e contextos, como um mapa pormenorizado com linhas mestras de caminhos, atalhos e avenidas. Aquelas que nos aparecem depois no rosto e nas mãos e nos distingue uns dos outros.
Nunca antes me tinha apercebido do tanto tempo que perco em frente a uma luz vermelha. Ou a muitas amarelas a significarem o tempo a escorrer a vida diante dos olhos. Ou então o que, até sem saber, ganho com isso.
E de repente a questão de os alunos dos cursos profissionais poderem aceder às universidades sem prestarem provas assalta-me. Que tempo este de enganos e de ilusões! Vozes críticas erguem-se e enchem-se de injustiças. A maior que vejo é andar a alimentar ilusões a troco de propinas, deixar entrar alunos que andarão por lá dois ou três anos, a pagá-las, sabe-se lá com que esforço dos pais ou seu, antes de desistirem. No entretanto, nem as universidades resolvem estruturalmente o seu problema de falta de alunos e de adequação da oferta académica à realidade do mercado de trabalho, nem os alunos resolvem a sua escalada social ou evolução pessoal. É avó, anda meio mundo a enganar outro meio, como me dizias.
As luzes amarelas desapareceram e uma luz verde e redonda prende agora a minha atenção. Já posso avançar no meu percurso. Mas há quem demore muito mais até poder avançar no seu. Às vezes, o tempo de uma vida.

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